10/05/2008 Número de leitores: 817

Chacal e a APCA

Claudinei Vieira Ver Perfil

Por Claudinei Vieira

 

Vai ter uma festa

que eu vou dançar

até o sapato pedir pra parar.

 

eu paro

tiro o sapato

e danço o resto da vida.

 

Eu sei que olhava para isso, lia, curtia, gostava, e não entendia muito bem. Estava em uma agenda escolar, daquelas com citações, poemas e lembranças em cada página, um texto diferente por dia, e ali estava esse, e eu não entendia. Era um poema?! Isto é, era bom, bacana, divertido, lúdico, brincava com o texto na minha cabeça e o remexia volta e meia. E, bom, poesia ?Poesia? era chata, né, ensinada na escola, forçavam-nos a engolir glosas de poemas, ?as armas e os barões assinalados?, um horror. O pior, no caso da agenda, era o cara se assinar como Chacal (isso me remetia a uma figura de terrorista de cinema norte-americano, ?O Dia do Chacal?, em que um assassino tenta matar o presidente da França...). Isto é, não podia ser sério! Em uma outra página, tinha mais um do mesmo cara:


 

Veiu uns ômi di saia preta

cheiu di caixinha e branco

qui eles disserum qui chamava açucri

eles falarum e nós fechamu a cara

depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo

eles insistirum e nós comemu eles.

 

pensei assim comigo mesmo ?hum, entendi, é meio que uma piadinha, certo?? (ainda não havia pegadinhas do Faustão na época). E logo depois mais um:

 

se o mundo não vai bem

a seus olhos, use lentes

... ou transforme o mundo.

ótica olho vivo

agradece a preferência

 

Claro, decidi, é assim mesmo, divertido, e passei pra frente, me ative com um poema do Brecht (?isso sim é poesia E politicamente engajada?) e dei um bom tempo (muito embora, não conseguia evitar de lembrar, às vezes e em horas inesperadas, do ?e danço o resto da vida?, que bulia com minhas emoções; eu ainda não conseguia entender).

 

Muitos anos depois, quando começava a deixar de ser besta, me deparei com ?Desabutino?:

 

quem quer saber de um poeta na idade do rock

um cara que se cobre de pena e letras lentas

que passa sábado a noite embriagado

chorando que nem criança a solidão

 

quem quer saber de namoro na idade do

um romance romântico de cuba

cheio de dúvidas e desvarios

tal a balada de neil sedaka

 

quem quer saber de mim na cidade do arrepio

um poeta sem eira na beira de um calipso neurótico

um orfeu fudido sem ficha nem ninguém para ligar

num dos 527 orelhões dessa cidade vazia

 

tive que parar e começar a entender que os meus desconcertos anteriores tinham base direta na força com que estas palavras me pegavam. Comecei a saber mais, a querer saber de tudo sobre o Chacal, e permitir que sua dança fizesse parte de minha existência. Desta vez, conscientemente.

 

Então fico pensando (um gerúndio no texto inteiro não tem problema): os senhores-sabedores da cultura nacional e que, pretensamente, não eram tão bobos assim como eu e nem tão ignorantes e que inclusive até reconheciam seu trabalho (vagamente lembro de algum texto que o elogiava), na realidade agiam com o mesmo despreparo e o mesmo desconcerto meus! Pois que somente agora Chacal recebeu um reconhecimento ?Oficial?, um ?prêmio? pela APCA. E, para mim, isso é muito contraditório! Pela primeira vez! No dia 05 de maio de 2008, segunda-feira, no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Tudo bem, muito simpático da parte da APCA e tudo, mas, pô: primeira vez! É tão pouco! E somente agora! Vou parar de colocar pontos de exclamação. Passo para o próximo parágrafo.

 

Gostaria muito de ter estado . Pena que, no mesmo dia 05 de maioeu tomava conta de outro evento de poesia quase no mesmo horário.

 

gostaria de citar mais dois momentos de emoção (os quais imagino que o tenham atingido também com a mesma força) (e até mais, é claro): Fernanda D´Umbra ao recitar seus poemas em plena rede Globo, obrigou uma porrada de amigos a assistir ao Domingão do Faustão de domingo (!). Mais do que emocionante, em verdade, foi muito inusitado aquilo: Chacal em rede nacional! Ainda consigo ver a figura da Fernanda, a cara de moleca sabedora que fazia travessura, falar ?e danço o resto da vida?. Ah, foi tudo tão rápido, nem consigo lembrar quais foram os demais poemas. Espero que alguém tenha gravado isso.

 

Marcelo Montenegro, Fábio Brum, Pagotto (e o rapaz da bateria que sempre esqueço o nome) no fechamento de sua apresentação do ?Tranqueiras Líricas? com ?Desabutino?, na Casa das Rosas durante a última Virada Cultural em São Paulo, o som da guitarra e do baixo e da batera, a voz calma de Marcelo, no tom exato das palavras. Ele anuncia Chacal, este anda de um lado para o outro, sobe ao palco, desce, deixa fluir a música, sabe exatamente como criar o clima, sua vozoutro tom, rasga a noite, desce ao coração. Vou ficar quieto, não vou usar outro ponto de exclamação.

 

 


 





 

Claudinei Vieira é escritor, cinéfilo e mantém o site Desconcertos (www.desconcertos.com.br). 
E-mail:
vierapan@gmail.com  

Claudinei Vieira