07/06/2008 Número de leitores: 888

Gente de névoa!

Ricardo Silvestrin Ver Perfil

Por Ricardo Silvestrin

 

Nem tudo é leve na poesia japonesa. Na literatura brasileira dos anos 80 para cá, muito se escreveu e se falou sobre o haicai. Esse poema breve, de apenas 17 sílabas, que teve seu apogeu no Japão do século XVII com o poeta Bashô, foi incorporado à produção de vários autores brasileiros: Guilherme de Almeida, Mario Quintana, Millôr Fernandes, Paulo Leminski, Alice Ruiz e muitos outros. Na antologia 100 haicaístas brasileiros, tem haicai até do Erico Verissimo. De todas as diferentes práticas do gênero entre nós, uma característica parece unir todas elas: a ausência do eu. O haicai busca captar um momento, sem interferência do eu poético, tão predominante na nossa tradição. É um exercício de objetividade. Sem o eu, vem também a ausência de sentimentalismo, de discursividade, de nóia. Mas existe uma outra forma poética, o tanka, surgida no Japão há mais de mil anos. O tanka também é um poema curto, só que um pouco maior do que o haicai. Tem 31 sílabas. Um dos poetas japoneses da era moderna que praticou o tanka, lido até hoje no Japão, é Takuboku Ishikawa. Viveu apenas 27 anos, de 1885 a 1912. Lançou um único livro em vida: Um punhado de areia. Seus poemas foram traduzidos no Brasil por Masuo Yamaki e Paulo Colina no livro Tankas, hoje editado por Massao Ohno Editor. Quem já leu um pouco de haicai vai experimentar com Takoboku um outro tipo de poesia japonesa. Seus textos também são curtos, imagéticos, sem muita discursividade. Mas são recheados de conteúdo pessoal. Mais do que isso: na maioria das vezes são profundamente melancólicos. Pequenos recortes da sua vida, cenas, comentários. É também como o haicai o registro de um momento. Mas não apenas um momento externo. É uma fotografia interna. ?Triste o coração infantil que não chora:/nem repreendendo, nem batendo/(também fui assim).? É cinema. Tem a cena à nossa frente. Vemos o menino, sofremos com ele e, de repente, o menino se confunde com o autor. Há um eu que se funde com o que está sendo narrado. ?O trem. Nem sei por que o tomei./Desci. Mas não há/para onde ir.? De novo o cinema. Há uma tomada inicial do trem. Corta para o rosto do personagem/narrador. Corta para ele descendo. E o último verso é uma cacetada reflexiva. Lembrando: na língua dos japas, isso tudo foi feito com apenas 31 sílabas! ?Emprestei dinheiro de quem me toma/por um poeta incapaz/de tarefas práticas.? Uma anotação, ao mesmo tempo um relato de um fato e um triste e irônico comentário. Takuboku também era simpatizante do pensamento revolucionário russo. Nadava contra a corrente do governo imperial japonês, que queria ver os socialistas longe do Japão. ?Palavras que a criança/aos 5 anos gravou nos ouvidos:/ trabalhador, revolução...? Agora uma seqüência fechada de cenas de mãos e um comentário arrasador no final: ?Mãos que se aproximam,/ apertam e se perdem./Gente de névoa!? Outro dia encontrei um amigo que disse ser esse o poema que estava guiando a sua vida. Não queria mais saber de gente de névoa. Já um que marcou a minha vida é este outro do Takuboku: ?Mostrar um milagre qualquer/e desaparecer/enquanto ainda estiverem surpresos.?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





 

 

 

 

 

Ricardo Silvestrin é poeta, contista, músico e ensaísta. Publicou onze livros. Os mais recentes são O Menos Vendido, poesia, pela editora Nankin, e Play, contos, pela editora Record. É colunista do jornal Zero Hora. Integra a banda os poETs. É editor da AMEOPOEMA. Site: www.ricardosilvestrin.com.br E-mail: silvestrin@uol.com.br

Ricardo Silvestrin