27/07/2008 Número de leitores: 425

Monsieur Verdoux, o anticarlitos

Cláudio Feldman Ver Perfil

Em 1946, numa entrevista para o “Times” londrino, Charles Chaplin afirmou que já não tinha mais nada a dizer sobre seu personagem Carlitos; pouco depois, com a estréia de “Monsieur Verdoux”, tal declaração foi comprovada.


Não devemos buscar nesta decisão de Chaplin o mero interesse estético de renovar-se, mas algo mais profundo, um sentido sociológico e até metafísico que dará a chave deste estranho filme.


Não é possível compreender M. Verdoux se o separarmos de Carlitos, pois Verdoux assinala que Carlitos não podia seguir adiante, que estava num beco sem saída e que era necessário acabar com ele. Recordemos que todas as películas de Carlitos se reduziam a uma série de fugas. Carlitos gastava seu tempo escapando de vigilantes, de mulheraças perversas, de patrões, enfim da sociedade inteira. Fugia pelos telhados, pelo labirinto urbano, pelos cais, pelos campos. Seu próprio andar ziguezagueante era um subterfúgio para não se encontrar com a realidade. Carlitos se chocava sempre com o mundo exterior, mas, ao invés de lutar para a modificação da realidade, se refugiava no domínio da fantasia onde podia encontrar a bondade, a alegria, a beleza. É possível reconhecer nele o personagem romântico e à margem da sociedade, com reminiscências de Rousseau, típico do século XIX. Pertencia a um mundo no qual já se preludiava o caos, mas de onde ainda era possível fugir. Este tempo nos parece tão distante que sentimos sempre uma vaga nostalgia ao rever um filme mudo de Carlitos.


Monsieur Verdoux, ao contrário, é um personagem realista, típico do século XX, um século no qual já não há escapatória possível. O maior recurso de fuga de Carlitos era esse caminho interminável e deserto pelo qual se safava ao final de todas as suas películas. Esse caminho era como uma esperança que ficava em suspenso porque nunca se sabia aonde ia parar. Verdoux também termina de costas, e sua figura diminui gradualmente até perder-se, quando na tela aparece a palavra “fim”; porém em Monsieur Verdoux não fica nenhuma esperança, pois já sabemos onde leva o caminho: à morte.


Carlitos mudou muito desde as comédias sentimentais de sua primeira época até este filme de humor negro, sádico e amargo; contudo não foi só o ponto de vista deste criador que modificou: também cambiou o próprio mundo, no qual sua inspiração se insere.


Monsieur Verdoux já não pode fugir: deve afrontar a realidade e lutar com ela se quiser sobreviver. Deve sintonizar-se com um mundo que perdeu toda noção de justiça. Trata de tirar vantagens desta desmoralização e, com o auxílio da astuciosa inteligência,fazer do mal uma indústria lucrativa.É um adaptado social de categoria,enquanto Carlitos era um inadaptado. Verdoux foi, durante anos, um humilde empregado de banco que trabalhou honradamente (com o dinheiro alheio) para manter sua esposa aleijada, até que o puseram na rua. Deste Carlitos bondoso e doce se fala no filme, mas não aparece: está morto e transfigurado no cínico Verdoux, sua antítese. Carlitos se cansou de ser o “clown”, o “ecce homo” que provocava o riso do mundo. Arroja seu traje puído, seu chapéu, seus sapatões, sua bengala, todos característicos, e se disfarça com a mesma indumentária de seus inimigos, os empresários do circo: uma sobrecasaca impecável, uma ampla gravata de seda cinza, um chapéu de feltro e um bastão com empunhadura de ouro; e assim, irreconhecível sob roupa tão inusitada, se dispõe a vingar-se de todos os que fizeram impossível a vida do poético vagabundo; lutará com seus inimigos em seu próprio terreno -o mal- e com as mesmas armas; empregará a mesma lógica do honrado burguês do século XX, todavia, levando-a até seus extremos, a reduzirá a um puro absurdo: os negócios são os negócios e a conseqüência natural dos negócios é o crime, como a conseqüência natural da diplomacia é a guerra. Tal é a sabedoria de um mundo em que todos se destroçam mutuamente com amabilidade e sem sair do “legal”.


M. Verdoux é a consciência que ilumina o pesadelo noturno e ambicioso desse mundo inconsciente; esse mundo se horroriza e envergonha do barba azul porque é tão culpado quanto ele; porém o ignora e não quer responsabilizar-se por seus próprios crimes -os infinitos crimes que se cometem nas fábricas, nos cárceres, nos campos de prisioneiros, nas câmaras letais- dos quais os assassinatos de Verdoux são apenas uma cópia reduzida e caseira. Verdoux faz o mesmo: rouba e mata, contudo como age em pequena escala termina por destruir-se. Sua condenação não é em nenhum momento o castigo do mal e o triunfo do bem. Em um mundo organizado de tal modo que não se delimita o justo do injusto não há inocentes nem culpados definitivos, senão vítimas e algozes que, alternadamente, podem mudar de lugar, e o que se senta no júri pode passar ao banco dos acusados e vice-versa; por isso M. Verdoux tem o atrevimento de despedir-se do tribunal que o condena, dizendo: “Logo nos encontraremos.”


Não podia ter-se encontrado um tipo humano mais significativo do século XX do que este bondoso assassino que cultiva rosas, descansa de suas macabras aventuras na paz de um lar burguês e repreende seu filho quando o vê maltratar o gato. Com a maior tranqüilidade e sem nenhum remordimento de consciência passa de um ambiente a outro, do amável jardim à selva onde os animais se entredevoram.


M. Verdoux representa o contrário de Carlitos. É o triunfador, o invejado, o temido, mas à custa de renunciar ao amor, à ternura e de viver sempre alerta. Seu poderio é fictício. No fundo, não é mais do que um homem esgotado que só aspira a descansar e que termina se entregando por vontade própria, já que não o perseguem como a Carlitos. Confessa sinceramente seus crimes, os aceita e os reivindica, coerente consigo mesmo até o final. Não tem esse vago complexo de culpa que tinha Carlitos. Porque Carlitos não queria modificar o mundo, só jogar. Possíveis significações políticas e sociais aconteciam quando o vagabundo dava uma bengalada num representante da lei ou jogava tortas de creme no rosto de algum burguês e matrona, porém estes gestos não passavam de pequenas travessuras, carentes de convicção; uma forma de satisfação mágica e simbólica, não real. Em “O Grande Ditador” e, melhor ainda, em “Monsieur Verdoux” (menos anedótico e mais simbólico que aquele), Carlitos, metamorfoseado, enfrenta por fim o mundo e fustiga a sociedade com a crueza ascética de um moralista da linhagem dos Julian Sorel, Raskolnikov, Zaratustra.


Tanto pelo que se disse (recorde-se a defesa em juízo e as entrevistas com o sacerdote e os jornalistas) como pelo que se sugere (os filmes de Chaplin exigem grande colaboração do público), as alegorias e mensagens deste cineasta alcançam sua maior significação e claridade em “Monsieur Verdoux”; obra-prima, bela e terrível, é a consumação definitiva do Mito Chapliniano.



 

 

Cláudio Feldman