02/09/2008 Número de leitores: 702

Imagens, contextos e comunicação: o provérbio no testo de panela e na esteira

Abreu Paxe Ver Perfil

Por Abreu Paxe

O provérbio no texto tradicional oral manifesta-se de diversas formas. Entre os Bakongo de Cabinda, pode ser dito ou visualizado, ou seja, pode ser proferido tanto por palavras como por configurações. O testo de panela e a esteira são duas dentre outras manifestações nas quais ele pode ser visualizado. Como a finalidade do provérbio é comunicar pela didáctica e instrução, e a partir mesmo desta constatação, é do nosso interesse discutir a materialidade do discurso no acto comunicativo e suas redes de relações nesses textos, tendo como base a esfera de sinais articulados com os conceitos de texto, comunicação e semiosfera, como vias de examinar as formas que o provérbio toma, sua função e suas potencialidades comunicativas.

 

Introdução

?Na multiplicidade de géneros que constituem a tradição oral, o provérbio é, sem dúvida, o género privilegiado para expressar os valores culturais, já que estes se constituem na sua gramática de valores. Nenhum domínio da vida lhe escapa. A sua vocação é comunicar a todos a experiência do grupo e exortar cada um para a execução desta experiência no seu comportamento quotidiano?[1].

Vivemos o tempo do signo. Os discursos verbais vão cedendo, definitivamente, lugar às formas, na dimensão visual, táctil e no terreno audiovisual. Aliás, não podia ser de outro modo hoje, considerando que toda a nossa estrutura vivencial se baseia nos indícios, nos sinais, nos símbolos, nos códigos; enfim, nos ideogramas, baseia-se, pois a nossa estrutura vivencial no poder da imagem. Falamos da imagem visual e sua textualidade na comunicação de informação para diferenciá-la da textualidade da imagem sonora, táctil, olfactiva, ou seja: das imagens de todos os outros sentidos[2]. Embora não se ignore que as imagens no contexto em análise podem funcionar como formas de comunicação total, elas podem ser apreendidas simultânea e globalmente. Daí, o nosso interesse em desenvolver um estudo circunscrito no exame da textualidade da imagem visual (o não verbal) ou texto não escrito, contrapondo-a à textualidade audiovisual (o verbal) ou, simplesmente falado.

O estudo que estamos a efectuar justifica-se pelo seguinte: a partir da análise e relacionamento do provérbio nos ?testos de panela? e na ? esteira?, textos de carácter utilitário e artístico[3] no texto da tradição oral Cabinda, articulamos o verbal e o não verbal - economizados na palavra e no texto (escultura e tela), ou seja, na imagem acústica e visual - como discursos procuramos compreender a sua natureza com vista a produzir uma explicação pela forma como comunicam. Ainda nas pesquisas bibliográficas efectuadas, ao analisarmos a esfera de sinais[4] do texto tradicional oral entre os Bakongo de Cabinda, ficamos a saber que o provérbio é apresentado em forma de escultura ?o testo de panela? e em forma de tela ?a esteira?. Eles comunicam de forma diferente em função do contexto em que se apresentam. Como justificar este procedimento? Com base nestes elementos, construímos a seguinte hipótese: as diferentes formas destes textos comunicarem é determinado pela esfera de sinais, ou seja, pela semiosfera[5]. É por estas sendas que vamos desenvolver o nosso estudo.



1. Questões Preliminares: propostas de conceituação.

Para melhor enquadramento e compreensão das peças que nos propusemos a examinar, vamos operar com três propostas de conceituação, viradas para o provérbio, para o texto e para a comunicação. Este procedimento, pensamos, ajudar-nos-ia, captar e analisar a maneira como se dissemina o discurso, as redes de relações que estabelece e as realidades que constrói.



1.1. 
Conceito de Provérbio   


As investigações paremiológicas não conseguiram até hoje formular uma definição específica e universalmente aceite de provérbio. Distingue-se intuitiva e dificilmente um provérbio de uma outra locução sentenciosa. Portanto, a taxonomia dos géneros literários contingentes de que o provérbio faz parte é ainda de difícil distinção. Assim, em todas as línguas nacionais, bantu em geral, o provérbio, o dito, o adágio têm a mesma designação
[6].

No entanto, segundo Zavoni Ntondo, «muitos lexicógrafos esforçaram-se em definir o provérbio. É o caso de Pierre CREPEAU (1975) ao citar o dicionário Robert, mostra que o provérbio é ? uma verdade da experiência, conselho e sabedoria prática e popular comum a todo o grupo social, exprimida numa fórmula elíptica geralmente metafórica e figurada? ao passo que PINEAUX (s/d) propõe a seguinte definição: ?uma fórmula geralmente metafórica, pela qual a sabedoria popular expressa a sua experiência da vida?»[7]. Essas definições têm pelo menos dois pontos comuns, a saber:

No primeiro ponto o provérbio é uma sentença de utilização popular. ?Sentença? insinua que o provérbio deve ser curto para facilitar a memorização, portanto no ?testo de panela? essa sentença é mais evidente pelo número de provérbios nele contidos. A expressão ?popular? torna-se paradoxal pelas seguintes razões: o seu uso é de âmbito amplo e restrito. Amplo porque implica o anonimato, é pertença de todos; pois, na sua utilização envolve todo o povo, ou seja, ninguém numa sociedade pode reivindicar a autoria dos provérbios, pode sim reivindicar a autoria de tê-lo proferido e demonstrar o grau de conhecimento e de interiorização da cultura, a sua sabedoria. Restrito pelo facto de o provérbio estar reservado a indivíduos que dominam a arte de bem dizer por estes provarem seu conhecimento e juízo. O provérbio não é apanágio só dos velhos, mas é do lado dos velhos que é mais utilizado por ter vivido muitas experiências. Também pensamos o provérbio como peça artística, porque é um enunciado conotado. O seu movimento significativo não pára no sentido óbvio, mas prolonga-se a outro nível, para tal devia ser dissociado da designação ?popular?.

No segundo ponto o provérbio não está só circunscrito na palavra, neste caso achamos que estas definições recobrem as peças investidas pelo provérbio, ou seja, ?o testo de panela? e ?a esteira? para termos a noção e evidência da especificidade do provérbio em utilizar a imagem de maneira a exprimir uma verdade. Este uso pode ser expresso/observado na imagem acústica ou visual não apenas no sentido moralizador. Ele condensa, resume a palavra, entenda-se a sabedoria dos antepassados não do ponto de vista passadista, mas virada para o presente.


1.2. Conceito de Texto 

Como o propósito deste trabalho é de analisar e relacionar textos entre si, pretendemos antes de mais explicar a noção de textos. Consideramos, ou seja, tomamos aqui como textos o seguinte: numa primeira acepção, as peças artísticas, sendo a escultura, tela e o provérbio; na segunda, as esferas de sinais; portanto, o texto da tradição oral e não só, ou seja, nós tomamos as peças em análise e os contextos de comunicação como textos, pelo facto de toda a produção cultural ser um texto. Tendo em conta estas considerações à volta do texto, vamos operar com as propostas para a sua conceituação de Jurij M. Lotman e Aguiar e Silva, vigiando também os códigos reguladores do sistema semiótico da literatura oral. Achamos que eles o terão enriquecido, alargando-o a um nível semiótico ? e, portanto, translinguístico?, propondo as seguintes definições: para Lotman, Texto é «qualquer comunicação que se tenha realizado num determinado sistema de signos. Assim, são textos um ballet, um espectáculo teatral [...], um poema ou um quadro[8]. No entanto, para Aguiar e Silva, Texto é «um conjunto permanente de elementos ordenados, cuja co-presença, interacção e função são consideradas por um codificador e/ou por um decodificador como reguladas por um determinado sistema sígnico[9]». Entendido o texto como entidade semiótica, acrescenta Aguiar e Silva: «pode-se falar de ?texto fílmico?, de ?texto pictórico?, de ?texto coreográfico?[10]» e, sob nosso risco, acrescentamos nós que se pode falar de ?texto escultórico?. Sabemos também, através de Aguiar e Silva que no sistema semiótico da literatura oral os códigos reguladores identificam-se: sem código grafémico, estruturado por código linguístico, código cinésico, código proxémico e código paralinguístico[11]. A partir destas propostas já podemos vigiar o que é linguístico e translinguístico. As duas propostas apontam para a mesma direcção, ao referirem-se ao sistema de signos[12]. Talvez esta visão de sistema de signos nos ajude a esclarecer, ou seja, a compreender melhor a comunicabilidade e significação destes textos em contexto de comunicação, pensada numa perspectiva de estudo mais alargada. A dimensão semiótica do texto permite-nos delimitar nosso estudo no território textual não escrito.


1.3. 
Conceito de Comunicação

 

Face ao que acima ficou exposto notámos que, para o que pretendemos, a comunicação como acto ou efeito de comunicar passa a ter um valor muito mais amplo que informação, ao olhar para os contextos: esta, puramente factual, pode traduzir-se em símbolos e, a fortiori, em outra língua, sem problema. A comunicação compreende também elementos não informativos que, pelo próprio facto de serem comunicativos, se confundem com noções[13]. A finalidade comunicativa está já implícita no próprio acto de destinar uma determinada composição[14] ? escultura, tela, provérbio ? a um público, por um lado, de limites previsíveis no contexto utilitário e, por outro, de limites imprevisíveis pelo carácter artístico[15]. O destinador, convencido de ser compreendido, deseja sê-lo; aqui a comunicação opera-se em duas díades: destinador-mensagem e mensagem-destinatário. Daqui se conclui que a comunicação se processa em sentido único[16] ao olharmos para a natureza das peças em análise: ou seja, ao olharmos para o ?testo de panela? e para a ?esteira?.

 

 

2. O Texto da Tradição Oral

 

A análise da articulação entre escultura, tela e provérbio, no texto da tradição oral, introduz perspectivas voltadas ao estudo da comunicação translinguística: o discurso verbal ao traduzir o não verbal, a apropriação da imagem pela palavra, pensada num acto de cristalização da linguagem. Trata-se, a partir daí, de analisar como o não verbal convoca o verbal para comunicar. Os testos de panela de barro ou de madeira, assim como as esteiras[17], são na verdade ?cartas?, ?bilhetes esculpidos?, portadoras de mensagens traduzíveis em provérbios de difícil interpretação, porque segundo Esterman ?(?) para tirar um sentido das figuras esculpidas nos testos falantes, é necessário proceder com muita arte e grande sabedoria, e conhecer perfeitamente a relação existente entre as figuras e os provérbios, dos quais o povo, em estudo, possui um tesouro muito variado?.[18]


2.1. O Provérbio no Testo de Panela e na Esteira

 

Não pretendemos mais, em face disso, do que indicar algumas linhas da investigação que se desenvolvem no nosso actual projecto de pesquisa, a rede interdisciplinar e semiótica no texto da tradição oral. O nosso interesse volta-se para o processo de comunicação e de significação nestas realidades sob um olhar sincrónico assente num exame das peças deste texto. Trata-se de analisar os sinais que instauram, pela forma como comunicam e significam. Esta relação pode ser classificada como fundamental: a intersemiose quer na escultura quer na tela e no provérbio, no texto da tradição oral. Os seus desdobramentos constituem-se em formas complexas de comunicação assentes no paradigma da comunicação não linguística: sistemáticos e assistemáticos, determinados pela cultura em presença.

      

2.1.1. Os Testos de Panela[19].

 

Os testos ou tampas de panela são feitos pelos homens e são de madeira, em geral da árvore usanha (usanya), feitos de uma só peça com figuras em alto ou baixo-relevo. Em cada testo de panela podemos encontrar um ou vários provérbios. Estes testos encontramo-los, quase unicamente, entre os Bakongo ? habitantes das terras de Kakongo ? e os Bawoyo ? habitantes das terras de Cabinda ? e ainda, um pouco entre os Bavili e Balinje.[20]

        

Narração das bodas de casamento

? Nas bodas de casamento a família da noiva cobre as panelas de «muamba e da saca-folha», e mais comida, que serão enviados à família do noivo, com tampas, textos de Provérbio adequados ao acto e que mostram ao noivo como querem que a noiva seja tratada. E vice-versa?[21].

 

Narração na vide de casada

? Na vida de casada, a mulher, se não quiser dar-se ao trabalho de falar ao marido arguindo-o dos maus-tratos recebidos, mandará fazer um texto com um provérbio adequado, cobrindo com ele a panela da refeição do marido. Este, se não é absolutamente leigo nestas decifrações e leituras, logo saberá o que a mulher pretende e pelo provérbio saberá de que o acusa?[22].

 

2.1.2. as Esteiras.

As esteiras são trabalhos de mulheres. Às esteiras com provérbios dão-se o nome de nkuala buinu (nkwala bwinu). São feitos com a fibra da planta nzombe, entrelaçada em desenhos geométricos, alguns dos quais representam animais. Três cores podem aparecer nessas esteiras branca-amarelada, preta e vermelha.

 

O branco- amarelo consegue-se secando a fibra, simplesmente ao sol. O preto depois de imersa as fibras na água lodosa das lagoas (sempre cheias de tanino) durante três a quatro dias. O vermelho consegue-se corando a fibra com o cerne, reduzido a pó, da taraula ? ptezocarpus. São bastante arbitrários os provérbios aplicados nas esteiras. Não esqueçamos que são obras de mulheres ? e estas tanto podem ter um espírito mais arguto como mais caprichoso que os homens. Nas esteiras encontramos um só provérbio em cada uma. É o do desenho central.[23] As esteiras vemo-las ordinariamente, entre os Basundi, Bayombe e Balinje.[24]

 

Com as esteiras dá-se o mesmo:

        

Narração o marido vadio

?O marido vadio não deve admirar-se se a esposa lhe oferecer uma esteira com o nkuvu natina muanza. Compreenderá que a mulher o quer acompanhar para bem dele e dela. E quando as coisas passam da medida, o marido acordará, certamente, com uma esteira aos pés da cama que poderá ter o provérbio seguinte: «ntumbuluila: minu ienda kuami», «desengana-me : (e) eu vou-me»?[25]

 

Narração as raparigas solteiras

?As raparigas solteiras cedo começam a fazer esteiras. Quando já fazem com certa habilidade e perfeição, uma ou outra vez, são oferecidas, como ofertas de namorada, ao namorado ou noivo-kundi. Como o noivo ficará satisfeito e encantado com a submissão de sua amada se receber uma esteira com o: « Nnemine kuaku: minu veka iza takana», «Podes fazer de mim o que quizeres: eu é que vim ter contigo, sou toda tua! ?»?[26]       

      

Aqui anula-se o princípio de contemplar a escultura ou a tela como um simples cenário de observação. O que acima está descrito revela a intuição desse povo, o seu espírito dotado de poder de síntese, assente num sistema. Procuram na imagem, a comparação naquilo que é material; logo, transportam para o domínio espiritual e moral essa comparação, transformando-a em texto (ideograma). Como não têm alfabeto, escrevem por figuras[27], ou pode ser o contrário, como escrevem por figuras dispensam o alfabeto. Em suma, encontra-se arte e habilidade, quer nos testos de panela, quer nas esteiras. Há, na verdade, muito mais do que arte em todas essas figuras e desenhos descritos.



2.2. 
Visualização, Imagens e Pensamento

 

Estamos a demonstrar a oposição entre o eikon e o logos, a civilização da imagem em contraposição à civilização da palavra. Aqui nomeamos uma relação que gravita em torno do binómio imagem/palavra assente na intersemiose (conceptual e formal). Neste caso, a imagem funciona como reconstituinte do verbo. Isto pode ser verificado em quase todas as manifestações orais tradicionais das civilizações sem escrita.

 

A partir do que acima ficou exposto: Primeiro, pode discutir-se, por um lado, a relação de dependência e, por outro, a relação de autonomia. Isto é, explica-se no primeiro caso, o não verbal pelo verbal, uma dependência traduzida na produção do discurso pela imagem da palavra ao passo que, no segundo caso, o não verbal apresenta uma autonomia de produzir discurso pela textualidade da imagem; Segundo, pode discutir-se a questão de que em todo este processo de comunicações híbridas se estabelecem sistemas de referência fazendo a escultura ou a tela significar sem se basear na comunicação linguística, a palavra falada. Na realidade pode-se perceber que a escultura e a tela representam, por seus próprios recursos, sentimentos, movimentos, seres, objectos e ideias.            

         

Voltemos ainda à articulação entre a escultura e o provérbio pelas narrações ?Nas bodas de casamento?, ?Na vida de casada?, ?O marido vadio? e ?As raparigas solteiras?. Nestas narrações pode-se notar nitidamente após análise, que a escultura ou a tela para comunicar depende de um outro elemento que é o provérbio. Portanto, este elemento funciona como intexto, ou seja, ele está contido implicitamente nestas peças, o mesmo que estar na palavra escrita. A escultura, a tela e o provérbio nesta relação são subtextos do texto da tradição oral pelo facto de os géneros, os discursos e os estilos em redes de comunicação cobrirem este campo de referência. Nos discursos que estas peças veiculam há a apropriação da imagem (o não verbal) pela palavra (o verbal)[28] que a codifica para que funcione como instituído nesse contexto cultural, ou seja, a escultura ou a tela significam como ficou descrito dentro desta semiosfera.

 

Numa primeira análise pode verificar-se que esta relação pode ser vista como um procedimento único. Mas analisando melhor o caso pode-se perceber que funcionam para esta situação duas semiosferas para regular o sistema de comunicação. Estas funcionam nesta primeira acepção e noutra que a rejeita. Passemos a discuti-las:

 

 

3.  Textos, Comunicação e as Esferas de Sinais

 

Para representar melhor a realidade e se compreender o fenómeno que estamos a nomear ao relacionar o verbal e o não verbal pela forma como comunicam, por um lado, pela dependência e, por outro, pela autonomia, precisamos por diferenciação distinguir por nomeação as esferas dos sinais presentes.

 

 Na primeira semiosfera que é o espaço institucional[29], entende-se que o processo de comunicação é institucional e funciona pela relação de dependência, ou seja, está ligado a um sistema, pelo seguinte: Os parentes da noiva ou do noivo, ao comunicarem seu desejo de como é que o seu parente deve ser tratado[30], também a esposa ao reivindicar os maus-tratos porque passa[31] ou ainda a rapariga que se mostra disponível para arranjar um namorado ou agradar o noivo[32], fazem-no através da escultura uns ou tela outros; portanto, uma imagem pela representação proverbial. Anula-se aí o verbal. No caso dos parentes em ambos os casos, do marido, do noivo ou do jovem que está a ser conquistado, para compreenderem a mensagem traduzem o que visualizam, ou seja, a imagem sintetizando-a e transformando-a em forma de provérbio que funciona como o elemento regulador nestas instituições. Há aqui um aparente paradoxo no qual os parentes, a mulher, a noiva, ou a jovem usam a escultura ou tela em forma de imagem para comunicarem, anulam o verbal. Fazem a partir daí a actualização do passivo que em si contém o activo que deve ser decifrado, enquanto que os parentes, o marido, o noivo, o jovem para decifrarem o conteúdo semântico da escultura traduzem-na num provérbio, ou seja: activam o verbal.

 

Pode-se perceber, pelo exposto, que esta relação de dependência entre a escultura e a tela face ao provérbio, por um lado, funciona do mesmo modo como na relação entre a língua e a fala, sendo a escultura, a tela e a língua passivos e o provérbio e a fala activos; por outro lado, conforma o sistema de comunicação não linguístico simétrico. Verifica-se aqui que existem signos estáveis que devem ser compreendidos como foram codificados sem os adulterar[33]. Por outro lado ainda, dois textos regulam este sistema: o não escrito, a escultura e a tela; e o verbal, o provérbio.

 

Já na segunda semiosfera, a esfera de mutações, rejeita-se o sistema que regula esta comunicação, pelo seguinte: no caso de alguém, que não pertence a este espaço cultural ou que não domina os códigos que regulam aquela comunicação, no caso de um leigo, de um jovem não iniciado ou ainda de uma criança, ainda que pertençam a este espaço cultural porque não dominam este sistema de comunicação, como é óbvio, o que aconteça com uma boa parte dos membros dum determinado espaço em relação ao provérbio, olham para a peça como um simples cenário de ilustração, ou seja, como um objecto de contemplação. Esta peça, já sob este olhar, conforma-se noutro sistema de códigos. E os códigos que regulam o sistema anterior permanecem passivos não comunicam do mesmo modo como na situação anterior, pelo facto de estes não serem do domínio dos sujeitos que a observam, limitando-a no processo de comunicação não linguístico não sistemática ou assimétrico, aqui ao contrário do outro sistema, não se determinam nem unidades, nem regras estáveis de construção de mensagem para mensagem[34]. Daí a escultura ou a tela passar a comunicar pelos seus próprios recursos. A Autonomia da estrutura estética (ou na sua função estética), própria dos mercados de arte globalizados e centrados nos mitos do autor e do individuo românticos e liberais na sua raiz.

 

Deste modo a escultura ou a tela, face ao estoque do sujeito que a contempla, pode vir a ter vários sentidos, vários sentidos relacionados entre si, sentidos distintos que dependem uns dos outros para completar os seus sentidos, ou vários sentidos que se agregam de modo que ela signifique uma relação ou um processo[35]. É a partir daqui, no contexto artístico, que a mesma assume uma dimensão artística própria das artes abstractas puras[36] que a afasta da condição anterior.

 

Tratando-se dum texto não verbal a sua interpretação efectiva-se pelos efeitos de sentidos que se instituem entre o olhar a imagem e a possibilidade do recorte, a partir das formações em que se inscreve tanto o sujeito autor do texto, quanto o sujeito que o contempla. A partir daí pode-se construir, determinado pela sua experiência, o conjunto de elementos visuais passíveis de recorte. Daí ainda podem construir-se imagens e relacioná-las ao observar o texto não verbal. A apreensão dessas relações, por sua vez, revela a comunicação que se instaura pelas imagens, independentemente da sua relação com qualquer palavra ou texto verbal[37]. Esta semiosfera implica as traduções interdisciplinares e interculturais de que fala lotman.

 

 

Conclusão

 

Deste modo, concluímos que a contemplação destas peças permite, pelo que ficou aqui demonstrado, estabelecer uma relação de dependência e de autonomia em cada uma delas, limitados tanto no sistema de comunicação não linguísticos simétricos como no processo de comunicação assistemático, determinados, por um lado, pelo espaço cultural e, por outro, pela especificidade dos recursos técnicos empregues. Neste caso, pode-se compreender que o trabalho da interpretação da imagem (escultura/tela) como na interpretação do verbal (provérbio) pressupõe a relação com a cultura, com o social, com a história, com a formação social dos sujeitos. E pode vir a revelar de que forma a relação entre imagem/interpretação pode, por um lado, ser um elemento auto regulador da comunicação da imagem, face à experiência para produzir conhecimento no contexto onde se anula o verbal em forma escrita e, por outro, ser o elo para se compreender como a imagem vem sendo administrada nas várias instituições sociais e nas diferentes civilizações.

O provérbio constitui o comentário do passado para dirigir a acção presente. Por outro lado, o provérbio reúne imagens que lhe concede, pois, o sentido. O papel das imagens consiste em identificar o que é exactamente a cultura dos povos, isto é, elementos significativos desses povos. As imagens têm ligação com a história dos povos. São imagens que fazem parte daquilo que se pode considerar cultura nacional na qual se pode também destacar o valor antropológico da escultura e da tela como meio pelo qual o provérbio comunica. Com base nestas análises pode-se compreender e explicar, no contexto escolar e não só, as manifestações dos nossos artistas, nas artes abstractas puras, sejam eles poetas, narradores, pintores, escultores ou outros. O que aqui se discute apenas é o princípio dum trabalho que se pretende amplo. 

 

 

______________________________

[1] Ntondo,1998, p.1

[2] Cf. Damásio, 2006.

[3] Cf. Sow & Alii, 1980, p. 51

[4] Entenda-se a esfera de sinais, como semiosfera.

[5] A semiosfera opõem-se à biosfera, se a biosfera é a esfera da vida, a semiosfera é a esfera da cultura, ou seja, significa o mesmo que cultura em oposição a não cultura; portanto, é o espaço semiótico fora do qual é impossível a semiose. Cf. Soares, 2006, p. 206 & Julieta Haider in entretextos, revista eletrónica.  

[6] Cf. Ntondo, 1985, p.2; Ervedosa,1985, p.10; Américo,2006, p.10, 29-39.

[7] Ntondo, 1985, p.2

[8] Gomes, 2006, p.20

[9] Idem

[10] Idem, 2005, p.24

[11] Cf. Aguiar e Silva, 1996, pp. 137-139

[12] Cf. Netto, Ano 2003, p.59

[13] Cf. coelho netto, Ano 2003, p.

[14] Cf. Kristeva, 1980.

[15] Cf. Sow & Alii, 1980, pp. 37 e 51

[16] Segre, 1999, pp. 15-16.

[17] Griffo nosso

[18] Cf. Martins, 1962 & Vaz, 1970

[19] Recolha feita por Martins, 1962, p.4

[20] Martins, 1962, p.4

[21] Martins, 1962, p.42

[22] Ibidem.

[23] idem, 1962, p. 19

[24] Idem, p.4

[25] Martins, 1962, p.25

[26] Idem

[27] Idem, p.5

[28] Esta apropriação legitima a cristalização da linguagem.

[29] Entenda-se, para o caso de Angola, como espaço institucional, os espaços das instituições tradiionais: políticas, sociais, religiosas e culturais. Cf. Altuna, 1985. 

[30] Vide texto da narração das bodas de casamento.

[31] Vide texto da narração da vida de casada.

[32] Vide texto da narração da rapariga solteira.

[33] Cf. Baylon e Fabre, 1979, p.22/23

[34] Idem

[35] Cf. Reis, 1997, p. 127

[36] São artes essencialmente intelectuais e privadas, consequentemente, da passibilidade de serem compreendidas por todos. Cf.Sow & Alii, 1980, p.51

[37] Cf. Texto da Tânia indicar o lugar na Internet e na bibliografia.

 

 

 

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Abreu Paxe nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe. Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), onde é secretário para as atividades culturais. Publicou A chave no repouso da porta (2003), obra vencedora do Prêmio Literário António Jacinto. No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR), Comunità Italiana (RJ), nas eletrônicas Zunai e Cronópios, e em Portugal, na antologia Os Rumos do Vento, (Câmara Municipal de Fundão). 
E-mail: pjairo8@hotmail.com
 

Abreu Paxe