20/10/2008 Número de leitores: 773

Poemas para guardar na agenda

Ulisses Tavares Ver Perfil

Por Ulisses Tavares

 

1

Quem sou?

 

                                       Não sou só o que sinto

                                        Nem o que faço ativo

Além de minhas verdades

Sou o que também minto.

Verdade é o que vivo.

 
 

 

2

Para onde vou?

 

                                  Vou para um lugar encantado

Sem sofrimentos sem baixarias

Vou para onde nem sei onde fica

Espero que seja a utopia

Tipo do lugar que não terei consciência

Daquilo que me fira, me pica.

 

 

3 

De onde vim? 

                           Vim daquele território que não tem nome

Nem codinome nem definição

Vim da coisa-em-si, do nada, do indefinível

Sou assim, porisso, o sem nome,

Qualquer nome possível, anátema ou admirável,

O impossível e o viável

Se houvera na origem um deus

No momento há eus.

 

 

 

7

Aquecimento global

 

Meu ódio esquenta

O planeta

Meu egoísmo polui

Os rios

Meu ego alimenta

O preconceito.

De mim, parte a destruição

Global.

Meu eu multiplicado

Por bilhões de Eus.

A Terra rejeita e expele

Meus dejetos.

Me dejeta, me expele, me rejeita.

Acaba a Terra

Mas antes acabo eu.

 

 

 

9

Estátua

 

Depois de virar pó,

gostaria de virar estátua.

Em praça pública

Me cagariam na cabeça

apenas pombas,

e não urubus

como agora

em qualquer lugar.

 

 

12

Quanto mais velho, melhor

 

O que mudou nos últimos anos?

-pergunto atônito.

(e, pela idade, meio afônico).

Se até o mundo, bem mais velho,

Muda tanto sem parar

Por que não eu?

Criatura terra, pessoa carne,

Transformadas,

O que importa

Se ao final estarão mortas?

Apenas o coração, enquanto

Não chega ao fim,

Tem sempre a mesma idade,

O mesmo tempo do aqui e agora

Para pulsar, amar, dançar.

Nem velho, nem criança,

Lhe resta sentir-se assim

Apaixonado e eterno, como teen.

 
 

 

13

O que fazer?

 

                                            Não fazer nada

Fazer tudo

Dizer das coisas

Ficar mudo

Ser da própria idade

Sabedoria é ser feliz

Dentro da infelicidade.

 

 

 

20

Química

 

Álcool, bolas e pílulas,

Vícios religiões e taras,

Nada resolve é verdade.

A seco, porém, cromo ssomos?

Enzimas aminoácidos bactérias

Banal química da matéria,

Sem pertencer a humanidade.


 

21

O Tao

 

                                        Deus, existem vários

O teu, o meu, o dele,

A cada um emprestamos

O que de melhor ou pior

Em nós de deus ainda resta

Não há, pois, espanto

Se nenhum deus presta.

 

 

 

25

Ingratidão terceiro-mundista

 

Obrigado, doutores,

Pela nasa, internet e fmi,

Mas um primitivo feijão,

Alguns  neanderthais bifes

Acebolados

Caía melhor por aqui.

Atenciosamente nós,

Os deletados.

 

 

 

27

Nietzscheana

De Nietzsche queria ter

A cabeça cheia de minhocas

Pensantes e decifradoras

Da esfinge do humano ser

Mas dele só herdei

A gastrite

E essa mania de viver triste.

 

 


 


 

 

Confira, também, entrevista com os poetas Ulisses Tavares e Tavinho Paes, na TV Cronópios

  

 

Ulisses Tavares tem 118 livros publicados em todos os gêneros e assuntos. Com mais de 22 milhões de exemplares vendidos, 8 milhões apenas em poesia. Há 3 anos vive (mal, mas com tesão) literalmente de literatura. Tem um brilhante currículo de publicitário, jornalista, dramaturgo, roteirista de televisão, marketeiro político, professor de pós-graduação. Mas prefere ser o que é: um moleque cinquentão, budista e anarquista. Site: www.ulissestavares.com.br E-mail: uuti@terra.com.br

Ulisses Tavares