14/01/2009 Número de leitores: 895

Diálogo sobre poesia

Carlos Felipe Moisés Ver Perfil

Por Carlos Felipe Moisés e Ricardo Aleixo


O diálogo teve início em Coimbra, Portugal, em maio de 2004, por ocasião do V Encontro Internacional de Poetas, e prosseguiu nos meses seguintes. Foi parcialmente divulgada, em janeiro de 2005, no blogue Jaguadarte, de Ricardo Aleixo, e reproduzido na íntegra em Noite nula (2008), de Carlos Felipe Moisés, como posfácio.




 
                          Carlos Felipe Moisés, por Ricardo Aleixo

 

 

Ricardo Aleixo ? Por que a poesia, Carlos?

Carlos Felipe Moisés ? Primeiro porque depois de tanto tempo de convívio passou a fazer parte do cotidiano, virou uma atividade natural como respirar, dormir, coçar. Para mim, poesia não tem nada de sacralizado ou sublime, ela simplesmente está aí, imiscuída no dia-a-dia. Não que eu passe o tempo todo escrevendo, mas, quando escrevo, os versos miram justamente a vida real, essa que eu já vivi ou estou vivendo, embora nem eu mesmo a reconheça, nos versos prontos. Poesia para mim nunca foi universo paralelo, o lado de lá; é só a maneira que encontrei de combater a dispersão, a desagregação, aqui mesmo. A minha verdade, seja lá qual for (eu não sei), só pode estar nos meus versos.

ra ? Na resposta a uma menina poeta que lhe enviou seu livro de estréia, em 1974,* você destaca os poemas em que ela está ?presente por inteiro? e afirma que nos demais ela ?parece representar um papel, embora não saiba que está representando.? Pergunto: quando foi que o poeta Carlos Felipe Moisés sentiu que deveria fazer a passagem da representação para a presentação, para a presentificação, no texto, de algo que só a ele cabia escrever?

 

*  Nesta, e nas três perguntas seguintes, Ricardo Aleixo se refere ao livro de Carlos Felipe Moisés Profissão: poeta (depoimentos e reflexões sobre criação literária), inédito.

 

cfm ? Acho que foi muito cedo. No início era só ?representação?, mesmo. (Me deixe antes lembrar, Ricardo, que isso começou há mais de 40 anos, numa época em que poesia, nos bancos escolares, era sinônimo de ?rima?: as seletas daquele tempo só chegavam até Bilac, Cruz e Sousa e olhe lá. Século xx, nem pensar.) Nesse primeiro contato, poesia era uma habilidade que as pessoas diziam que eu tinha, e eu fui tomando gosto por essa coisa de brincar com rimas, ricas ou pobres, a complicada estrutura do alexandrino, o decassílabo bem escandido, o acróstico, a estrofe que alterna metros diferentes e por aí vai. Aos 12 anos, poesia para mim era um passatempo tão divertido quanto palavras cruzadas ou as figurinhas das Balas Futebol; mais do que passatempo, era um negócio sem espaço nem tempo. Mas um dia, lá pelos 14, eu tropecei em Mário de Andrade, Vinícius de Morais, Fernando Pessoa e então me dei conta de que poesia podia ser outra coisa, a expressão daquilo que o sujeito é, de verdade, mergulhado na realidade à sua volta, e não apenas habilidade com as palavras. A encenação foi-se desfazendo aos poucos.

ra ? Você é procurado com freqüência por poetas jovens, ansiosos por uma avaliação, digamos, profissional? Como age em tais casos?

cfm ? O sentimento invariável é de responsabilidade muito grande, dilema intransponível. Se o jovem me procura, deve ser porque confia em mim, mas eu não me considero merecedor dessa confiança, menos por modéstia que por coerência: os caminhos da poesia são inumeráveis, cada um deve encontrar o seu. Poesia é um ofício como outro qualquer, ninguém nasce sabendo, não cai do céu. Quem estiver interessado, precisa aprender. Como? Sozinho, primeiro imitando os mais experientes; depois, se for capaz, ultrapassando-os, seguindo adiante. Mas o jovem não se satisfaz com isso, acha que estou escondendo o jogo e insiste, quer minha opinião ?sincera?. Para quem pede opinião ?sincera?, um pouco de atenção já seria suficiente. Mas para mim não é. Quando as circunstâncias permitem, dou essa atenção, não porque seja bonzinho e generoso ou porque espere fazer um discípulo, mas porque me dá prazer pôr à prova meus juízos e critérios: o jovem pode me ajudar a refiná-los. Ou a substituí-los por outros. Então leio com o autor o que ele me manda, verso por verso, e vou assinalando o que costuma acontecer de menos bom: clichê, redundância, prolixidade; sentimento explicado, analisado; voz empostada. Falo do possível antídoto: buscar a concisão, sugerir em vez de afirmar, fugir dos temas ?profundos?, preferir a vida simples das coisas a qualquer ?filosofia?, não confundir valor sentimental com valor estético, perceber que as formas já têm sentido e tirar proveito disso. Quer dizer, tudo mais ou menos óbvio, para quem tenha um mínimo de experiência. No geral, o resultado é positivo, acho. A exceção é quando o jovem está à procura de dicas e macetes para atingir o estrelato, e nessa matéria eu sou de uma inaptidão a toda prova.

ra ? Você afirma, num trecho em que reflete sobre a sua iniciação poética, que ?a idéia de que profissão e poesia sejam inconciliáveis parece ter a força dos dogmas, dos postulados, das verda­des reveladas? e que, por isso, jamais ocorreu a você questionar essa idéia. Nunca lhe ocorreu que tal ?dogma? pode não passar de uma invenção dos mandarins do sistema literário, com o objetivo de manter os poetas a pão e água, sempre dispostos a agradecer com fervor cada oportunidade que lhes é dada de publicar um novo livro?

cfm ? Pode ser, Ricardo, nunca me ocorreu pensar dessa forma. Vou rever. O mandarinato existe, claro ? e como! E tira proveito do poeta ?necessitado?, que implora favores. Mas não sei se isso explica o tal ?dogma?. Acho que é por causa do sistema como um todo, por causa das tais ?leis de mercado?, que o poeta não encara sua atividade como exercício profissional. Se os mandarins de plantão, por milagre, deixassem de ser prepotentes e arrogantes, ainda assim, acho, os poetas continuariam, como você diz, ?a pão e água?. Minha idéia é simples: você só será um profissional se o seu produto ou serviço tiver valor de mercado; logo, enquanto a poesia não for reconhecida como tendo valor de mercado, vai ser muito difícil, se não impossível, para o poeta, profissionalizar-se. Não depende do poeta nem do mandarim, depende de alguém arregaçar as mangas e armar uma estratégia de marketing capaz de explorar o potencial de mercado que a poesia sem dúvida representa. No primeiro mundo, esse é o papel do agente literário, e lá, segundo consta, funciona; no nosso mundo só funciona para escritores que representem lucro certo. Então, no nosso caso, esse cara que vai arregaçar as mangas para marquetear poesia pode ser o próprio poeta. Quantos bons poetas você conhece, Ricardo, que têm competência e disposição para isso? 

ra ? ?O espírito cartesiano (como você diz) insta­lou-se depois, esse espí­rito apreciador da dis­ci­plina que não tenho, mas exerço, venho exer­cendo há anos e anos, quase como uma segunda natureza.? Isso vale tanto para a poesia como para a vida cotidiana, Carlos?

cfm ? Acho que sim, e acho que começou na vida, mesmo, depois é que passou para a poesia. O que eu entendo por disciplina, tem que ver, também, com algum senso de organização e um mínimo de autocontrole ? aptidões que as circunstâncias me obrigaram a desenvolver. Comecei a trabalhar aos 15 anos, não por diletentismo, nem por ?princípio?, mas simplesmente para garantir a sobrevivência. E fui estudar à noite, passando a conviver com o pessoal que também trabalhava. De garotão livre, remediado, folgado etc., passei a ser um cara inteiramente dependente de relógio-ponto e de horários rígidos para o resto, um ?resto? que até então tinha sido tudo: jogar bola, nadar, paquerar as meninas, zoar com a turma, matar aula no colégio e por aí vai. No meio disso tudo, ler muito, escrever muito. Nessa época, em meio à raiva que senti do mundo, e sem que o premeditasse, fui aprendendo a me impor alguma disciplina, a exercer algum controle sobre o temperamento, os impulsos, as vontades, a fim de conciliar trabalho em tempo integral, mais os estudos, com alguma atenção àquele ?resto?, que nunca deixou de acontecer. Se não, acho que teria arrebentado. Assim tem sido, a vida toda. E não me queixo, embora reconheça que isso contraria a idéia convencional do poeta como um tipo impulsivo, temperamental, voluntarioso, sem compromisso com outra coisa que não a própria poesia. Não tenho nada contra essa idéia, que a seu modo é até simpática. É no que eu teria me tornado, quem sabe, se aos 15 as circunstâncias não me obrigassem a mudar de rumo. Conclusão, se eu for mesmo poeta (nunca tive certeza), não sou um poeta convencional. A culpa é da disciplina...   

ra ? Essa disciplina por certo terá sido fundamental para você, como afirma, não sentir incompatibilidade entre as atividades de criação, de crítica e de ensino. Fale um pouco mais a respeito, por favor.

cfm ? Ah, sim, fundamental. Sem essa disciplina eu acabaria misturando estações. Você não acha deplorável a aula ou o artigo crítico tratados como pseudopoema ou, o que é pior, como propaganda da poesia do autor? Ou, na contraparte, o poema utilizado como laboratório de especulações crítico-teóricas? Desde o começo (e eu comecei a publicar poesia e crítica ao mesmo tempo, aos 18, e a dar aulas logo depois), venho lutando para não cair nesses engodos. Graças à disciplina, acho que tenho conseguido o que me parece a medida justa, quer dizer, minha própria poesia nunca foi medida para minha crítica ou minhas aulas. Você pegue os exemplos supremos de poetas-críticos como Eliot, Pessoa ou Valéry. Você lê a vasta e brilhante produção crítico-teórica dos três e percebe que, em última instância, eles criticaram e teorizaram em causa própria, isto é, em defesa das poéticas embutidas nas suas respectivas criações. Ora, desde o início eu soube (não me pergunte como, eu simplesmente soube) que minha poesia nunca teria a riqueza, a consistência e a densidade necessárias para justificar que eu saísse por aí criticando, teorizando ou ensinando em causa própria. Por isso, minha crítica e minhas aulas lidam com as mais variadas tendências e temperaturas, em matéria de poesia, em busca de uma impessoalidade e uma isenção que eu sei impossíveis, em termos absolutos, mas que me esforço por atingir. Sem disciplina, senso de organização e autocontrole, seria até ridículo tentar. O refinamento das teorias que eu conheço está muitos graus acima da poesia que eu faço, assim como esta não tem maior afinidade com a de vários poetas que eu admiro e analiso, acho que com isenção e alguma proficiência. No meu caso, o crítico e o professor estão interessados em poesia, venha de onde vier, e o poeta faz só a poesia de que é capaz.   

ra ? Ainda hoje, um livro como Itinerário de Pasárgada, de Manuel Bandeira, continua a ser uma avis rara na literatura brasileira, posto que por aqui os poetas ainda parecem pouco dispostos a abrir sua ?oficina? à visitação pública. Como vê essa questão, você que sempre se empenhou na abertura de canais de conversação mais amplos entre o poeta e seu provável leitor?

cfm ? Você tem razão, Itinerário de Pasárgada é um livro precioso. Se você quiser encontrar algo semelhante, vai ter de garimpar numas entrevistas, aqui e ali, nas correspondências, um ou outro prefácio, uns depoimentos avulsos. Por que isso é raro, entre nós? Não sei, mas desconfio. Um primeiro obstáculo é que em nosso meio literário vigora, desde sempre, certo vezo aristocrático segundo o qual poesia é atividade a que se dedica uma elite de indivíduos intelectual e socialmente bem-nascidos. Sendo assim, como os misteriosos segredos da arte fazem parte do pacote de privilégios que os tipos receberam, ao nascer, nada disso deve ser trazido a público: para os iguais, será redundância; para a plebe ignara, um desperdício. Outro obstáculo pode ser o pudor: só se expõe quem não tem nenhum, ou quem é muito seguro da própria importância. Mas se ficarmos no largo intervalo subentendido entre esses extremos, será claro, ao menos para mim, que todos os poetas, dos maiores aos menores, têm algo a dizer e a aproveitar da máxima divulgação possível dos ?segredos de oficina?. Quanto ao leitor, o proveito seria ainda maior.

ra ? Que avaliação você faz do ambiente literário da São Paulo de seu período de formação literária, em comparação com os dias de hoje?

cfm ? De lá para cá a cidade cresceu tanto, as normas de convívio, em todos os níveis, sofreram uma transformação de tal ordem que talvez nem dê para comparar. Nos anos 60 existia de fato ?o? ambiente literário, no singular: as livrarias, os bares, as bibliotecas, as redações dos jornais, os museus, as faculdades etc. estava tudo reunido num limitado perímetro, umas centenas de metros, no centro velho. O mundo literário circulava por ali, manhã, tarde e noite; você tinha com quem conversar sobre literatura a qualquer hora, não precisava marcar com antecedência; você encontrava representantes de duas ou três gerações de escritores confraternizando, e às vezes se engalfinhando, na mesma mesa de bar. Fosse para confraternizar, fosse para se engalfinhar, você ficava sempre a par do que acontecia. Para mim, e para muita gente, isso foi de uma riqueza inestimável, embora só o notássemos depois que passou. Há muito tempo a cidade não tem mais um centro, hoje não existe mais um ambiente literário, mas dezenas, espalhados por quilômetros, tudo separado por túneis, pontes, viadutos e avenidas permanentemente entulhados de automóveis, impaciência e indiferença; hoje ninguém tem tempo para nada, quanto mais para jogar conversa fora, ainda que literária. Se mesmo assim você insistir em que eu compare, aí vai: naquele tempo acho que havia mais tolerância. Mas pode ser que a intolerância de hoje seja só conseqüência dos engarrafamentos, dos quilômetros, dos túneis e pontes, das agendas lotadas...

ra ? E quanto à sua poesia: como avalia as etapas por que passou, desde o lançamento de A poliflauta, em 1960, até os trabalhos mais recentes?

cfm ? Minha fase mais abundante, tanto de escrita quanto de publicação, foi a inicial, quatro livros em seis anos. Nesse tempo eu acreditava em ?inspiração? e no poder persuasivo de certa retórica (mal) assimilada de Vinícius, do Álvaro de Campos das odes, de Jorge de Lima, um pouco de Rilke e outros mais, que me levaram a insistir na auto-escavação ostensiva, excessivamente compenetrada. Mas a culpa foi minha, não deles. Em 1966, com Carta de marear, achei que tinha atingido alguma densidade mais duradoura, nessa linha (o livro até ganhou um prêmio). Foi então que ?reparei? em João Cabral, que já conhecia de antes mas por cuja poesia não nutria afeição especial. Mergulhei na obra do pernambucano e publiquei nessa altura o que talvez tenha sido um dos primeiros ensaios que tentam compreender o seu itinerário de forma abrangente. Daí por diante, minha poesia mudou de rumo, nada muito ostensivo, mas mudou, graças a vários fatores, um deles a familiaridade com João Cabral. Passei a buscar um pouco mais de concisão e a pôr de lado o ensimesmamento; comecei a dar atenção às coisas e objetos em redor. Essa segunda fase durou uns 15 anos e deu três livros: Urna diurna, 1974, Círculo imperfeito, 1978, e Subsolo, 1989. Neste último, acho que atingi meu melhor momento, consegui falar menos de mim e mais de lugares, bichos, pessoas e figuras. Apesar de não ter nada de autobiográfico, o livro reflete um exílio voluntário de quase cinco anos, foi quase todo escrito nos Estados Unidos, entre 1978 e 1983, tem que ver com o nascimento da minha filha, lá mesmo, tem que ver com a sensação de me sentir ?estrangeiro aqui como em toda a parte?. Acho que nesse livro consegui tocar nessa variedade de coisas de uma forma tal que transmite ao leitor alguma comoção. (Nunca almejei mais do que isso.) O que escrevi dos anos 90 em diante, sem que o premeditasse, seguiu noutro rumo. Insisti num traço que, antes, vinha meio escondido, o humor e a ironia, às vezes até algum deboche; busquei uma concisão ainda maior; e tentei escrever como quem se exercita, não como quem almeje produzir uma ?obra?. Foram quase 10 anos e deu um livro magrinho, Lição de casa, incluído na reunião dos anteriores, com esse mesmo título, em 1998. Feitas as contas, intervalos cada vez maiores entre as publicações, virei poeta bissexto, o que poderia ser uma desgraça para alguém, como eu, que ao começar achou que seria, vida afora, poeta em tempo integral. Mas pode ser só uma fase ou o receio de forçar a mão.  

ra ? Você surge, literariamente, num contexto marcado pela dura disputa entre os grupos. Como avalia aquela época? O que, de tudo o que se viveu ali, continua a ser fundamental para a poesia brasileira, e o que não passou de fogo de palha?

cfm ? Reforçando o que já disse numa das respostas anteriores, foi uma época de notável tolerância, difícil de entender para quem não a viveu e mais ainda para quem a encare à luz do que ocorreu nas décadas seguintes. Grupos literários que se digladiavam para valer, nos anos 60, em São Paulo, eram quatro: os de 45, os concretos, os da revista Praxis e os do engajamento político. O primeiro aspecto, nem sempre nítido ao olhar de hoje, é que esses grupos, somados, eram minoria, o pessoal barulhento, que freqüentava os jornais com assiduidade, quase sempre com estardalhaço. Mas havia também, ainda em atividade, uns sobreviventes de 22, como Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo... E Bandeira, Drummond, Murilo, Cecília, Vinícius, então vivos e atuantes... E havia sobretudo um bom número de discretos e independentes, isto é, de não filiados a nenhum grupo, entre os quais poetas de peso como Manuel de Barros, José Paulo Paes, Renata Pallottini, Hilda Hilst, ou (nomes já da minha geração) Roberto Piva, Rubens Rodrigues Torres Filho e outros que foram surgindo. E estou falando só de São Paulo. A tônica do período, aos olhos da maioria, não era dada por aqueles grupos ? cada qual armado numa postura rigidamente sectária e proselitista, batalhando para que toda a literatura fosse reduzida ao seu arraial. Apesar disso, a tolerância era uma realidade, não só de parte da maioria, mais ou menos alheia às polêmicas, como de parte dos beligerantes, já que a batalha pelo poder literário ainda estava em curso e aqueles grupos esperavam, de um modo ou de outro, tornar-se hegemônicos, por meio da adesão ou da desistência dos demais. Nas décadas seguintes, o que prevaleceu foi o Concretismo, seja porque tinha trazido propostas crítico-teóricas mais instigantes ou mais sistemáticas, seja porque foi mais persistente no proselitismo. Nos anos 70-80, a tendência concreta passou a figurar como uma espécie de hegemonia conquistada, de modo que a visão unilateral teve efeito retroativo, impondo-se a partir daí a impressão equivocada de que já tinha sido assim desde o início, muitos anos antes. O que ficou de fundamental, creio, foi o magnífico exemplo de tolerância, que durou pouco, é verdade, mas sempre pode ser reavivado. Graças a vários fatores, e em todos os quadrantes, não só na esteira concretista, ficou também um acentuado amadurecimento da consciência crítica em relação à poesia. Fogo de palha, embora seus efeitos não sejam nada fugazes, foi a mesquinharia da luta pelo poder literário. No meu caso, Ricardo, para que a resposta fique um pouco menos impessoal, preferi continuar no meu canto, quer dizer na minha beirada, e beneficiar-me da tolerância estratégica, então reinante.

ra ? Para a sua formação poética, a poesia concreta teve algum peso?

cfm ? É difícil separar a poesia concreta da volumosa teoria que a acompanhou, desde o início. No caso do concretismo, ninguém tem como apreciar a poesia sem recorrer às justificativas teóricas que lhe dão fundamento. Quem não gostar da poesia é porque não entendeu a teoria; quem entender a teoria será forçado a gostar da poesia. Quando penso no episódio ? como agora, em razão da sua pergunta ? o que me vem à mente é mais a teoria do que a poesia: aquela sempre me atraiu e instigou bem mais do que esta. As teses concretistas, recheadas de portentosa erudição, expostas com a verve e o radicalismo de suas teorizações sibilinas, pesaram na minha formação na medida em que me induziram a ler uma quantidade de autores, críticos e poetas, fundamentais; me obrigaram a um bom esforço reflexivo para sair daquele círculo vicioso; me ajudaram, em suma, a entender que não dava para contrapor ao requintado letrismo verbivocovisual as superficiais e vulgares noções de ?inspiração?, ?talento?, ?mensagem? etc.

ra ? Até prova em contrário, você é o único poeta contemporâneo que afirma, sem meias palavras, ter sido influenciado pela poesia de Mário de Andrade ? o que, tendo em vista o fato de todos, ou quase todos, afirmarem preferir Oswald, ou nenhum dos dois, revela-se como um gesto de grande coragem...

cfm ? É mesmo, Ricardo, eu tinha até esquecido, houve um tempo em que as pessoas eram obrigadas a escolher: Mário ou Oswald. Tem que ver, ao que parece, com o dilema pueril: qual dos dois é mais avançado ou mais engajado? Difícil entender que alguém, um dia, tenha dado crédito a essa bobagem. No meu caso, o apreço por Mário de Andrade, e o reconhecimento da influência que recebi de sua poesia e do restante de sua obra, nunca significou repudiar Oswald nem o que este represente. É apenas a constatação de que a Paulicéia desvairada, que eu li aos 14 anos, foi por acaso minha porta de acesso à poesia moderna, já que, também por acaso, até aí, em matéria de poesia, eu só tinha tido um ligeiro contato com os clássicos, os românticos e os parnasianos. Se isso me desmerecer perante os adeptos ortodoxos de Oswald, paciência. Eu só ficaria preocupado se o próprio Mário se sentisse desmerecido e reclamasse: ?Sai pra lá, moleque! Não quero saber do seu apreço, não?. As circunstâncias que tenho enfrentado, vida afora, jamais me convenceram a deixar de ter sofrido as influências que de fato sofri. Como você vê, Ricardo, não é uma questão de coragem, é só gratidão.

ra ? Dado notável de sua produção poética é a incorporação progressiva do humor e da ironia. Ao mesmo tempo, nota-se que os poemas vão ficando menores, mais ágeis. Procede?

cfm ? É isso mesmo, e acho que você imagina a dificuldade que tem sido contrariar minha propensão, que vem de longe, para o mais derramado, para o sentimental. Numa das respostas anteriores eu falei das fases e tem que ver com isso. Na fase inicial, em razão das influências recebidas na adolescência, eu achava que poesia só era compatível com austeridade. Como isso corresponde a uma das facetas do meu modo de ser, não vi mal algum em caminhar por aí, nos primeiros anos. Mas como o meu modo de ser compreende outras facetas, a partir de certo momento comecei a me esforçar para que outras formas de vibração, como o humor e a ironia, tivessem ingresso nos poemas. Mas só consigo ir mudando aos poucos. A passagem de uma fase a outra, para mim, precisa ser de dentro para fora: eu não conseguiria mudar radicalmente, para recomeçar em outro diapasão. Ao longo das mudanças, algum lastro deve permanecer, ainda que reduzido ao mínimo essencial. Só espero que esse lastro não desapareça antes de chegar ao mínimo.

ra ? Humor e ironia mesmo diante da dor. Ao contrário de boa parte dos poetas nossos contemporâneos, você não parece temer a tematização da dor e da perda. Quer falar a respeito?

cfm ? Falar a respeito, Ricardo, você sabe, não é fácil. Mas isso não é razão para que eu não fale. Fácil, por exemplo, é rir quando lhe contam uma boa piada ou quando você ganha na loteria. Eu, se um dia ganhasse, ficaria rindo à toa. Difícil é rir ou até sorrir quando você se defronta com a dor irremediável. Não me refiro ao riso nervoso, involuntário, que não raro eclode quando o infortúnio despenca na sua frente: acho que este não conta, não vale como riso. Eu me refiro àquele sorriso discreto, resignação cheia de revolta, o sorriso que é a última-última tentativa (inútil) de explicar o inexplicável, de compreender a sem razão da morte. Se for discreto, mesmo, pode até virar poema.

ra ? Há quem diga que a poesia brasileira tornou-se ensimesmada, pouco dialógica. Você concorda?

cfm ? Sei não, Ricardo, tendo a não concordar. No geral, o poeta é de fato um ensimesmado, ontem, hoje, sempre. Então, não dá para dizer que ?tornou-se?: hoje, apesar de tantas mudanças que têm ocorrido, em todas as direções, o poeta continua do mesmo jeito antigo, assuntando as suas intimidades ? nas quais podem ou não repercutir as inquietações do mundo em redor. É aí então que o ensimesmamento converge para o diálogo. A grande poesia de todos os tempos (e o nosso tempo, acho que você não discorda, tem uma grande poesia) dialoga permanentemente com todos as criaturas, com cada qual à sua medida. Saindo para fora do miolo da poesia que se faz hoje, e pensando nos arredores, na chamada ?vida literária?, o que eu noto é uma intensa e generalizada vontade de diálogo, talvez mais do que antes, apesar de dispersa e fragmentada. Pense na quantidade de revistas e nos grupos que se formam, não obstante efêmeros, umas e outros; pense nos recitais e nos eventos, acidentais ou regulares; pense na internet, no prosaico e-mail, que nos põe em contato, a qualquer momento; nos jornais e revistas eletrônicos, nos blogues como o seu Jaguadarte... Você chamaria isso tudo de ensimesmamento? Pense, por fim, Ricardo, no acaso do nosso encontro, no aeroporto aqui em São Paulo, uns meses atrás, a caminho de Coimbra, e em como não paramos de dialogar, até hoje. Ou nós dois não representamos um pouco que seja da poesia do nosso tempo?

ra ? Seu poema mais realizado, aquele que você gostaria que daqui a, sei lá, 50 anos, fosse apontado como exemplo da melhor poesia de Carlos Felipe Moisés...

cfm ? Não sei se consegui algum que mereça ser lembrado daqui a 50 anos, acho que nem daqui a cinco. Mas sua pergunta não é bem essa, eu entendi: você não me pediu para acender a bola de cristal e adivinhar quais critérios hão de prevalecer daqui a meio século, mas perguntou pelo meu critério, hoje. A resposta é quase a mesma: não sei se já consegui botar no papel um exemplo da minha melhor poesia. Para mim tem sido uma questão de sobrevivência achar (sonhar?) que o melhor de mim ainda está por fazer. Do já feito, ?Mário de Andrade em San Francisco? ou ?Mais um dia?, do Subsolo, são dois longos poemas, que têm algum humor e ironia, e acho que registram, com fidelidade, o meu sentimento das coisas.

ra ? E hoje, para onde se encaminha sua poesia, Carlos? A propósito, fiquei vivamente impressionado quando ouvi suas leituras em Coimbra, no Encontro Internacional de Poetas. Você não tem planos de se dedicar mais à leitura pública de poemas, ou mesmo à gravação de um cd? Sua poesia ? muito marcada pela música ? inclusive aponta para isso, não acha?

cfm ? O que eu tenho escrito ultimamente não corresponde ao caminho que eu gostaria, aquele do humor, da brevidade. Vários dos poemas recentes foram laçar na memória umas figuras que eu admiro, como Sidney Bechet, Bessie Smith, Charlie Parker, John Coltrane, Billie Holiday, além de Theda Bara, Gertrude Stein, Carlos Gardel... Tudo assim misturado mesmo: meu gosto não é refinado nem exclusivista. No caso do jazz, por exemplo, minha intenção era que os poemas fossem um pendant verbal da música ou da voz de cada um deles, mas saíram todos muito descritivo-narrativos, e muito extensos. Então não sei bem o que fazer com esse inesperado novo caminho. Talvez se relacione ao que a sua sensibilidade detectou, que a minha poesia é marcada pela música ? e você nem sabia desses poemas ligados ao jazz. Talvez tenha a ver também (quem me dera!) com o generoso elogio que você faz às minhas leituras, lá em Coimbra. Dizer poemas em público é um negócio que me dá prazer, mas prazer de amador: nunca me preparei para isso. Se eu me empenhar para valer, não vou mais poder contar com o beneplácito do ?Puxa, para quem não é do ramo, ele até que não se sai mal?. Mas se você garantir que me ensina uns truques e me dá uma assistência, sou até capaz de encarar essa idéia ousada de gravar um cd. De qualquer modo, já me sinto realizado com a sua reação. Obrigado, Ricardo!

 

 

*  *  *

 

 

 

NOITE NULA

 

1.

 

Agora sim agora sei : a noite,

matilha de sombras, óleo espesso

a escorrer da candura dos arranha-céus,

a noite e seus milhares de barcos

a apodrecer, prestes a naufragar

ou a zarpar no romper da aurora,

a noite agora cerra sobre a cidade

as suas asas definitivas & então

sim, sei :

essa noite não é nada.

 

A Terra tremeu um pouco (é

verdade) mas foi só a debandada

dos animais da tarde,

esbaforidos, a devorar

entre as nuvens de bronze

a derradeira chama do sol frio

? como soem fazer

       aliás

                todo dia.

A casa também tremeu,

             um pouco.

As paredes hesitaram,

os enfeites sobre a cômoda

a louça no armário

os livros nas estantes

         ameaçaram

         ruir

         esfarelar-se no chão

         ou voar

perdidos para sempre

no reino de nunca-mais.

Num átimo porém o dia já não era

é como se dia aí jamais houvera

e essa luz não fora

                          senão

o sonho acalentado pelo negrume

da noite nula.

 

Por isso, agora sei :

essa noite não é nada.

 

 

2.

 

Se não, vejamos. Noite nula : noite

noite sem termo, noite do não-ser...

Não presta para nada a noite, só

para ensejar uns versos bem medidos.

 

O coração metrificado pára (

heróico ou sáfico é tudo igual)

e fim... Aí só resta escarnecer :

amem a noite os magros crapulosos.

 

O mal pior é mesmo ter nascido

poeta inapetente, fazedor

de versos frouxos, sem o menor viço

 

: o mundo todo enfim enrodilhado

na severa engrenagem do soneto.

Mas o que tem a noite a ver com isso?

 

 

3.

 

Ah a noite! Concubina favorita

do iracundo soberano cego,

senhor dos gafanhotos azulados,

todo garboso em seu negro manto.

De dia não se importa com o destino

dos seres que se abrigam nos limites

sem fim do seu reino a perder de vista.

(Se ele a perdeu, a quem mais valeria?)

Mas basta o sol se pôr e a noite chega,

exala o se odor inebriante &

el-rei já goza o primeiro dos mil

orgasmos que noite adentro terá.

 

E assim, de espasmo em espasmo (treva

sobre treva), outro soneto se cumpre.

 

 

4.

 

E chega de soneto! Chega de louvar

a noite ou o soberano cego. Soberano

de quê? De um reino sem fronteiras

onde sob o manto de negras dálias

marchetado a ninguém é dado ver

o que el-rei jamais verá? E eu?

Que tenho eu a ver com isso? Nada,

nada! Tudo

                pretexto

para que vez ou outra me escape

por entre os dentes que rangem (

mas não de frio) um decassílabo.

 

A noite é cálida.

Não é nada a noite, mas aquece

ou quase & ainda traz ao longe

esse corteja de pirilampos vadios

que prestam para alguma coisa.

 

É cálida a noite.

                      Mesmo assim

me embrulho no jornal de ontem

me abrigo das notícias que não li

me protejo do frio que não há.

Nunca se sabe. Agora

sei : nunca se sabe.

 

        Cerro os olhos

        me ajeito

        e aguardo.

 

O ombro esquerdo dói

             (um pouco).

É a posição, talvez, talvez a idade :

há milênios não durmo ao relento.

 

Vassalagem de sombras

o tempo segue o seu curso

no encalço da madrugada.

 

Essa noite não é nada.

        

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                          Ricardo Aleixo, por Carlos Felipe Moisés

 

 

 

Ricardo Aleixo, nascido em Belo Horizonte, 1960, é poeta, compositor, músico e performer, com apresentações na Argentina, Alemanha, Portugal, França e EUA. Publicou Festim (1992), A roda do mundo (1996), Quem faz o quê? (1999), Trívio (2001) e Máquina zero (2004). E-mail: jaguadarte@hotmail.com  

 

Carlos Felipe Moisés nasceu em São Paulo, SP (1942). É formado em Letras pela USP, onde lecionou, assim como em várias outras universidades, no Brasil e nos Estados Unidos. Estreou em 1960, como poeta (A poliflauta), e publicou até hoje nove livros de poesia (o mais recente, Noite nula, 2008). Publicou vários livros de crítica literária (como Poética da rebeldia, 1983; O desconcerto do mundo, 2001; Poesia e utopia, 2007) e de literatura infanto-juvenil (O livro da fortuna, 1992; A deusa da minha rua, 1996; Conversa com Fernando Pessoa, 2007 ? entre outros). É tradutor de Sartre (O que é a literatura?), Joseph Campbell (O poder do mito), Marshall Berman (Tudo o que é sólido), Proust (Alta traição ? uma coletânea, que reúne vários poetas) etc. Desde que se aposentou pela USP (1991), coordena oficinas de criação literária, dá umas palestras de vez em quando, colabora esporadicamente na imprensa ou com editoras e dedica o tempo que sobra (pouco) a escrever. E-mail: carlos_moises@uol.com.br

Carlos Felipe Moisés