23/02/2009 Número de leitores: 1238

A professora de baianês

A. Zarfeg Ver Perfil

Ela reunia ritmo, sotaque e espontaneidade. Diante dela o berimbau não passava de uma geringonça fálico-musical fora de moda. Ivete Sangalo, ACM e Boca do Inferno juntos não conseguiam ofuscar tanto jeito, graça e sedução. Assim era a professora de baianês, à qual eu cheguei pelo anúncio de jornal: Aprenda baianês e enriqueça seu vocabulário.

 

Diga aê, meu rei.

 

Estou de passagem e gostaria de aprender um pouco de baianês, que poderá me ser útil.

 

Utilíssimo, meu cumpadi.

 

Então...

 

Relaxe, meu peixe. D’agora em diante cê terá um intensivão de baianês em 10 suaves e descontraídas lições.

 

Ela se apoderou de mim, com fluência, pediu muita calma nessa hora, bacana, eu disse ok e me preparei para a primeira lição que, segundo a professora, já estava acontecendo naquele exato momento – e equivalia a uma introdução ao dialeto local. Em seguida, desandou a falar, sem aviso prévio senão de improviso, como se um trio elétrico tivesse baixado sobre ela, enquanto eu era ouvidos, boca e sussurros...

 

Pode relaxar legal, cê tá na terra de Gabriela cravo e canela, e ninguém vai tirar vosmecê de otário. Vale a pena uma estada aqui. Se vale! A Bahia continua um show a céu aberto, um tremendo espetáculo, enfim, a verdadeira Casa do Noca que se tem notícia. Você vai se sentir no paraíso tropical onde o couro come sem dó nem piedade e todo mundo é nota dez. Tá me entendendo? A felicidade é mesmo um estado de espírito na terra onde o cabra não nasce, estréia. Eu tô ligado que ocê tá ligado na de colé de mêrmo... Por isso se plante, meu peixe. Tá apreciando? Afinal, cê é ou não é minha corrente? Aqui cê terá um tratamento vip, na moral e sem miserê. Fique à vontade para lascar em banda. Biriba nela, mô pai! Não diga nada, apenas sinta... Mas atenção: desde que cê não me quebre, cê pode quexá aquela pirigueti, cumê água e batê um baba. Mas nunca vá picar a porra! Ei, ó o auê aí ô! De resto, pode sair do chão à vontade. Na BA é proibido proibir – disse o tropicalista. Biriba nela, mô fiu! À noite, vá direto pro reggae ou pro axé (cê escolhe). Tudo beleza aí? A BA é um trio elétrico, com ou sem alegoria, no carnaval ou no período eleitoral. É a regra. Mas eu num tô comeno reggae pra esse discurso, não, meu bródi. No fundo, sou desconfiadérrima das boas intenções dos mandachuvas de plantão. Ó paí, ó. Veja quanta sensualidade, ritmo e alegria... Não é mêrmo de lascar? De tão boa esta terra chega a ser um inverossímil cartão postal oferecido a prestações no mercado globalizado. Agora respira fundo, meu rei... O que cê tá esperando pra cair na folia? Aqui cê manda e desmanda, disgraça. Cê pode tirar a onda da porra e até ficar nu (se esse for o seu desejo). Sacou radical?

 

Aquela introdução apetitosa me fez recordar a primeira vez que adentrei o paraíso, num jato de prazer e insegurança, na minha distante e precária adolescência. Sem contar que a professora de baianês me abriu também as portas de outras baianidades. Ainda conto os pormenores dessa aventura linguístico-sensual inesquecível. Palavra. Até porque não pretendo comediar o leitor, que, a essa altura dos acontecimentos, está bem crescidinho... Colé de mêrmo?


A. Zarfeg