15/03/2009 Número de leitores: 941

O jornal é o software

Claudio Soares Ver Perfil

     

 

It may be considered strange, but it is a fact, that there has always been great difficulty in defining a newspaper in such a manner as to include a newspaper and nothing else. - The New York Times, 14 de setembro de 1884
 

Digamos que tão acachapante quanto a incerteza expressa no artigo de 1884, do jornal The New York Times, intitulado “What is a newspaper?” [125 anos depois, ela ainda nos atinge], seja a certeza paradoxal de que, daqui para frente, levaremos muito, mas muito tempo, para chegarmos a uma tal definição, aceitável, que inclua a palavra “jornal” e exclua a palavra “software”. 

Se alguém lhe perguntar qual a “versão” do jornal que você lê, cuide que poderá não estar se referindo especificamente à versão dos fatos, que como percebeu Walter Lippmann, “inevitavelmente será subjetiva e limitada ao modo como o jornalista constrói a sua própria realidade”. Tão pouco, o interlocutor poderá estar se referindo à data registrada na primeira página do periódico [característica sine qua non, segundo o artigo de 1884, para ao menos arriscarmos uma definição de jornal]: cada vez mais as matérias da edição de hoje, de ontem, de décadas atrás, estarão armazenadas em um mesmo banco de dados digitais, contextualizadas, compartilhadas por diversos leitores simultâneos, comentadas, anotadas, atualizadas por eles, como no vídeo daquele anúncio de certo jornal carioca [on line, on time, full time] certamente inspirado no outro, do professor, Michael Wesch, da Kansas State University.

E caso nos concentremos na interface através da qual serão lidas, essas matérias serão compostas e ajustadas, naturalmente, a diversos tipos de telas. Imagine, por exemplo, que daquela matéria publicada hoje pela manhã, em segundos, navegaremos para outras, publicadas há meses, tornando mais fácil o processamento e contextualização de informações correlacionadas.

E por isso, aquela segunda pergunta, ou seja, “qual a versão do seu jornal?”, se refere [e cada vez mais se referirá] à versão do software em que “roda” o seu jornal. Explico: a nossa experiência de leitura de jornais [e livros, claro] eletrônicos pode é e será fortemente influenciada pelo software que usamos no processo. 

Aliás, para resumir o conceito, arriscaria dizer que seja lá o que for um jornal, sem dúvida alguma, a definição atenderá à seguinte fórmula: JORNAL= CONTEÚDO + CREDIBILIDADE + GUI [Graphical User Interface] + X. Sendo X a variável que representará nosso grau de incerteza em relação à definição do que seja um jornal.

Ora, sabemos que, nos últimos anos, não tem sido diferente a própria definição de software, desde o advento e popularização do ambiente MS Windows e da WWW.

Quando o software dos jornais eletrônicos processa e personaliza o conteúdo de acordo com as preferências do leitor “navegador”, abrem-se novas alternativas de interagirmos com o jornal que podem mudar para sempre a nossa relação com a informação que consumimos: se o jornal passa a ser software, e software, como há tempos sabemos, é serviço, logo [silogisticamente concluíremos] que jornais [e livros] são serviços. A entrega da informação é um serviço que pode e deve ser personalizável, adequado à necessidade do seu consumidor.

Em relação aos livros eletrônicos, não demorará muito, pagaremos por uma assinatura e leremos quantos livros quisermos, tendo a possibilidade de acessar dados extras sobre eles, integrando-os a dicionários, enciclopédias e outros recursos on-line, o que nos proporcionará uma experiência de leitura totalmente novas, com as informações sendo acessadas de forma bastante rápida, como se vários livros, na verdade, fosse um só [bom, tecnicamente, o Amazon Kindle já faz isso, mas essa interação ainda deve melhorar].  

Então, voltamos àquela pergunta que não se cala: afinal de contas, que versão de jornal você lê? Seria ela suficientemente interativa? Alguns jornais, como o mesmo The New York Times, entre nós desde 1851, já apresentam alternativas bem interessantes de interação múltipla e dinâmica com a informação em ambiente on-line.

Hoje, falaremos sobre uma delas, o Times Reader 1.1.3.0, software de leitura do jornal The New York Times [um Trial pode ser baixado, mediante cadastro,aqui]. 

Se aceitarmos que o objetivo primordial de um jornal é ser lido por seus leitores, é razoável que seja considerada a preferência desses leitores em relação ao dispositivo através do qual desejam acessar a informação. O Times provê diversas alternativas [incluindo a lançada The New York Times iPhone Application]. 

Posso dizer que a experiência de ler o NY Times a partir do Times Reader é especialmente dinâmica e assombrosamente produtiva. E entusiasma. Estamos chegando perto do que, modestamente, considero será a leitura nos próximos anos, fortemente baseada em ferramentas que se amparam em algoritmos, banco de dados, hipermídia e web 2.0, ou seja, em software.

Uma versão Trial e grátis pode ser instalada em qualquer laptop, desktop, tablet PC que rode os sistemas operacionais Windows XP ou Windows Vista. Uma versão “beta” para Mac também pode ser baixada. Na versão trial, apenas algumas seções do jornal estarão disponíveis, mas na paga, o leitor terá acesso a todo o acervo do NYT desde 1851.

Sincronizando o Times Reader, o jornal eletrônico é atualizado, incluindo as últimas notícias e fotos. A disposição das notícias na tela torna a leitura bastante agradável e não cansa a vista [testei em um monitor de 17”, na resolução de 1280 x 960 pixels]. O texto ajusta-se a qualquer tamanho de tela, é de fácil navegação, sem rolagem, e permite controlar o tamanho das letras.

A interface é bastante elegante. O menu suspenso organiza o acesso às matérias por seções e outras categorias e ações, como, por exemplo, acesso às matérias mais comentadas pelos leitores. As fotos do dia podem ser vistas em slides e, ao clicar a foto, o leitor é levado à matéria correspondente.

As buscas à base de notícias são um caso a parte. Além de considerarem o contexto das matérias, os resultados serão apresentados a partir de três modelos:

1] List View: apresenta uma lista das matérias que contenham os arqgumentos pesquisados;

2] Relevence View: apresenta as matérias por relevância em relação aos arguementos de busca, com as mais relevantes aparecendo maiores que as menos relevantes;

3] Topic Explorer: à medida que o leitor digita o argumento de busca os nós do “mapa mental” vão se desconectando da raiz ou outros vão se conectando montando a árvore de textos relacionados ao tema buscado, um texto se ligando a outros, compondo assim um infinito número de textos…


Bom, pelo andar da carruagem [e sua velocidade hoje é medida em megabits, gigabits por segundo], cada vez menos saberemos o que é um jornal. 


Mas, como vaticinaria o Sr. Halloran, um feliz “proprietário de computador pessoal”, na reportagem de 1981, do NewsCenter, em que se explorou o futuro dos jornais eletrônicos, também acreditamos “que seja o futuro, esse tipo de interrogação e login individual em jornais...”  

*

Todos essas características ligadas à interface, à linearidade ou hipertextualidade do acesso à informação, digital ou não, desde a pergunta de 1884 até os dias de hoje, relacionam-se à leitura [independentemente, friso, do suporte usado].  


Eis que enquanto pesquisava na internet para escrever esta coluna, quase ao acaso, encontrei no Youtube, no canal do The New York Times, a interessante história de uma família moderna e democrática de leitores: os Sims.  


Cada um dos membros da família [que são bem reais, e não se tratam de uma simulação criada no game homônimo de Will Wright e distribuído pela empresa Maxis] lê a partir do suporte ao qual melhor se adaptaram: se os pais preferem ler no papel, os filhos preferem a tela do computador.


Mas, no momento em que falamos de tipos diferentes de suportes para a leitura, inevitavelmente, também estariamos falando de diferentes tipos de leitura? É a pergunta que deveríamos acrescentar às duas anteriores relacionadas aos jornais. Aguardemos os acontecimentos e respostas propostas nos próximos 125 anos.

 

 

 

Claudio Soares