05/01/2011 Número de leitores: 731

Osso, Amor e Papagaio

Alfredo Suppia Ver Perfil

Se a literatura brasileira de ficção científica é escassa comparada à produção norte-americana ou européia do gênero, o cinema nacional voltado à ficção especulativa de caráter científico ou tecnológico seria ainda mais inexpressivo.

De toda forma, nem sempre nos damos conta de que, entre os poucos exemplos de ficção científica infiltrada no cinema brasileiro, alguns casos são de adaptação. Estudiosos da ficção científica no Brasil já associaram ao gênero os contos “O Imortal”(1882) e “O Alienista” ( ), de Machado de Assis, num claro esforço de localizar raízes mais “profundas” do maravilhoso fantástico (Todorov) nas letras nacionais, legitimado por autores consagrados. “O Imortal” descreve uma poção indígena que dá imortalidade a quem o bebe. O tema central não é o caráter sobrenatural do elixir, mas o tédio da imortalidade, narrado pelo protagonista. Em “O Alienista”, o protagonista Simão Bacamarte é médico conceituado em Portugal e na Espanha, que decide iniciar um denso estudo psiquiátrico sobre a loucura e seus graus, classificando-os. O “rigor científico” de Bacamarte faz com que ele interne um número cada vez maior de pessoas, até chegar à conclusão de que apenas ele seria mentalmente sadio. A obra propõe uma crítica ao cientificismo da época, formas de segregação estimuladas pela política e por uma sociedade amparada em valores duvidosos. No caso de “O Alienista”, o motivo do experimento psiquiátrico seria suficiente para associar a narrativa à ficção científica em seu estado mais embrionário.

Nessa arqueologia retrospectivista, Lima Barreto, autor recentemente resgatado e celebrado, também teria sua contribuição. Por exemplo, no conto “A Nova Califórnia” (1910), o motivo da alquimia nos daria razão para associá-lo a manifestações tupiniquins de ficção científica literária. “O Alienista” resultou num filme da fase “lisérgica” de Nelson Pereira dos Santos: Azyllo Muito Louco(1970), delírio alegórico do nível de Quem é Beta? (1972), este sim uma ficção distópica um pouco mais evidente. O conto de Machado também deu origem a adaptações para a televisão (especial da TV Globo dirigido por Guel Arraes, 1993) e para os quadrinhos (adaptação de Fábio Moon e Gabriel Ba, editora Agir, 2007).

Por sua vez, “A Nova Califórnia”, de Lima Barreto, inspirou uma comédia (ou, talvez melhor dizendo, chanchada) da Vera Cruz: Osso, Amor e Papagaio(1956), com fotografia de Henry Chick Fowley. No filme de Carlos Alberto de Souza Barros e César Mêmolo, Acangüera, uma cidadezinha do interior governada por um “coroné” (que enfrenta oposição política igualmente caricata), registra óbitos em quantidade surpreendente. Em meio ao hábito pitoresco de empinar pipas, amplamente praticado pela população e estimulado pelas autoridades locais, a chegada do personagem Raimundo Flamel instala de vez o rebuliço na cidade. Alquimista, Flamel teria descoberto uma fórmula capaz de converter ossos humanos em ouro. A ganância desencadeia uma verdadeira “corrida ao tesouro” na cidadezinha, com o assalto a sepulturas apoiado pelo governo local. No fim, Flamel é sugerido como louco, o que revela a fragilidade do novum(1) - em verdade um “falso novum” conforme a teoria crítica de Darko Suvin (Metamorphoses of Science Fiction. New Haven: Yale Univ. Press, 1979)(2). Na TV, “A Nova Califórnia” inspirou a novela Fera Ferida (Globo, 1993-4, escrita por Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, direção geral de Denis Carvalho e Marcos Paulo), com Edson Celulari no papel de Raimundo Flamel. Mais exatamente, o enredo de Fera Ferida foi inspirado no universo ficcional de Lima Barreto, abarcando aspectos/elementos dos romancesClara dos Anjos, Recordações do escrivão Isaías Caminha, Triste Fim de Policarpo Quaresma, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá e em personagens dos contos Nova Califórnia e O Homem que Sabia Javanês. A história tem início quando o antigo prefeito da fictícia Tubiacanga, Feliciano Mota da Costa (Tarcísio Meira), acredita que a cidade esconde preciosas minas de ouro. Ao seu lado estavam os companheiros Major Emiliano Bentes (Lima Duarte), Professor Praxedes (Juca de Oliveira) e Numa Pompílio de Castro (Hugo Carvana). Para provar ao povo de Tubiacanga que está certo, Feliciano mostra uma enorme e brilhante pepita de ouro em plena praça pública, causando um rebuliço entre os tubiacanguenses. Com a pedra nas mãos, o prefeito consegue convencer a todos a entregar-lhe suas economias para a construção de uma empresa de mineração na cidade.

Esta breve nota sobre Osso, Amor e Papagaio e adaptações de Machado de Assis e Lima Barreto para o cinema leva em consideração uma grande flexibilidade conferida à análise da ficção científica no cinema e audiovisual brasileiros, no sentido de localizar traços para associação com o gênero em textos aparentemente muito distantes da ficção utópica ou especulativa. Dessa forma, pretendemos chamar a atenção quanto a tentativas de adaptação para o cinema e a TV de narrativas por vezes associadas à literatura mundial de ficção científica, assinadas por autores brasileiros consagrados. Certamente, a ficção científica audiovisual brasileira é escassa em comparação ao equivalente europeu ou americano. Mas embora seja menos numeroso do que gostaríamos, o cinema brasileiro de ficção científica apresenta vários casos ignorados por estudiosos e pela crítica especializada. Nesse panorama, adaptações também se revelam mais numerosas do que imaginamos à primeira vista.


 

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(1) Conceito trabalhado por Darko Suvin em Metamorphoses of Science Fiction (Westford: Yale Univ. Press/New Heaven and London, 1980). O novum é qualquer elemento, seja um artefato técnico, fenômeno natural ou de fundo social, que promove a descontinuidade, isto é, desperta no leitor (ou espectador) a impressão de que aquele mundo ficcional que lhe está sendo apresentado é significativamente diverso do mundo de sua experiência.

(2) Sobre “falsos nova”, ver Darko SUVIN, Metamorphoses of Science Fiction, pp. 81-2. Suvin menciona, por exemplo, space operas que não passam de remakes de Westerns.

 

Alfredo Suppia