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27/05/2006 01:10:00
Marco da Modernidade



Por Nahima Maciel

(Publicado no caderno Pensar do jornal Estado de Minas em primeiro de abril de 2006)

 

 

 

 

                        Silviano Santiago, foto de Maria Tereza Correia

 

 

 

 

O crítico literário Silviano Santiago escolheu o tema da bastardia para criar o conceito de Ceição ceiçim. O título é uma contração das expressões “sei-não” e sei-sim”. Foi criado pelo próprio Silviano, convidado pelo escritor paraibano Rinaldo Fernandes para recriar passagens de Grande Sertão: Veredas. E estará em uma coletânea de contos de escritores contemporâneos a ser lançada pela Garamond para celebrar os 50 anos de publicação do romance de João Guimarães Rosa. Silviano foi buscar em Riobaldo o tema para o conto. O personagem é um bastardo e o crítico literário viu nisso um caminho para explorar a bastardia: “O tema me é caro desde o contato na juventude com os romances de André Gide, onde pelo ato rebelde o bastardo representa a redenção da família burguesa monogâmica. Como a maioria dos seus conterrâneos, Riobaldo é um bastardo. É isso que está escrito lá na épica de Rosa e que serve de epígrafe ao conto”, explica Silviano. “A bastardia me levou a explorar psicologicamente, no trato da infância, a incerteza que existe na certeza absoluta, daí o título do conto e o nome do personagem.” Não é a primeira vez que o crítico ensaia uma releitura de um conto de Rosa. Fez isso em Transtornado incerto, que estará na coletânea Ora (direis) puxar conversa!, a ser lançada na próxima Bienal do Livro de São Paulo. Este por sua vez, é uma releitura de Um moço muito branco, publicado por Rosa em Primeiras estórias.

 

Para Silviano, Grande Sertão: Veredas é um marco da modernidade literária brasileira. Mas carece de fôlego. Foi incompreendido ao ser lançado. Continua às margens na contemporaneidade, sufocado pela indústria do livro, que dita parâmetros de mercado e exclui o extremo experimentalismo presente na obra. “No momento em que o livro foi publicado, muitos grandes artistas e críticos brasileiros não o receberam bem. Acreditavam que se tratava mais de um exercício de lingüística do que uma narrativa artística”, constata Silviano.

 

É também universal a escrita de Rosa. Aí está a originalidade do autor. “O universal no particular”, explica Silviano, autor do romance O falso mentiroso e do ensaio de crítica literária Intérpretes do Brasil. Abaixo, o crítico fala sobre a atualidade de Grande Sertão, a comparação com Ulisses, de James Joyce, e a modernidade da escrita de Rosa.

 

                                            

                                                 Nahima Maciel (Correio Braziliense)

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinqüenta anos depois da publicação de Grande Sertão: Veredas, o que fica de mais importante? Qual a dimensão que a escrita de Guimarães Rosa, e especialmente Grande Sertão, têm hoje?

 

Antes de responder, se faz necessário um esclarecimento. Há literatura e há a indústria do livro. Uma bem diferente da outra e com suas regras próprias. Na literatura existem alguns poucos livros, que são avaliados com rigor e imaginação. A indústria do livro lança indiscriminadamente seus produtos no mercado. Às vezes, a indústria do livro se vale da literatura para poder se legitimar junto às instâncias de poder nacional, estadual ou municipal, como os órgãos de financiamento da cultura e da educação. Mas isso é apenas um disfarce de Chapeuzinho Vermelho que esconde as unhas do lucro. As comemorações se prestam admiravelmente ao disfarce. Não se procurem, portanto, na indústria do livro as marcas profundas deixadas pelo Grande Sertão: Veredas. Elas estão na literatura e por diversas razões não chegam a atingir a indústria do livro. A escrita de Rosa representou e ainda representa um estágio importante na modernidade literária. Um momento em que se levou até o paroxismo o experimento (no sentido que se dá a essa palavra nos laboratórios de ciências) na retórica da ficção e na linguagem artística. Sabemos que a humanidade é meio canalha e que não agüenta a continuidade dos momentos de exasperação ficcional e artística. Pede arrego. O experimentalismo de Rosa – equivalente ao de Joyce na literatura anglo-saxônica – perdeu fôlego junto aos leitores logo em seguida devido a questões de caráter emergencial e político (golpe de 64), e perde ainda mais fôlego hoje com os parâmetros dados por uma literatura de e para o mercado (neoliberalismo). No entanto, a obra de Rosa permanece como algo que os cidadãos de boa vontade reverenciam pela altitude alcançada.

 

Assim como há um estilo na escrita de Guimarães, há uma maneira de se ler Grande Sertão?

 

Não há uma chave-mestra para a leitura de Grande Sertão: Veredas. Se houvesse, o sucesso do livro junto ao grande público estaria garantido e talvez o romance não fosse afinal a obra-prima que julgávamos. Como disse o poeta e romancista cubano Lezama Lima, “somente o difícil é estimulante”. A grande qualidade do romance de Rosa é prescindir de um modo de leitura coletivo. Algumas obras podem receber uma leitura coletiva, dada de empréstimo ao leitor comum pelo professor ou pela crítica. Lembro-me de alguns poemas de Carlos Drummond como E agora, José. Mas o grande romance de Rosa requer um leitor tão imaginativo e inventivo quanto o próprio autor. Um leitor que acredite que, ainda segundo Lezama Lima, “somente a resistência que nos desafia é capaz de assestar, suscitar e manter nossa potência de conhecimento”. A leitura do romance de Rosa (como a do romance-irmão Paradiso, de Lezama Lima) será uma experiência única de “travessia”, para usar a expressão que é cara ao nosso romancista. Aquele que se arrisca a entrar não será o mesmo à saída. Se não há chave-mestra, faz falta um livro semelhante ao que Cavalcanti Proença escreveu para introduzir o estudante a um outro grande romance, de leitura relativamente difícil, que é Macunaíma, de Mário de Andrade. Roteiro de Macunaíma, este é o título, é um livro precioso. Cavalcanti Proença passa muitas informações sobre o romance de Mário, de maneira inteligente, segura e audaciosa. É como se fosse um glossário (no sentido amplo da palavra) de Macunaíma. Ficamos todos à espera de alguém que escreva o Roteiro do´Grande Sertão: Veredas´.

 

Como a escrita de Guimarães Rosa permeou a literatura brasileira?

 

Eu frasearia a pergunta pelo avesso: como a escrita brasileira permeia a escrita de Guimarães Rosa? Assim colocada, responderia que desde a Carta de Caminha, passando pelos inúmeros relatos dos viajantes estrangeiros e pelo romantismo indianista de Alencar, passando ainda pelo regionalismo realista-naturalista e pelo regionalismo de Afonso Arinos (Pelo Sertão), passando principalmente por Macunaíma, de Mário de Andrade, a escrita tipicamente brasileira sempre se preocupou em desenhar a incógnita que era o Brasil, redesenhando-o a partir da paisagem e dos seus habitantes estranhos e, digamos, primitivos. A escrita de Rosa nada mais é do que a soma de todas essas colaborações. A originalidade está em que Rosa lhes adiciona uma pitada de universalidade. O universal no particular. Esta pitada é indispensável para que se fermente o que foi sempre estagnado e é um perigo que permaneça estagnado sob a forma de ufanismo. Rosa fermenta a tradição brasileira por frases contraditórias e harmoniosas: “Sertão: é dentro da gente” e “O sertão é do tamanho do mundo” e mais “O sertão é sem lugar”. Some-se, noves fora a escrita tradicional e mágica de Rosa. Aquela que diz: “Tropeçar também ajuda a caminhar”. Ou mais: “Povo, quando fala, fantaseia”.

 

Falar do sertão como metáfora da condição humana ainda faz sentido hoje? Ou, 50 anos depois, a leitura de Grande Sertão é outra?

 

A metáfora feliz e exata existe para que o artista possa falar mais com menos. É o caso do sertão. O “menos” de que fala a metáfora feliz e exata permanece e permanecerá sempre em busca do “mais” que lhe será dado pela leitura e pela interpretação, seja ela feita pelo leitor comum ou pelo especialista. Por isso, durante os últimos 50 anos temos visto um acúmulo extraordinário de livros, ensaios e artigos sobre o romance de Rosa, dando a impressão de que o poço é tão profundo que ainda jorrará muita água de dentro. No momento em que o livro foi publicado, muitos grandes artistas e críticos brasileiros não o receberam bem. Acreditavam que se tratava mais de um exercício de lingüística do que uma narrativa artística. A literatura regional (Graciliano, Raquel, Lins do Rego) enfatizava a atitude realista. A escrita também regionalista, mas mágica, de Rosa veio para desconstruí-la e trazer desarmonia no pedaço. Essa desarmonia ainda está presente nos nossos dias, sob a forma do debate entre a obra (literária, cinematográfica, teatral, etc.) que se quer um documento, um documentário, e a obra (idem) que se quer construção em linguagem.  Nos momentos de crise, apela-se para o documento; nos momentos de bonança, apela-se para a linguagem, para a metáfora. Rosa pôde escrever, bem como Clarice, num momento de relativa bonança que foi o pós-guerra e o governo JK. Em tempos de guerra do Iraque, o documentário está certamente em alta. A linguagem do documentário se assemelha à jornalística, bem distante do experimento de Rosa.

 

É pertinente a comparação de Grande Sertão: Veredas com Ulisses?

 

A comparação é interessante e instigante. Não porque tematicamente sejam obras semelhantes. A semelhança entre as duas obras ficcionais é a que se encontra entre um quadro de Jackson Pollock e de Mondrian. Um é informal e o outro é construtivista, mas ambos têm em comum uma necessidade urgente urgentíssima de levar até as últimas conseqüências as pesquisas que vinham se concretizando em torno dos vários movimentos da vanguarda histórica, como o futurismo (as palavras em liberdade), o surrealismo (o inconsciente dita) e o dadaísmo (o nonsense). Esse lastro comum leva, por um lado, Joyce a singularizar o projeto dele dentro da tradição jesuítica irlandesa, onde sempre houve o desejo de sacralizar, dessacralizando o idioma inglês, levando-o a exprimir uma subjetividade em deriva e quase a naufragar no hermetismo. Leva, por outro lado, Rosa a derivar o seu projeto da tradição brasileira sem esconder as fontes eruditas e populares que o alimentam. Rosa não perde o controle da linguagem artística para elas. Procura modelar tanto a fala popular quanto a fala erudita a parâmetros artificiais, subjetivos e lúdicos de invenção. Estabelece parâmetros artísticos definitivos e inarredáveis.

 

O estilo de Guimarães Rosa é único? A literatura brasileira absorveu esse estilo?

 

Todo grande autor da modernidade foi inventor de um estilo único. Mesmo aquele que aparentemente é sem estilo, como é o caso de Ernest Hemingway na literatura norte-americana e Graciliano Ramos entre nós, tem estilos próprios. Guimarães Rosa não foge à regra. Se os autores aparentemente sem estilo têm mais imitadores, é o caso recente, por exemplo, da prosa jornalística de Rubem Fonseca, os autores com estilo evidente são menos passíveis de imitações. Você pode imitar o universo criado por William Faulkner nos romances, e é o caso de Gabriel Garcia Márquez e de Autran Dourado. A frase de Faulkner, até mesmo porque estilística e canonicamente falando não é de boa qualidade. A frase de Faulkner, como a de Proust e a do nosso Guimarães Rosa são semelhantes num detalhe. Dificilmente servirão de exemplo ao grande filólogo Celso Cunha para que delas se sirva na exemplificação literária da gramática normativa da língua portuguesa. Um filólogo sabe distinguir uma frase que se enquadra na norma culta da língua e outra que não se enquadra. Uma das graças da pós-modernidade é exatamente a brincadeira que se faz com os variadíssimos estilos únicos e pessoais da modernidade. É o que se chamou de citação, na época dos filmes de Jean-Luc Godard, é o que se chama de sampler em alguns casos de da música e da poesia ou do pastiche. Talvez seja por isso que um jovem e talentoso contista, Rinaldo Fernandes, tenha pedido a um punhado de escritores brasileiros que escrevessem contos no estilo de Guimarães Rosa. O resultado é um livro em vias de publicação pela Garamond. A antologia será um bom exemplo do que ainda pode render Guimarães Rosa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nota: O editor geral do site Cronópios, Edson Cruz, editor de arte, Pipol, e o correspondente em Minas Gerais, José Aloise Bahia, agradecem o editor de cultura do jornal Estado de Minas, João Paulo Cunha, a editora de cultura do Correio Braziliense, Maria Clara Arreguy, a jornalista Nahima Maciel e a fotógrafa Maria Tereza Correia pelas autorizações em republicar o texto de abertura, a entrevista e a imagem de Silviano Santiago.   

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