Café Literário Cronópios

Entre lacunas e protestos: reflexões sobre o Experimentalismo
por Tatiana Alves Soares Caldas







 

A fila boa
por TV Cronópios




Ma che bella storia!!!
por TV Cronópios




Pet é amigo ou é brinquedo?
por TV Cronópios




Zootropo com Angela Dip
por TV Cronópios




O Anjo da Guarda de Caio Fernando Abreu
por TV Cronópios




Os Bracher
por Jorge Sanglard




Zootropo com Nydia Licia e Máximo Barro
por TV Cronópios




Quermesse: toda poesia erótica de Sylvio Back
por Sylvio Back




Estamos ficando sem super-heróis
por Redação




Editora Pequeño Editor, da Argentina, encontra seu novo autor no Cronopinhos
por da Redação




Ficção Científica e Poética de Artur Matuck
por Artur Matuck




Asstrology / Horoscoku
por Roberto Bicelli







 
10/07/2006 21:47:00
Jorge Amado: um coração simples



Por Antonio Naud Júnior

 

 

         Houve uma época tola em que fui severo em relação ao contador de histórias Jorge Amado, trocando-o por escritores que faziam da linguagem uma prática experimental. Coisas da busca pessoal de um escritor. Eu ignorava a fala simples e sem pretensão desse narrador que, traduzido em quase todas as línguas vivas, ocupa lugar significativo no universo literário contemporâneo. Já não renego sua obra, muito pelo contrário, costumo ter longas e genuínas conversas sobre a beleza dela. Recentemente, assistindo ao documentário de João Moreira Salles sobre a vida e obra do autor de Dona Flor e seus Dois Maridos (1966), fiquei comovido com o seu jeito despojado: fita do Senhor do Bonfim no pulso, camisa semi-aberta, criticando leis arcaicas, elites, políticos e a falta de memória dos brasileiros. Recordei das duas vezes em que o entrevistei, de quando fui visitá-lo na sua encantadora casa do Rio Vermelho, em Salvador; da carta que generosamente escreveu saudando o meu livro de estréia, O Aprendiz do Amor (1993); do nosso afável reencontro no Cassino do Estoril, em Portugal. Diante de mim, um homem simples, gentil e generoso, sem as vaidades bestas da maioria dos escritores que conheço.

         Descobri Jorge Amado aos onze ou doze anos de idade. Papai tinha a sua obra completa. No entanto, era leitura proibida para menores. Com minha ousadia habitual, enfrentei a censura, exigindo argumentos sólidos que me impedissem de ler a tal coleção de capa vermelha. Ele foi duro, dizendo se tratar de um escritor de putas e vagabundos. Então, na calada da noite, às escondidas, entreguei-me ao deleite de conhecer o tal universo profano do nosso Honoré de Balzac, impressionando-me com Terras do Sem Fim (1943), Mar Morto (1936) e A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água (1959). Terminei por constatar o romantismo e a sensualidade de sua criação, permeada também por outros denominadores comuns, tais como o realismo, a proeminência das personagens de extratos sociais explorados, o humor e o nacionalismo. O que essa literatura perde em rigor ganha em vitalidade e fantasia. Entretanto, quase sempre massacrado por boa parte da crítica, a história literária do escritor baiano foi marcada por poucas e boas. Capitães da Areia, publicado em 1937, foi apreendido pela polícia e queimado em praça pública, retornando às livrarias apenas na final da ditadura de Getúlio Vargas, em 1944. Seus livros, considerados subversivos, foram queimados em plena Salvador, por determinação da Sexta Região Militar. Segundo as atas militares, queimaram 1.694 exemplares de O País do Carnaval (1931), Cacau (1933), Suor (1934), Jubiabá (1935), Mar Morto e Capitães da Areia. Gabriela, Cravo e Canela (1958), cujo ambiente é a região cacaueira da Bahia, provocou a ira dos ilheenses que passaram a tratar o seu autor como persona non grata (situação que mudaria com o sucesso explosivo da telenovela Gabriela, em 1975, e a vantagem turística que veio com ele). Além disso, foram freqüentes as afirmações de que não era um grande escritor, que explorava o exotismo da Bahia para alavancar a venda dos seus livros e que a sua trajetória literária apresentava muitas contradições. Mesmo assim, ninguém conseguiu sufocar o talento do mestre grapiúna, que revelou ao mundo a Mata Atlântica, o perfume do cacau, as ruas do Pelourinho, os terreiros de candomblé, jagunços, coronéis, Vadinho, marinheiros, boêmios, poetas cachaceiros, Pedro Archanjo, mães-de-santo e uma irresistível galeria de demônios femininos: Gabriela, Malvina, Glória, Maria Machadão, Teresa Batista, D. Flor, Tieta e tantas outras.

         Nascido em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, distrito de Itabuna, Bahia, desde sua infância Jorge Amado já conhecia a disputa, de forma sangrenta, pelas terras dos frutos de ouro. Morou em Salvador, conhecendo os estivadores do porto, as prostitutas, os menores abandonados, entre outras classes marginalizadas. Escritor da Geração de 30, ao lado dos também nordestinos Rachel de Queirós, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, enveredou como esses por uma narrativa de cunho social, retratando as injustiças sociais. A obra amadiana alia o lirismo à crítica social, caracterizando-se pela simplicidade da linguagem e pelo tom coloquial e popular, de fácil comunicação com o público. E em toda obra, encontramos a perseguição imposta pela polícia aos terreiros de candomblés, grevistas exigindo respeito e dignidade humana, meninos de rua lutando pela sobrevivência, mulheres vítimas da sociedade preconceituosa, o negro discriminado e a desonestidade das classes dominantes. A escritora Zélia Gattai, um ser de visível delicadeza no corpo miúdo e nos olhos cintilantes, foi sua segunda esposa, uma companheira por quase 50 anos. O relacionamento deles era cúmplice e admirado. Era bonita a união dos dois.

         Ele parecia não se dar conta da sua fama e importância. Por tudo isso - vida e obra tão especiais -, não deve ser esquecido. Óbvio que não se arriscou na forma literária, contudo soube mergulhar na essência de um povo sofrido, ardente, de alma colorida. Soube de sua morte em Barcelona, através do jornal El País, e imediatamente me veio à mente algumas palavras de José Saramago: "Uma torre dessas não cai assim". Com ele se foi uma época ímpar da nossa literatura, restando hoje raros escritores eficientes, assim como são cada vez mais escassos os bons leitores, que talvez esperem outros contadores de histórias humanas e divertidas. Está mais do que evidente que a literatura brasileira vai mal das pernas. Vivemos numa época de mentalidades medianas; tempos onde a telinha reina absoluta, cuja maior parte da programação é lixo destinado a envenenar neurônios. Melhor reler Jorge Amado, pois ele tem algo a dizer, mesmo com uma obra feita de altos e baixos. Não é por mero acaso que vendeu mais de 20 milhões de exemplares dos seus livros num país, no caso o Brasil, onde pouco se lê. Pode ter certeza, ele é indiscutivelmente um dos nomes mais importantes da literatura brasileira do século XX. Salve, Jorge!

 

 

 

 

TODA A OBRA DE JORGE AMADO

 

1929 – Lenita (em parceria com Dias da Costa e Edison Carneiro);

1931 – O País do Carnaval;

1933 – Cacau;

1933 – Descoberta do Mundo (em parceria com Matilde Garcia Rosa);

1934 – Suor;

1935 – Jubiabá;

1936 – Mar Morto;

1937 – Capitães de Areia;

1938 – A Estrada do Mar;

1941 – ABC de Castro Alves;

1942 – A Vida de Luís Carlos Prestes (O Cavaleiro da Esperança);

1943 – Terras do Sem Fim;

1944 – São Jorge dos Ilhéus;

1945 – Bahia de Todos os Santos: Guia de Ruas e de Mistérios;

1946 – Seara Vermelha;

1946 – Homens e Coisas do Partido Comunista;

1947 – O Amor do Soldado;

1948 – O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: Uma História de Amor;

1950 – O Mundo da Paz;

1954 – Os Subterrâneos da Liberdade (v. 1:Os Ásperos Tempos; v. 2: Agonia da Noite; v. 3: A Luz no Túnel);

1958 – Gabriela, Cravo e Canela: Crônica de uma Cidade do Interior;

1959 - A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água;

1961 – Os Velhos Marinheiros ou A completa Verdade sobre as Discutidas Aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso;

1964 – Os Pastores da Noite;

1966 – Dona Flor e seus Dois Maridos: Esotérica e Comovente História Vivida por Dona Flor, Emérita Professora de Arte Culinária, e seus Dois Maridos — o Primeiro, Vadinho de Apelido; de Nome Teodoro Madureira e Farmacêutico o Segundo ou A Espantosa Batalha entre o Espírito e a Matéria;

1969 – Tenda dos Milagres;

1972 – Tereza Batista Cansada de Guerra;

1977 – Tieta do Agreste: Pastora de Cabras ou A Volta da Filha Pródiga, Melodramático Folhetim em Cinco Sensacionais Episódios e Comovente Epílogo: Emoção e Suspense!;

1979 – Farda Fardão Camisola de Dormir: Fábula para Acender uma Esperança;

1981 – O Menino Grapiúna;

1984 – Tocaia Grande – A Face Obscura;

1984 – A Bola e o Goleiro;

1986 – O Capeta Carybé;

1988 – O Sumiço da Santa: Uma História de Feitiçaria;

1992 – Navegação de Cabotagem: Apontamentos para um Livro de Memórias que jamais Escreverei;

1994 – A Descoberta da América pelos Turcos ou De como o Árabe Jamil Bichara, Desbravador de Florestas, de Visita à Cidade de Itabuna, para dar Abasto ao Corpo, ali lhe Ofereceram Fortuna e Casamento ou ainda Os Esponsais de Adma;

1995 – Os Compadres de Ogum.

 

 

 

 

 

 

Antonio Naud Júnior é escritor & jornalista. Autor de “O Aprendiz do Amor” (1993) e “Suave é Coração Enamorado” (2006) e  “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” (2006). . E-mail: antonio_junior2@yahoo.com 

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Antonio Naud Júnior no Cronópios.