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05/05/2007 19:34:00
Literatura e luta de classes



Por Geraldo Maia


 

A literatura é considerada uma manifestação da arte que por sua vez é tida como uma espécie de revolução simbólica da realidade. Assim como o pintor se expressa através das cores, o músico através do som, o arquiteto através das linhas, a arte literária se expressa através da palavra, oral ou escrita. Mas para existir literatura é preciso que a palavra (significante) esteja carregada de significado, de conteúdo, de visão de mundo, de ideologia, crença, formas de pensar, sentir e fazer, quer dizer, a literatura não pode prescindir de sua função social.

 

Será? Os “clássicos” europeus não admitiam muito a função social da literatura, que para eles devia proporcionar apenas prazer estético, a “bela literatura”, destituída de qualquer responsabilidade social, traço ideológico ou fundo religioso e manifestava-se na forma de verso ou prosa, falada ou escrita. Segundo Aristóteles, seria dividida em três gêneros a seguir: o lírico (a emoção do “eu”), o épico (as narrativas em verso e prosa) e o dramático (acontecimentos “encenados” por atores num local adequado utilizando gestos e falas).

 

Modernamente o épico define apenas as narrativas em verso e surge então o gênero “ficção” para as narrativas em prosa (romance, conto, novela, etc).

A tendência de reduzir a literatura ao seu caráter meramente “literário”, desprovido de qualquer praticidade, resiste até hoje. Por outro lado também resiste o caráter transgressor, rebelde, desafiador e revolucionário da literatura que exprime em seu bojo as grandes demandas das revoluções, principalmente no que concerne aos interesses e necessidades da classe trabalhadora, seja operária, camponesa, marginalizada, excluída, etc, o que amplia a condição revolucionária antes limitada ao proletariado urbano.

Mas a tendência dominante ainda é a da literatura que se mantém no vácuo, acima da luta de classes, alienada do que ocorre em torno, com a grande maioria explorada, esmagada, submetida e imersa na mais profunda penúria e abandono. Essa imensa maioria, hoje formada por proletários, indígenas, quilombolas, trabalhadores sem terra, sem teto, sem trabalho, sem comida, sem saúde, sem transporte, sem comida, compõe a verdadeira e legítima classe revolucionária, a única que realmente quer e pode mudar, evoluir e transformar a realidade.

 

Porque as condições de vida da sociedade burguesa não encontram mais espaço nas vidas dessas pessoas. Não possuem mais nada com relação ao modo burguês de vida. Seus referenciais são outros: a aldeia, o quilombo, a terra-mãe-àfrica, a caatinga, a favela, a feira, o lixão, o assentamento, a invasão. Organizam-se em “movimentos”, “grupos”, “associações”, “espaços”, cooperativas, ongs, sindicatos e também no partido dos trabalhadores. Não se tornaram “lumpemputrefatos”, nem foram arrebatados por outra revolução que não seja a que processam no dia a dia, nem estão predispostos a venderem-se para “maquinações reacionárias”.

 

As classes revolucionárias de agora constroem a sua arte, a sua moral, a sua ciência, a sua cultura, a sua política, a sua música, a sua dança, a sua arte e a sua literatura a partir de sua herança ancestral original que permanece viva, presente em seus remanescentes, descendentes, que resistiram, resistem, insistem em preservar a originalidade de suas culturas, seus idiomas, sua arte, sua literatura, sua poesia.

 

É a literatura que explode nos guetos, nas praças, nas periferias, nas aldeias, nos lugarejos distantes, nos acampamentos, nos assentamentos, nas invasões de terras e de prédios, é a literatura de cordel, a poesia de rua, do rap, dos escritores e poetas marginalizados, a grande maioria excluída que mesmo assim faz arte, faz poesia, faz literatura, mas uma literatura revolucionária porque transformadora, anunciadora, reinventora da revolução alinhada com a ancestralidade original, autóctone.

 

Uma revolução que se alimenta da reserva de alma dos índios e dos negros e que está construindo novas civilizações, outras civilizações, outros mundos em realização. Registrar, cantar, contar esse processo revolucionário é tarefa da literatura. Literatura revolucionária (índia, negra, marginal, proletária, popular, de rua, de cordel, etc), de ponta de vanguarda, de ruptura com os modos de apropriação existente e suas formas de propaganda.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





 

 

Geraldo Maia é poeta, ator, diretor teatral. E-mail: geraldomaia2007@gmail.com

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