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19/07/2009 23:41:00
Os dezessete haicais de Jorge Luis Borges



Por Gustavo Felicíssimo



      Em “O arco e a lira”, Octávio Paz afirma que “não é necessário acreditar na iluminação pregada pelo zen para se abismar na flor imóvel que são os três versos do haicai”. Ou seja, para perceber o que pulsa em um haicai, sua beleza, ou mesmo dedicar-se à sua criação, não se necessita conhecer a filosofia zenista, seus princípios e valores. Basta um olhar atento sobre a existência, sua essência, a vida, tudo que nos cerca, a fim de uma convivência harmoniosa com os seres e a natureza. O haicai é isso, micro cenas que nos embriagam, não busca a fuga dos sentidos, antes ele é o sentido, em suas oscilações, similitudes e diferenças. Cada poeta buscando seu dictum, a alegria nas palavras, pequenas (re) velações do que intensamente é o todo. Partindo desse ponto, Jorge Luis Borges criou os seus haicais.
     
Apesar dos haicais de Borges estarem publicados de maneira pulverizada em seus livros, como “El toro de Los Tigres”, 1972; ou “La Cifra”, 1981, tais poemas foram reunidos em suas “Obras completas”, no volume III, páginas 400 a 402, Emecé Editores, Buenos Ayres, 2007.
     
Em princípio, a leitura de “Dezessete haicais” nos causou estranhamento, e por um motivo muito simples: Borges os compôs dentro da raríssima métrica espanhola. Como sabemos, o haicai tradicional é composto em versos de 5/7/5 sílabas. Ocorre que na forma espanhola, o heptassílabo, ou redondilha maior, é o que denominamos de “hexassílabo”, verso de seis sílabas na poesia de língua portuguesa, pois conta-se uma sílaba além da acentuada. O mesmo ocorre com o pentassílabo, nossa redondilha menor, que na métrica espanhola seria para nós o “tetrassílabo”, verso de quatro sílabas. O mesmo ocorre com a métrica italiana.
     
São apenas dezessete haicais, pois dezessete são as sílabas que compõem esse modo de poesia originária no Japão. Dezessete poemas que em essência traduzem beleza e espontaneidade, reflexão e melancolia. Alguns se alinham ao cânone tradicional, cuja natureza é o berço:

Lejos un trino.
El ruiseñor no sabe
que te consuela.

Trinado ao longe.
O rouxinol não sabe
que te consola.


      Outros estão aclimatados ao gosto ocidental, cantando o dia-a-dia, os anseios do homem, suas tradições, atos e necessidades desse mesmo homem no mundo, vertente também bastante difundida no Japão, e que por lá é chamado de Senryu, especificamente por estar alheia aos protocolos do haicai tradicional:

La ociosa espada
sueña con sus batallas.
Otro es mi sueño.

A espada ociosa
sonha com as batalhas.
Outro é meu sonho.


      Vejamos mais este, um haicai que retoma um tema explorado por Borges em seus sonetos, o jogo de xadrez visto como uma metáfora da vida, sobre a qual o ser humano não possui controle absoluto:

Desde aquel día
no he movido las piezas
en el tablero.

Daquele dia
não mais movi as peças
no tabuleiro.


      Também este, provavelmente inspirado na lembrança de Beatriz, seu grande amor, outro tema recorrente na obra do argentino:

Hoy no me alegran
los almendros del huerto.
Son tu recuerdo.

Hoje não me alegram
as amendoeiras do horto.
Lembram você.


      Seu fascínio pelo espelho, tema que o acompanha desde a infância e metáfora que em sua prosa se processa em jogos que refletem a própria existência, aqui se faz presente apenas na captação de um momento:

Bajo el alero
el espejo no copia
más que la luna.

Sob o alpendre
o espelho reflete
somente a lua.


Passado o primeiro impacto, a surpresa de encontrar haicais entre a produção poética de um dos maiores escritores do século XX, percebemos que Borges acabou valorizando o haicai em si, emprestando-lhe o prestígio de um autor mundialmente reconhecido, ao mesmo tempo em que valoriza sua própria obra, assim como fez também Ezra Pound e o já citado Octávio Paz, mostrando-se um poeta ainda mais plural e atento do que imaginávamos.



Os outros haicais de J. L. Borges

(ainda não traduzidos por nós)

      
Algo me han dicho
la tarde y la montaña.
Ya lo he perdido.

      
La vasta noche
no es ahora otra cosa
que una fragancia.

      
¿Es o no es
el sueño que olvidé
antes del alba?


      
Callan las cuerdas.
La música sabía
lo que yo siento.


      
Oscuramente
libros, láminas, llaves
siguen mi suerte.

      
En el desierto
acontece la aurora.
Alguien lo sabe.


      
El hombre ha muerto.
La barba no lo sabe.
Crecen las uñas.


      
Ésta es la mano
que alguna vez tocaba
tu cabellera.

      
Bajo la luna
la sombra que se alarga
es una sola.


      
¿Es un imperio
esa luz que se apaga
o una luciérnaga?

      
La luna nueva
ella también la mira
desde otro puerto.


      
La vieja mano
sigue trazando versos
para el olvido.





(Nota da redação: as traduções dos haicais da primeira parte
do artigo são do próprio Gustavo Felicíssimo)


Gustavo Felicíssimo é poeta, pesquisador e ensaísta. Natural de Marília, interior de São Paulo, está radicado na Bahia desde 1993. Foi aluno da oficina de criação literária da mestra Maria da Conceição Paranhos. Fundou juntamente com outros escritores o tablóide literário SOPA, do qual foi seu editor. Atua como preparador de textos para editoras e poetas. Ainda não possui livro publicado, mas dois, um de poesia, outro de ensaios estão no prelo e virão em breve. Edita o blog Sopa de Poesia: www.sopadepoesia.blogspot.com E-mail: gfpoeta@hotmail.com 

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