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Asstrology / Horoscoku
por Roberto Bicelli







 
24/10/2009 00:04:00
We créw ... ou do barroco ao brioco!



Por Cláudio Rodrigues
 


Fragmento 1.

Sal, cal e alho
Caiam no teu maldito caralho. Amém.
O fogo de Sodoma e de Gomorra
Em cinza te reduzam essa porra. Amém.
Tudo em fogo arda,
Tu, e teus filhos, e o Capitão da Guarda. Amém


Fragmento 2.

O cono é fortaleza,
o caralho é capitão,
os culhões são bombardeiros
o pentelho é o murrão.

O homem mais a mulher
guerra entre si publicaram,
porque depois que pecaram,
um a outro se malquer:
e como é de fraco ser
a mulher por natureza,
por sair bem desta empresa,
disse, que donde em rigor
o caralho é batedor,
O cono é fortaleza. 
 

Esses versos, repletos de escatologia, poderiam ser confundidos com alguns fanks que estamos (quase) acostumados a ouvir nas paradas de sucesso desse brazilzão. Lembram do “Dako é bom!”, da famosíssima Tati Quebra Barraco?! O sucesso mais recente é o “Fank do Créu!” que acabou sendo o lema da vitória do Rio de Janeiro para sede das olimpíadas de 2016, numa alusão parodística ao lema Obama: “Yes, we can!”... Na versão tupinikim: “Yes, we créw!”. O Twitter bombou!

Pois os versos acima são de ninguém menos que o grande poeta do barroco brasileiro, o Gregório de Mattos Guerra. Baiano arretado, língua ferina da besta careta. O poeta escreveu poemas que são verdadeiras orações, o pecador procurando o perdão diante da imagem do Crucificado. Mas não poupou a mão de versos cujos temas encontraríamos facilmente nas paredes dos prostíbulos ou nas portas das privadas públicas. No entanto, esses são poemas do Gregório de Matos menos divulgados.

Por quê? Se o Gregório vivesse hoje, seria reprovado tão ou mais que o fora na sua época. E sabe por quem? Pela escola, pelos poderes instituídos, pelas elites cheias de falsos moralistas. Claro, seriam alvo do nosso grande poeta barroco.

A essa elitezinha ordinária que detém o poder porque tem a comunicação nas mãos, o poeta diria:

Fragmento 3.

De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem Digesto, e Colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer, que esta terra
De dous ff se compõe.

Vamos fazer uma pergunta aos professores de literatura do Ensino Médio. Vocês trabalham esses poemas nas suas aulas? A maioria dirá “Não!” (ainda bem que eu trabalho com EJA e se não os leio, coloco-os bonitinhos na voz de uma atriz baiana, gravados num CD. Os alunos ficam loucos, porque não imaginam que literatura é isso!”). Quando falamos sobre o barroco, mencionamos apenas os poemas religiosos, sacros... e, depois de bem escolhidos, alguns satíricos. Mas esses ferrenhos aí... jamais!!! Nossa escola é pudica demais! É afronta! Isso não é literatura.

Este texto que você está lendo é um desabafo de um leitor, escritor e professor diante de notícias que vêm se repetindo no país, nas quais obras literárias foram condenadas a sumir das bibliotecas escolares por terem palavrões, cenas de sexo, baixarias...

Começo a crer que existe aí uma manobra nojenta daquela elitezinha burra. E estão usando pais, alunos e professores para injetar o pânico, o falso-moralismo. A única vítima nisso tudo é a literatura. Não. Eles não entendem que a vida é isso, que a literatura se faz de sentimentos e atitudes, honrosos ou pérfidos. O alimento da literatura é a vida humana, com toda a sua beleza, mas também com toda a sua fragilidade e podridão.


LIVROS NA FOGUEIRA DA SANTA INQUISIÇÃO

Alguma coisa está errada nessa enxurrada de notícias veiculadas sobretudo pela emissora que tem como ícone um globo, mas que vê a terra quadrada. Vejam o rol de manchetes com seus respectivos leads, partindo da mais recente:

HQ com cena de sexo e palavrão é material de apoio em escola de Vila Velha. Aluno de 12 anos pegou emprestada publicação de Will Eisner. Secretaria de Educação diz que mandou recolher todos os exemplares. (site G1 -22/10/09 - 13h12)/ MG: livros escolares com palavrão geram polêmica. Livro foi distribuído em todas as escolas estaduais do Ensino Fundamental até o 9º ano e provocou a indignação de pais, professores e alunos. (G1 - 29/09/09 - 09h01)/ Após livro com palavrão, secretário é afastado na Bahia (G1, 04/08/09 - 18h42) / SP distribui livro com palavrões para escolas estaduais. Material era indicado para alunos da 3ª série. Secretaria de Educação disse que material já foi recolhido. (G1, 19/05/09 - 13h14)/ Livro de Manoel de Barros não é impróprio para 6ª série, diz secretaria. Obra distribuída a alunos da 6ª série em SP contém textos eróticos. Secretaria informa que livro não será recolhido. (G1, 28/05/09 - 19h28) / Quatro livros excluídos de programa de leitura de SP irão para o ensino médio. Dois títulos impróprios serão devolvidos para as editoras. Sindicância que apura responsáveis pela falha termina em 15 dias. (G1, 03/06/09 - 13h33)

Basta dar uma olhada rápida nas matérias para perceber que não há seriedade nem profissionalismo por parte dos jornalistas que as editam. Não há preocupação em mostrar os diferentes ângulos da questão. Não são ouvidos os autores, as editoras. Tudo muitíssimo tendencioso. Pais chocados com imagens e palavras dizendo que ficaram constrangidos, com vergonha por terem visto aquilo nas mãos dos seus filhos.

Hipocrisia de uma nação que não sabe o valor da leitura, que não sabe que leitura é reflexão, que não sabe ler. Por que será que os alunos brasileiros estão lá embaixo nas pesquisas mundiais sobre leitura? São os professores os culpados?

O Gregório de Mattos não recebeu o apelido de “Boca do Inferno” à toa. Se pintasse por aqui, ia fazer uns versos satirizando e escarnecendo essa situação pudica. Blasfemaria contra uma sociedade que continua com os ranços do colonialismo, martirizada pelos “bons e castos costumes”. O besta careta ia ficar horrorizado com a caretice dessa sociedade.

Livro é perigoso. Muito perigoso. Não leia! É o alerta da burrice sendo dado! E os autores, editoras, professores e leitores de verdade... não vamos nos levantar e entrar nessa discussão?

Recado aos pais neo-leitores, ou melhor, não-leitores: literatura é subversão, não acreditem no joguinho do politicamente correto. Isso sim é um jogo sujo. Dê literatura politicamente correta aos seus filhos e os ensine a odiar literatura. Estudem, leiam, se informem para que saibam educar seus filhos. E educar não é esconder deles aquilo que vocês consideram duro, feio, nojento. Educar é oferecer os dois caminhos. A escolha nunca deve ser do educador e sim do educando.

Enquanto isso, nossas crianças e adolescentes ouvem, dançam e cantam o créw, indo da velocidade 1 à velocidade 5, porque afinal de contas, nós podemos: “Yes, we créw!”







 

Cláudio Rodrigues é professor de português e literatura no ensino médio da Educação de Jovens e Adultos, no Rio de Janeiro. Publicou “O rei que virou lenda” pela editora Girafinha. É também um boca ferina como o Gregório e, por causa disso, está sempre em maus lençóis. Tem um blog, o caixa de bregueços: www.breguecos.blogspot.com
E-mail:
claudicelio@gmail.com

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