Café Literário Cronópios

Da Tentativa ou IluminARes
por José Aloise Bahia







 

A fila boa
por TV Cronópios




Ma che bella storia!!!
por TV Cronópios




Pet é amigo ou é brinquedo?
por TV Cronópios




Zootropo com Angela Dip
por TV Cronópios




O Anjo da Guarda de Caio Fernando Abreu
por TV Cronópios




Os Bracher
por Jorge Sanglard




Zootropo com Nydia Licia e Máximo Barro
por TV Cronópios




Quermesse: toda poesia erótica de Sylvio Back
por Sylvio Back




Estamos ficando sem super-heróis
por Redação




Editora Pequeño Editor, da Argentina, encontra seu novo autor no Cronopinhos
por da Redação




Ficção Científica e Poética de Artur Matuck
por Artur Matuck




Asstrology / Horoscoku
por Roberto Bicelli







 
11/04/2011 22:39:00
Pequeno Manual de Pontuação em Português, Parte 2



Por José Augusto Carvalho

*Organização: Jorge Elias Neto







2)
A PONTUAÇÃO: GRAMÁTICOS X ESCRITORES

       Logo no primeiro parágrafo de seu livro A vírgula, Celso Pedro Luft declara: “A nossa pontuação – a pontuação em língua portuguesa – obedece a critérios sintáticos, e não prosódicos.”
      
Essa é a opinião também de José Hildebrando Dacanal, no livro Pontuação: teoria e prática:

      
A inadequação, a incoerência e a confusão que caracterizam as gramáticas e os manuais tradicionais no que diz respeito à questão da pontuação são produto, basicamente, da falsa premissa que os fundamenta. Esta falsa premissa, nem sempre explicitada claramente, é a de que o sistema de pontuação está relacionado, de alguma forma, com a realização oral da língua.
Assim sendo, o sistema de pontuação teria como função reproduzir elementos da oralidade, tais como as pausas, a entonação e a intensidade.
Não é preciso apelar para sofisticadas teorizações para perceber que tal premissa é logicamente insustentável e praticamente inviável.” (p. 15)

Adriano da Gama Kury, no seu livro Ortografia, pontuação, crase, não compartilha dessa opinião: “Na tentativa de reproduzir as pausas, as cadências, o ritmo, a entoação da linguagem falada, utiliza a escrita certos SINAIS DE PONTUAÇÃO.” (Destaque do autor.)
      
Celso Cunha e Lindley Cintra, na p. 625 (cap. 21) da Nova gramática do português contemporâneo, são mais detalhistas:

       “A língua escrita não dispõe dos inumeráveis recursos rítmicos e melódicos da língua falada. Para suprir esta carência, ou melhor, para reconstituir aproximadamente o movimento vivo da elocução oral, serve-se da PONTUAÇÃO.
Os sinais de pontuação podem ser classificados em dois grupos:
O primeiro grupo compreende os sinais que, fundamentalmente, se destinam a marcar as PAUSAS:

a)
A VÍRGULA (,)
b)
O PONTO (.)
c)
O PONTO E VÍRGULA (;)

       O segundo grupo abarca os sinais cuja função essencial é marcar a MELODIA, a ENTOAÇÃO:

a)
os DOIS PONTOS
b)
o PONTO DE INTERROGAÇÃO (?)
c)
o PONTO DE EXCLAMAÇÃO (!)
d)
as RETICÊNCIAS (...)
e)
as ASPAS (“ ”)
f)
os PARÊNTESES ( ( ) )
g)
os COLCHETES ([ ])
h)
o TRAVESSÃO (— )

      
Em nota de rodapé, na mesma página 625, os autores acrescentam: “Esta distinção, didaticamente cômoda, não é, porém, rigorosa. Em geral, os sinais de pontuação indicam, ao mesmo tempo, a pausa e a melodia.”
      
Domingos Paschoal Cegalla, na Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, explicita (p. 62-3)

      
Tríplice é a finalidade dos sinais de pontuação:

1)
assinalar as pausas e as inflexões da voz (a entoação), na leitura;
2)
separar palavras, expressões e orações que devem ser destacadas;
3)
esclarecer o sentido da frase, afastando qualquer ambiguidade.”

       Se é verdade que nem sempre os sinais de pontuação representam pausa ou entoação, no dia a dia, como veremos oportunamente, há escritores que conseguem utilizar de maneira criativa as vírgulas e os pontos, levando o leitor a fazer as pausas e a entoação adequadas, numa leitura também criativa. Leiamos o seguinte trecho da crônica “Notícia de jornal”, de Fernando Sabino:

      
Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é um homem.” (SABINO, Fernando. A mulher do vizinho. 4.ed. Rio de Janeiro: Sabiá, 1967, p. 41.)

      
Repare-se que, no início, os epítetos são separados por ponto, exigindo pausa de efeito: “Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo.” 
      
A seguir, os epítetos se sucedem separados por vírgula, para aumentar a velocidade da leitura e carregar nas tintas da indignação: “Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é um homem”. O travessão final requer, novamente, uma pausa maior.
      
Assim começa José de Alencar o segundo capítulo de Iracema:

       “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
      
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.” (ALENCAR, José. Iracema. Rio de Janeiro: Record/Altaya, [1998?])

      
O segundo parágrafo começa com dois apostos cujo fundamental está no parágrafo anterior (a primeira ocorrência de “Iracema”). O corte do primeiro parágrafo (signum sectionis, isto é, “sinal de corte” = ss, sigla que forma o ideograma §, com o entrelaçamento dos dois ss) na verdade não o termina, porque o segundo parágrafo é a continuação dele. O Autor quis que o leitor fizesse uma pausa na primeira ocorrência de “Iracema”, exatamente para manter o ritmo e a melodia do texto. A pausa se repete no segundo parágrafo, no segundo aposto.

      
O objetivo de um escritor não é seguir as normas gramaticais, mas subvertê-las, como atestam depoimentos conscientes de grandes nomes da nossa literatura, como Guimarães Rosa (cf. entrevista concedida a Günther W. Lorenz, no livro Diálogo com a América Latina – Panorama de uma literatura do futuro. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1973, p. 318-55) ou como Autran Dourado (cf. O meu mestre imaginário. Rio de Janeiro: Record, 1982, p. 58 e 60), que confessam estudar gramática para subverter as regras com conhecimento de causa. Até gramáticos, como Celso Cunha (Cf. Uma política do idioma. Rio de Janeiro: São José, 1964, p. 19 e 22), reconhecem que o objetivo de um escritor não é o de seguir as normas do dialeto culto, mas subvertê-las.
      
Assim, há autores que também subvertem o uso dos sinais de pontuação, mesmo sem a pretensão de marcar pausas ou entoações.

      
Clarice Lispector começa seu romance A paixão segundo G.H. (Rio de Janeiro: Sabiá, 1972, p. 7) com seis travessões e letra minúscula, dando a impressão de que não há início, mas a continuação de algo que não está no texto:

      
“— — — — — — — estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. (...).”

      
Repare-se que, depois de “entender” há um ponto, mas a frase continua com a repetição do gerúndio: “tentando”.

      
Paulo Leminsk, no livro La vie en close, utiliza criativamente a pontuação interlinear:

“a quem
interessa
esse
além
sem
pressa
?

a mim
este
aquém

o
além
a
quem
interessar
possa”

(LEMINSK, P. La vie em close. São Paulo: Brasiliense, 2000, p. 88)

      
O cap. 139 de Memórias póstumas de Brás Cubas, intitulado “De como não fui Ministro d’Estado”, de Machado de Assis, é constituído apenas por várias linhas de pontos em sequência, sem nenhuma palavra. No mesmo livro, o cap. 55, intitulado “O velho diálogo de Adão e Eva”, em lugar da fala dos personagens Brás Cubas e Virgília, há apenas sinais de pontuação: pontos em sequência, ou pontos seguidos de pontos de interrogação e de exclamação.
      
José Saramago, prêmio Nobel de literatura, usa apenas vírgula e ponto. A passagem seguinte é um diálogo entre Caim, depois de ele ter matado Abel, e Deus:

      
(...), Então não serei castigado pelo meu crime, perguntou caim, A minha porção de culpa não absolve a tua, terás o teu castigo, Qual, Andarás errante e perdido pelo mundo, Sendo assim, qualquer pessoa me poderá matar, Não, porque porei um sinal na tua testa, ninguém te fará mal, mas, em pago da minha benevolência, procura tu não fazer mal a ninguém, disse o senhor, tocando com o dedo indicador a testa de caim, onde apareceu uma pequena mancha negra, Este é o sinal da tua condenação, acrescentou o senhor, mas é também o sinal de que estarás toda a vida sob a minha protecção e sob a minha censura, vigiar-te-ei onde quer que estejas, Aceito, disse caim, Não terias outro remédio, Quando principia o meu castigo, Agora mesmo, (...)” (SARAMAGO, José. Caim.. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 35)

      
Repare-se que o Autor usa a vírgula antes da mudança de interlocutor e só usa a maiúscula para início de frase ou antes da fala do personagem. Até os nomes próprios ele escreve com inicial minúscula. Embora no texto haja perguntas, o Autor não usa o ponto de interrogação, nem nenhum outro sinal de pontuação além da vírgula e do ponto.

      
No livro de poemas Congregação do desencontro (Vitória: Fundação Cultural do ES. 1980, p. 44-7), Oscar Gama e Miguel Marvilla contam, no poema O NÁUFRAGO (título com todas as letras em versal), uma história usando basicamente, como ilustração-texto, os sinais de pontuação:

O NÁUFRAGO NASCE (ou o náufrago e a metafísica)
:
========================================
O NÁUFRAGO E O TUBARÃO
. ^
========================================
O NÁUFRAGO ENCONTRA O AMOR
;
========================================
O NÁUFRAGO CONSTITUI FAMÍLIA
...
========================================
O NÁUFRAGO EXPLICA AO FILHO
*
========================================
O FILHO DO NÁUFRAGO SEGUE SEU EXEMPLO
.

========================================
O NÁUFRAGO SE DESILUDE
=
========================================
O NÁUFRAGO PROCURA OUTROS OBJETIVOS
+
========================================
O NÁUFRAGO CHEGA À MEIA-IDADE
?
========================================
O NÁUFRAGO MORRE
?!
========================================”

      
Eis como um dos autores desse poema — Oscar Gama (o outro faleceu precocemente em 2009) — me explica (por e-mail) a sua obra:

      
O poema-conto foi baseado no tradicional e secular desenho de um náufrago solitário em uma minúscula ilha circular com uma palmeira. Tratava-se de um minimalismo mínimo que procurava produzir uma frágil língua mundial inspirada no esperanto.  
       ................................................................................................

      
O poema-conto original referia-se a um sinal de pontuação desgarrado do alfabeto restante, um anseio de fraternidade perdido em um grito de solidão. Mas enxerguei nele a visão vertical de quem estivesse sobrevoando a ilha a bordo de um helicóptero ou do pterodáctilo do Mundo Perdido — parte do mundo contemporâneo que não evoluiu e onde fósseis vivos são o Paraíso Perdido, Jardim do Éden. 
      
O trabalho posterior foi desenvolvido por meio dos princípios de construção dos ideogramas chineses estudados por Fenollosa e Pound. Orientados por esses elementos, exploramos as possibilidades.
      
O náufrago é representado pela visão aérea de sua ilha . .
      
Os dois pontos simbolizam a dupla de seres fusionais simbióticos: o náufrago e sua mãe.
      
Naturalmente, o acento circunflexo que o ladeia é a encarnação do estereótipo do tubarão: sua barbatana dorsal.
      
Na sequência, ele, . , encontra sua amada a vírgula pode ser descrita como um ponto de saia — , .
      
Sua família parece fruto de clonagem. A mulher se transformou nele, e o filho foi feito à sua imagem e semelhança.
      
A história continua: o asterisco remete a uma nota de rodapé — como a que gerou este exercício hermenêutico. A figura de um asterisco pode ser descrita como um ponto com tentáculos que partem em divergência para abraçar as contraditórias perguntas e explicações do real, à Espinosa: quem somos, de onde viemos, para onde vamos.
      
As aspas sob o ponto constituem a operação gramatical preguiçosa que usamos para repetir uma frase sem que precisemos de escrevê-la novamente.
       "    "    "    "    "    "    "    "    "    "
      
Prosseguindo sua parca trajetória, o náufrago se desilude com a monotonia, a rotina e o tédio de sua vida, em que tudo é igual (=).
      
A única solução é desejar mais (+), e ele procura aquilo que não possui, para somar à equação do ser.
      
Quando chega à meia-idade, nosso personagem, como todos, interroga-se (?) sobre o que fez durante sua existência e sobre seu destino.
       Finalmente, um close — transmitido pela Internet — o surpreende no exato momento em que morre. Uma mistura de espanto, de dúvidas e de perguntas — que só serão respondidas após ultrapassar o pórtico que separa vida e morte — essa mistura representa seu último suspiro: pois assim seu mundo expira e termina. Não com uma explosão, com um estrondo, mas com um sussurro. Com um suspiro.
      
Um happy end: graças à morte, ele consegue voltar ao seu porto natal, mascarado pela foice, dissolvendo-se no universo, convertido no disfarce da energia absoluta das ondas eletromagnéticas: ‘na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma’.”

      
Vejamos (Ver é aí tão adequado quanto ler) o seguinte poema de Wlademir Dias-Pino, em que as aspas simples são utilizadas como linossignos (nome inventado por Cassiano Ricardo pra designar “signo em linha”, que substitui o verso tradicional):

       S O L I D A                  S O L I D A
       S O L I D A O               , , , , , ,  O
       SO                                , ,
            L I D A                        , , , ,
       S O L                            , , ,
       S             A                   ,            ,
                 I D                              , ,
            O                               ,
                  D  A                               , ,
             L I D A                           , , , ,
                  D                                    ,
             O                               ,
                  D                                    ,
                 I    A                             ,   ,

(DIAS-PINO, Wlademir. — A separação entre inscrever e escrever — Catálogo. Cuiabá: Edições do Meio, 1982, p. 205.)

      
Nós pensamos paradigmaticamente, isto é, em bloco, mas, quando escrevemos, temos de escrever sintagmaticamente, isto é, usando uma palavrinha após a outra. Essa linearidade, que é uma das características do signo linguístico, significa um certo enfraquecimento da ideia a ser transposta para o papel. Por isso, Drummond dizia que “Lutar com palavras / é a luta mais vã” (Poema “O Lutador”, Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1988, p. 84); por isso Augusto dos Anjos fala da ideia que nasce grandiosa, que “Quebra a força centrípeta que a amarra,/ Mas, de repente e quase morta, esbarra / No mulambo da língua paralítica!” (Poema “A ideia”. Eu (Poesias completas). 29.ed. Rio de Janeiro: São José, 1963.) Para lutar contra a linearidade do signo linguístico, os poetas tentam aproximar a poesia da pintura, como no poema-processo, ou como no poema figurativo (Cf. os caligramas de Guillaume Apollinaire). Essa talvez seja a razão mais profunda da realização desses dois poemas figurativos acima transcritos, o de Oscar Gama e Miguel Marvilla e o de Wlademir Dias-Pino.



                                                      (continua na próxima segunda-feira)


                                              * * *

José Augusto Carvalho: Escritor, tradutor, jornalista e professor universitário, é mineiro de nascimento e capixaba por adoção. Linguista, Bacharel e licenciado em Letras Neolatinas, também é mestre em Linguística pela Unicamp e doutor em Letras pela USP. Atua principalmente como professor, mas traduz desde a década de 1970 textos do francês, inglês e italiano. Possui uma extensa obra publicada tendo também realizado traduções para as principais editoras do País. A 2ª edição do Pequeno Manual de Pontuação em Português será publicada pela editora Thesaurus. Email: joauca@hotmail.com

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de José Augusto Carvalho no Cronópios.