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05/05/2011 14:56:00
Pequeno Manual de Pontuação em Português, Parte 5



Por José Augusto Carvalho

*Organização: Jorge Elias Neto






3.4 O PONTO E VÍRGULA

      
O ponto e vírgula é usado para separar orações ou termos coordenados entre si em que exista pelo menos um que seja subdividido por vírgula. Ex.:

      
Ele disse que poderia ajudar-me; eu teria, no entanto, que pagar-lhe a ajuda.

      
O ponto e vírgula é usado para separar as duas orações coordenadas, porque na segunda há vírgulas internas.
      
Compare-se o exemplo acima com este:

      
Ele disse que poderia ajudar-me, no entanto eu teria que pagar-lhe a ajuda.

      
Não há ponto e vírgula aí, porque não há vírgula a separar termos em nenhuma das duas orações coordenadas.
      
Há autores que utilizam o ponto e vírgula para separar orações que se opõem:

      
Pedro estuda; porém não consegue boas notas.

      
Os elementos que constituem uma enumeração, por estarem coordenados entre si, se separam por ponto e vírgula. Ocorre, no entanto, que, enquanto a enumeração continuar, não se pode usar internamente um ponto simples. O ponto encerra a enumeração, isto é, depois do ponto não pode haver continuação da enumeração nem da utilização do ponto e vírgula. Evite-se fazer como no exemplo seguinte:

      
O trabalho compunha-se de três partes:
      
a) uma introdução, em que o autor resenha a bibliografia a respeito, explica as razões da escolha do tema e discute alguns pontos. Mas essa discussão poderia ter sido transferida para o final do trabalho porque, com ela, a introdução ficou muito grande;
      
b) um desenvolvimento, em que o autor expõe realmente as ideias centrais, defendendo-as. Algumas dessas ideias não foram bem explicitadas;
      
c) e uma conclusão que, na verdade, não conclui nada, porque deixa quase tudo em aberto. Mas o trabalho foi aprovado com elogios da banca.

      
Repare-se que depois do primeiro elemento da enumeração (alínea a), há um ponto simples, mas a enumeração continua depois do primeiro ponto e vírgula. O mesmo erro ocorre na alínea b. Corrija-se:

      
O trabalho compunha-se de três partes:
      
a) uma introdução, em que o autor resenha a bibliografia a respeito, explica as razões da escolha do tema e discute alguns pontos; mas essa discussão poderia ter sido transferida para o final do trabalho, porque, com ela, a introdução ficou muito grande;
      
b) um desenvolvimento, em que o autor expõe realmente as ideias centrais, defendendo-as; mas algumas dessas ideias não foram bem explicitadas;
      
c) e uma conclusão que, na verdade, não conclui nada, porque deixa quase tudo em aberto. Mas o trabalho foi aprovado com elogios da banca.

      
Também poderia ser usado o travessão ou os parênteses em lugar do ponto e vírgula nas alíneas a e b, em que se critica a introdução e o desenvolvimento:

      
O trabalho compunha-se de três partes:
      
a) uma introdução, em que o autor resenha a bibliografia a respeito, explica as razões da escolha do tema e discute alguns pontos (mas essa discussão poderia ter sido transferida para o final do trabalho, porque, com ela, a introdução ficou muito grande);
      
b) um desenvolvimento, em que o autor expõe realmente as ideias centrais, defendendo-as __ mas algumas dessas ideias não foram bem explicitadas;
      
c) e uma conclusão que, na verdade, não conclui nada, porque deixa quase tudo em aberto. Mas o trabalho foi aprovado com elogios da banca.



3.5 OS DOIS PONTOS

      
Usam-se os dois pontos:

a)
Para anunciar a fala de um personagem, depois de um verbo dicendi ou equivalente:

      
Maria sorriu: __ Não vou à festa hoje.

Normalmente, antes da fala do personagem, faz-se parágrafo:

      
Naquela noite, depois de muito tossir, José prometeu:
      
__ Não vou mais fumar.

b)
Para introduzir um aposto enumerativo ou distributivo:

      
Mostrou as compras que havia feito: arroz, feijão, amendoim, açúcar, farinha, um pouco de sal e uma latinha de goiabada.
      
Érico Veríssimo e Carlos Nejar são excelentes escritores gaúchos: aquele na prosa, este na poesia..

c)
Para anunciar uma citação:

      
Aristóteles dizia: “Amigos, não há amigos.”

d)
O vocativo em cartas, ofícios e requerimentos pode, às vezes, vir seguido de dois pontos em lugar da vírgula:

      
Prezado Senhor:
      
É com superlativo prazer que o convidamos a participar de nosso banquete anual...

3)
Para substituir a vírgula entre orações coordenadas explicativas ou subordinadas causais, dispensando a conjunção:

      
Errar não é burrice: burrice é permanecer no erro.
      
A morte não é o fim da vida: a morte é o início de uma nova vida.



3.6 O PONTO DE INTERROGAÇÃO

        Há dois tipos básicos de interrogação: a interrogação nuclear e a interrogação conexional.
      
Entre o sujeito e o verbo ou entre o verbo e seus objetos, há um elo sem o qual não seria possível construir frases. A esse elo chamou Tesnière, em sua obra Esquisse d’une syntaxe structurale, p.3, de “conexão”. A conexão é, portanto, uma relação de dependência que se estabelece entre duas unidades que se articulam. Também existe conexão entre os elementos que constituem um sintagma mínimo (nível morfológico). Os dois elementos que se relacionam, na conexão, são chamados núcleos.
      
Uma interrogação se diz nuclear quando é constituída por um elemento interrogativo que, na resposta, é substituído por outro de mesma função sintática. Esse elemento interrogativo é o núcleo da pergunta. Ex.:

      
Quem é ele? (O núcleo, quem, é substituído na pergunta por um nome que exerça a função de sujeito.)
      
Quando ele saiu? (O núcleo, quando, é substituído na resposta por nome que exerça a função de um adjunto adverbial de tempo.)
      
A quem você deu o livro? (O núcleo, na resposta, é substituído por um nome que exerça a função de objeto indireto.)
      
Onde ele trabalha? (O núcleo, na resposta, é substituído por um nome que exerça a função de adjunto adverbial de lugar.) Etc.

      
Vale dizer: a uma pergunta nuclear (de perfil melódico ascendente-descendente) não se pode responder sim ou não.

      
Uma pergunta é conexional quando a ela se pode responder sim ou não:

      
Pedro vai sair? Você tem um livro para me emprestar?

      
A interrogação conexional pode subdividir-se em três tipos: a interrogação conexional simples (a que se pode responder com um sim ou um não, sem problemas), a interrogação dupla (a que se pode responder sim ou não, mas há problemas para quem responder assim) e a interrogação com pressuposto (que também oferece problemas a quem responder com um sim ou com um não).
      
Exemplo de interrogação conexional simples: Você vai ao cinema?
      
Exemplo de interrogação dupla: Você ganha muito dinheiro com seu negócio desonesto? (Se o interrogado responder não, poderá estar negando que ganha muito dinheiro, mas poderá estar afirmando que seu negócio é desonesto. A pergunta é dupla: a) Você ganha muito dinheiro com seu negócio? b) Seu negócio é desonesto? O ideal aqui não é responder sim ou não, mas avisar que o negócio não é desonesto...)
      
Exemplo de interrogação com pressuposto, feita, por exemplo, a quem nunca fumou: Você parou de fumar? (Se o interrogado disser não, poderá estar afirmando que continua a fumar; se responder sim, afirma que já fumou. O ideal é não responder sim nem não, mas apenas dizer que não fuma ou que nunca fumou.)
      
O ponto de interrogação assinala o tom ascendente de voz, nas interrogações diretas, conexionais ou nucleares:

      
Quem é você? Onde você esteve? O que é que você faz aqui? Você está bem?

      
Se a interrogação for indireta, o tom é descendente e não termina com um ponto de interrogação:

      
Não sei o seu nome. (A pergunta direta seria: “Qual é o seu nome?”)

      
Na interrogação nuclear, é no núcleo da interrogação que se concentra a intensidade da entoação ascendente: Quem é você? Onde estamos? Quando sairemos?
      
Se a interrogação conexional tem mais de um grupo de força, é frequente uma entoação ascendente primária, incidente no foco de informação pretendida, e uma entoação secundária ascendente, no final. Quando o foco de informação pretendida incide no final, há apenas uma entoação ascendente.

      
É você que estuda engenharia? — Não. É o meu primo.
      
Você trabalha neste colégio? — Não, aqui eu estudo.
      
Você bateu nele porque ele ofendeu sua mãe? — Não, bati nele porque ele me ofendeu.
      
Você bateu nele porque ele ofendeu sua mãe? — Não, bati no irmão dele.
      
Você trabalha neste colégio? — Não, trabalho numa fábrica.

      
O ponto de interrogação também se usa nas indicações bibliográficas, para indicar uma data aproximada ou provável da edição da obra consultada, quando a data não se encontra nem na folha de rosto, nem na folha credencial, nem no colofão. Ex.:

      
LAPESA, Rafael. Historia de la lengua espanõla. 2.ed. cor. y aum. Madrid: Esceciler [1950?].

      
Ao ponto de interrogação, numa frase interrogativa encaixada, pode suceder uma vírgula:

      
O elefante, você sabia?, é um animal que não sabe pular.

      
O ponto de interrogação é utilizado na linguística pelos gerativistas, para mostrar que uma frase, embora gramaticalmente bem-formada, é inaceitável pelos falantes, como a frase em inglês ?I think that that that that that gentleman wrote after that is wrong, isto é: “Eu penso que aquele que que aquele cavalheiro escreveu depois daquilo está errado.” A sucessão de cinco thats impede a compreensão da frase, embora gramaticalmente correta: o primeiro that é conjunção integrante, o segundo é pronome adjetivo demonstrativo, o terceiro é substantivo, por isso está grifado, o quarto é pronome relativo e o quinto é também pronome adjetivo demonstrativo.
      
Em português seria inaceitável a seguinte frase, gramaticalmente correta:

      
?O rato que o gato que o cão perseguiu atacou morreu.

      
É possível encaixar uma oração adjetiva dentro da oração principal, mas não duas em sequência: “O rato que o gato perseguiu morreu.” “O cão perseguiu o gato que atacou o rato.” “O gato que o cão perseguiu atacou o rato que morreu.”
      
Dois verbos com sujeitos diferentes podem vir em sucessão, mas o falante rejeita três verbos seguidos com sujeitos diferentes.
      
Repare-se que, na indicação da inaceitabilidade de uma frase, o ponto de interrogação vem antes, e não depois da frase.


3.7 O PONTO DE EXCLAMAÇÃO

       
As reticências, como veremos à frente, associam-se à entoação e à pausa, num texto, e raramente à sintaxe. Mas o ponto de exclamação, de todos os sinais de pontuação, é o que se associa exclusivamente à entoação e, por vir em final de frase, pouca relação tem com a sintaxe do texto. Note-se que uma frase é definida pelo seu sentido completo, mesmo que não tenha estruturação sintática. Frases de situação, como: Fogo! Socorro! Atenção! — que Sechehaye, um dos discípulos de Saussure, num ensaio sobre a estrutura lógica da frase, de 1926, chama de “monorrema”— têm sentido completo e constituem um sintagma, sem estrutura sintática.
      
O ponto de exclamação pode assinalar uma série de possibilidades de inflexão de voz, cabendo ao leitor interpretar os sentimentos sugeridos pelo autor: espanto, alegria, surpresa, raiva, dor, súplica, tristeza, entusiasmo, cólera, espanto, terror, estímulo, advertência, etc. As interjeições – classe de palavras perifericamente linguística, porque associada a gritos – exprimem esses sentimentos diversos e por isso mesmo são sempre seguidas de pontos de exclamação.
      
Emprega-se, pois, o ponto de exclamação:

a)
Depois de interjeições, de vocativos, de frases de situação e de imperativos:

      
Silêncio, por favor!
      
Deus! Ó Deus! Por que permitis tanta miséria?
      
Fique quieto! Pare de fazer bagunça!

b)
Autores há que, para acentuar a inflexão, a altura ou a intensidade de voz, além da duração das pausas, costumam utilizar pontuação múltipla (ponto de exclamação junto com ponto de interrogação e vários pontos de exclamação):

      
O quê!? Nem pensei que você tivesse coragem de fazer isso!! Caramba!!!
      
Dá para acreditar?!

      
No exemplo dado, no início, o ponto de exclamação precede o de interrogação, porque a intenção é priorizar a expressão do sentimento (surpresa, decepção...). No final, o ponto de interrogação precede o de exclamação, porque a intenção é priorizar o descrédito, como uma exigência de explicação por parte do interlocutor.
      
Segundo Antônio Houaiss,

      
“De intonação ascendente ainda é a exclamação, mas com uma sílaba de acento insistente, variável no segmento fônico segundo seja o vocábulo de valor: ‘quém dera!’, ‘quem déra!’; ‘peguemos as armas, companhéiros!’; ‘peguémos as armas, companheiros!’ (HOUAISS, Antônio. Elementos de bibliologia. Rio de Janeiro: INL/MEC, 1967, p.96-7.)

 


(continua na próxima segunda-feira)

Contato com o autor:
joauca@hotmail.com



                                                * * *


José Augusto Carvalho: Escritor, tradutor, jornalista e professor universitário, é mineiro de nascimento e capixaba por adoção. Linguista, Bacharel e licenciado em Letras Neolatinas, também é mestre em Linguística pela Unicamp e doutor em Letras pela USP. Atua principalmente como professor, mas traduz desde a década de 1970 textos do francês, inglês e italiano. Possui uma extensa obra publicada tendo também realizado traduções para as principais editoras do País. A 2ª edição do Pequeno Manual de Pontuação em Português será publicada pela editora Thesaurus. Email: joauca@hotmail.com

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