Café Literário Cronópios

A propaganda que se virou contra si mesma
por José Nêumanne







 

Asstrology / Horoscoku
por Roberto Bicelli




Claudio Willer, Poemas em Estúdio
por Redação




Celebração Willer no Itaú Cultural
por Redação




Zootropo, a primeira temporada
por Rafael Spaca




Por que raios já não se conta uma boa história?
por Sérgio Massucci Calderaro




Letícia Isnard no Zootropo
por TV Cronópios




Claudiane Carvalho no Zootropo
por TV Cronópios




João Batista de Andrade no Zootropo
por TV Cronópios




Um cronopiano em Marte
por TV Cronópios




Work in progress?
por Luiz Bras




'Falar é Fácil, Roberto Piva'
por TV Cronópios




O cinema de Aron Feldman é tema do Zootropo
por TV Cronópios







 
14/06/2011 02:32:00
Censura, literatura e cinema: entrevista com Ignácio de Loyola Brandão



Por Rafael Climent Espino



                                                                                                    Foto: Tatit Brandão

       Ignácio de Loyola Brandão
(Araraquara, 1936) é, sem dúvida, um dos escritores brasileiros mais prolíficos e multifacetados do século XXI. A sua produção literária vai do romance ao conto, passando pelo relato autobiográfico, pela literatura infantil e de viagens e com alguma imersão no teatro. Loyola Brandão continua trabalhando como jornalista na revista Vogue; sua profissão de jornalista é uma faceta ligada à publicação de vários livros de crônicas e algumas biografias. Ignácio de Loyola Brandão é um escritor laureado1, recebeu o Prêmio Jabuti em 2008 por O menino que vendia palavras e o Prêmio Melhor Ficção por seu romance Zero em 1976.
      
Nesta entrevista o escritor paulista fala, entre outras coisas, sobre Zero e o processo de criação deste romance que faz 35 anos em 2011. Para comemorar este aniversário já foi publicada uma edição que conta a história do romance: os problemas com a censura, a sua aparição em italiano na Itália em 1974 antes que no Brasil, segunda vez que isso acontecia na história da literatura brasileira depois de A vida de Luís Carlos Prestes de Jorge Amado ter sido publicada em espanhol em 1942 na Argentina. O livro recolhe o importante manifesto anti-censura assinado por toda a intelectualidade brasileira da época. Esta edição da história de Zero é um documento valioso e de obrigada leitura para qualquer pesquisador interessado não só na obra literária de Loyola Brandão, mas na censura na literatura brasileira da época da ditadura militar.
      
Falar com Ignácio de Loyola Brandão é falar com um sábio, além de com um grande conhecedor da literatura e a cultura brasileira. A conversa com ele se torna rápido em um tranquilo e ameno bate-papo, virtude de pessoas que têm vivido muito e, neste caso, de um grande prosista. Agradeço a sua disposição para fazer esta entrevista, assim como a sua amabilidade e hospitalidade. Muito obrigado.


A ENTREVISTA:

Para começar quero que fale do livro que vai sair nos próximos meses comemorando o 35º aniversário de Zero2. Como é que vai ser esse livro, pode adiantar alguma coisa?

Ignácio de Loyola Brandão: No começo deste ano eu percebi que o Zero tinha sido lançado no 31 de julho do 75; 31 de julho é o dia do meu aniversário e foi uma coincidência. Eu falei isso para os meus filhos, o Daniel e o André, que cuidam muito das minhas coisas, os preços, as capas... Aí eles falaram: “vamos fazer uma edição”, mas uma edição boa, com uma capa que impressione, e aí pensamos que seria interessante uma edição que tivesse a história desse livro porque foi uma história especial. Nunca um livro meu teve uma primeira edição em outro país.

Será que isso aconteceu antes na literatura brasileira?

Aconteceu com um livro do Jorge Amado, mas não me lembro agora do nome, eu acho que foi com A vida de Luís Carlos Prestes3 que saiu primeiro na Argentina, o Zero foi o segundo. Então a ideia é contar como o livro foi feito, contar a história da repercussão do livro, da proibição do livro, essa proibição é que gerou o primeiro movimento e manifesto contra a censura, então foi um livro emblemático que foi acontecendo. O livro continua vendendo ainda hoje. Queria contar a história de como foi levado ao balé, e no fim deu cem páginas, é gostoso de ler. Tem dois depoimentos importantes, um é do Antônio Cândido que hoje é a pessoa mais respeitada deste país do ponto de vista intelectual e, segundo, da Walnice Nogueira Galvão que é uma das professoras e ensaístas mais altamente respeitadas.

Na sua produção literária, como recolheu o material para escrever os romances ou contos e como foi no caso específico de Zero e Não verás país nenhum?

Vou tentar resumir tudo. Na verdade esses dois livros foram os que mais me levaram a recolher material. Em geral o material é a observação da vida em volta de mim nesta cidade de São Paulo, é a memória, é a invenção. No caso desses dois livros a recolha foi muito específica. No caso de Zero, ele foi construído a partir de todas as reportagens, todas as notícias, todas as fotografias, todos os ensaios, todos os artigos, todas as caricaturas que foram proibidas de serem veiculadas em jornal entre 1964, quando os militares assumiram o poder, e 1973 quando eu terminei o livro. Nessa fase começou a censura no Brasil instalada pela ditadura militar, a censura é o braço direito do poder, amordaça todo o mundo e esconde a realidade do país. A censura existia sobre as artes, comunicação, etc. Em matéria de jornal – eu trabalhava em jornal – eu comecei a colecionar tudo o que era proibido, e um dia depois de muitos meses eu verifiquei e eu tinha um monte, pilhas de cosas proibidas, eu olhava aquilo e imaginei que isso aí era tudo o que não foi possível o povo saber sobre o Brasil e sobre o mundo nesses anos. Você não podia dar notícias contra os Estados Unidos, você não podia dar notícias sobre um estadista estrangeiro que foi vaiado. Quando eu peguei esse material pensei que era um material que mostrava como se vivia neste país, um material que revelava apenas o lado oculto, é esse lado oculto que eu como escritor quero revelar. Aí passei a trabalhar nas centenas, a verdade eu acho que eram milhares de papéis que eu tinha na mão; passei a selecionar, os que selecionei eu reescrevi literariamente. Em alguns deles comecei a colocar o personagem de José, mais tarde eu passei a colocar o personagem de Rosa, é a dupla central que conduz o livro; assim foi, muito resumidamente, o processo desse livro.

Desde essa perspectiva que você falou de expor aquilo que está silenciado, consideraria então que a literatura pode ser um caminho de liberdade nesse sentido?

A literatura é sempre um caminho de liberdade, sempre, sempre, sempre. Basta ver, por exemplo, em Solzhenitsyn com O arquipélago Gulag4 porque toda a censura que teve sobre os autores húngaros, tchecos, russos, finlandeses, romenos faz pensar que a última fronteira de liberdade é a literatura e as artes em geral. Elas são as que mais sofrem no fim, porque aí vem a censura, vem a repressão, a proibição; as vezes vêm as punições, na Rússia eles eram mandados para os campos de concentração. Então a literatura é sim um grito de liberdade.

Voltando para Zero, eu já li que você rejeita, ou não gosta de considerar Zero como romance experimental. Mas tem falado também que Zero é a “afirmação de uma nova linguagem”, como é essa nova linguagem do texto?

É uma linguagem que reflete um país fragmentado. Eu recusei a linguagem tradicional de um livro com começo, meio e fim, com capítulos ordenados, com personagens explicados fisicamente, psicologicamente. Você não tem nem uma descrição do José e da Rosa, fica na sua cabeça, isso era já uma estrutura anticonvencional porque uma estrutura convencional não servia para esse livro. Ele não foi nunca experimental, eu não estava experimentando nada, eu estava fazendo uma coisa de propósito e com um intuito e com um objetivo muito claro e muito definido. Experimentalismo é quando você está tentando, eu não tentei, eu fiz a coisa. E não tem nada de vanguarda, posso até dizer uma coisa, se você apanhar o Manhattan Transfer de John Dos Passos tem um que da forma do Zero, quando ele vai para as notícias de jornal, quando ele vai para aqueles pequenos fragmentos e aquele monte de histórias entrelaçadas... no fundo aí está o início da coisa. Também eu recuso essa coisa experimental porque é um pouco de frescura, um pouco de posse, de intelectualismo.

Quando lemos Zero chama a atenção para o leitor a tipografia muito variada que você usa, quadrinhos, desenhos, símbolos, sinais, etc. A que é devido isso? São questões formais? São aspectos lúdicos da literatura?

Cada coisa tem um propósito. Quando eu uso quadrinho é a influência dos quadrinhos na vida da gente, é a influência dos quadrinhos no José. Eu uso recursos gráficos porque eu sou jornalista, eu fui diretor de jornal e diretor de revista, trabalhava muito com design, com tamanho de letras, se eu queria chamar mais atenção sobre uma coisa, eu ampliava essa letra. Então é um pouco assim, acentuar detalhes e pormenores, ressaltar determinadas coisas que eu queria que o leitor prestasse atenção, e aí tem desenho, tem barulho... porque a vida é tudo isso. Você vai andando na rua e você ouve palavras, você lê palavras nos outdoors, nas paredes, você lê às vezes letras que não sabe o que são. O Zero é também transmitir esse caos urbano numa cidade como São Paulo que é riquíssima, mas também está esse barulho, a sujeira e às vezes o encanto, é uma cidade que encanta.

Então tem algum aspecto lúdico todo esse jogo que você faz?

Sempre tem porque a literatura também é um pouco disso, né? É um pouco jogo, um pouco brincadeira, um pouco atração, um pouco a sedução do leitor. É gostoso brincar com coisas gráficas, também tinha isso, jogos.

O concretismo já tinha passado, não sei se poderia haver alguma influência.

Uma coisa que eu sempre odiei foi o concretismo, são os fazedores de palavras cruzadas, crosswords, odeio os concretistas.

Por quê?

Porque eles se julgam os donos da verdade neste país, nada a ver com o concretismo, o único concreto é o concreto do cimento.

Loyola, outra coisa que eu acho muito interessante é que Zero tem sido levado a outros formatos como cinema, há um curta-metragem, e também há um balé. Você participou desses projetos? Ficou contente com o resultado?

Eu participei do projeto do curta-metragem porque meus dois filhos participaram nele, era um grupo de vinte jovens. O que me alegrou é que eles tinham vinte e poucos anos e esse livro tocou e continua a tocar em jovens, a forma dele atrai o jovem porque ela é rebelde, nunca mais se escreveu outro livro como Zero, ele ficou sozinho, parece que é um caso único na história da literatura. Não sei se me devo me alegrar ou me entristecer de não fazer escola, mas não me interessa. O curta-metragem que eles fizeram foi de dez minutos e era muito interessante, pegaram um trecho e mostravam o José através dessa cidade suja, dessa cidade poluída, das pessoas se pegando, mostrava o lumpen; parte da ação passava numa borracharia que é uma coisa bem brasileira, aquela coisa de trocar pneu, concertar pneu. Também aparecia uma pensão que é outra coisa muito brasileira, um cortiço na verdade. Enquanto ao balé, quem fez o roteiro do balé foi o Henri Thorau que é um alemão especialista em literatura brasileira, especialista em Nélson Rodrigues, ele é teatrólogo, e adorou o Zero, ele é um bom amigo. Eu adorei o roteiro dele porque nunca imaginei que Zero podia ser uma dança. Foi um espetáculo no Municipal que desagradou a muita gente que falava: “Que é isso! um balé no Municipal, um lugar clássico”; e foi precisamente lá para explodir com esse classicismo, com aquela coisa solene. As duas experiências foram interessantes. Nunca vendi para o cinema, já recebi muita proposta e nunca vou vender para o cinema.

Agora que fala de cinema, lembro que li que você afirmou que “todos meus livros e contos nasceram de uma imagem assim como as crônicas, cresci e evolui por meio de imagens, escrevo como se fosse um roteiro” 5. É mesmo assim? Para você o processo de escrita do romance e do roteiro é similar?

É, é sempre assim. Por quê? Porque desde criança em Araraquara, a cidade onde nasci a 280 quilômetros daqui, nos anos 40 o único divertimento era o cinema. As cidades brasileiras eram todas fechadas em si, para fazer a universidade tinha que vir para São Paulo, jornal era em São Paulo, teatro era em São Paulo, tudo era em São Paulo ou o Rio, e era muito distante para nós, principalmente para quem era pobre. Cinema era o divertimento, as pessoas mais velhas ouviam rádio, nós não ouvíamos rádio e muito de vez em quando passava uma companhia teatral pela cidade. Eu cresci vendo cinema desde a infância, eu ia muito ao cinema, na juventude não ia ao cinema todas as noites porque não tinha dinheiro. Depois eu decidi ser crítico de cinema, comecei com 16 anos minha carreira como crítico, e como crítico eu podia entrar de graça no cinema. Tinha um documento especial que se chamava ‘Permanente’, e então eu ia todas as noites, eu via um filme dez vezes, e meu sonho era fazer roteiro de cinema, meu sonho foi ser diretor de cinema. Nos anos 50 teve uma grande companhia aqui no Brasil, em São Paulo, Cinematográfica Vera Cruz, que trouxe diretores, fotógrafos, montadores tudo da Europa. Meu sonho era trabalhar na Vera Cruz, tanto que eu vim para São Paulo porque queria fazer cinema, não fiz porque entrei em jornal e minha carreira mudou porque me apaixonei pelo jornal. Vendo cinema a cabeça é imagem, cinema é puramente imagem, e aí eu percebi que sempre que uma imagem me impressionava ou me impressiona hoje eu sinto que aí eu tenho um tema, não sei o que, é uma coisa que vai me perseguindo, eu às vezes vejo, sei lá, uma cena qualquer: o olhar de uma mulher numa cozinha me impressionou porque era um olhar de muita solidão e pensei vou falar sobre essa mulher solitária. Eu sempre escrevo em cadernos e quando comecei a escrever Zero me lembrei dessa mulher que virou Rosa. A profissão do José nasceu de uma imagem de um rato no cinema comendo o meu sanduíche na cadeira ao lado, aí eu comecei a ver que tinha rato no cinema, aquela imagem ficou. Depois pensei por que é que não tem um emprego para alguém que mate ratos, e por que é que não pode ser meu personagem, então é sempre assim. A imagem fixa me persegue e eu transformo. Meus contos todos, o Bebel que a cidade comeu6 nasceu de uma bailarina que salta pela janela se suicidando, ela tinha câncer numa perna, iam ter que cortar a perna e no desespero um dia abriu a janela do apartamento e dançou, dançou, dançou... saltou. Então uma pessoa que se matou através da própria arte, essa imagem fica, isso eu soube pela governanta dela, e eu penso nessa imagem. É sempre a imagem.

Vou trazer uma citação sua porque acho que resume de algum jeito todo o que aqui estamos falando: “A inspiração é abrir o olho, chupar a realidade e depois digitar”.

É, é você apanhar a realidade e colocar no papel, só colocar no papel é descrever, a literatura é mais do que descrever. Tem uma palavra que eu acho muito boa que é “transfigurar”, você transfigura essa realidade, põe no papel e isso é a realidade, só que ela é vista literariamente com um ritmo, com um som, com uma poesia que às vezes não tem, mas você coloca. A inspiração é olhar, olhar o tempo inteiro. Isso vem da minha vida como jornalista, o jornalista tem que olhar, descobrir o que é que está atrás das coisas. A grande lição de jornal eu aprendi fazendo reportagem, fazendo entrevista, eu estava conversando com a pessoa e eu me sentia incomodado porque eu sentia que ela me estava mentindo, que estava ocultando alguma coisa e eu tentava chegar a isso, eu percebia que o que ela estava ocultando é que era a notícia. Então o jornalista está no bastidor, o escritor também está no lado oculto da vida.

Você ainda trabalha como jornalista? Escreve crônica?

Ainda trabalho como jornalista, escrevo crônica, faço muito perfil, eu gosto muito de entrevistar a gente. Continuo na Vogue fazendo entrevista a mulheres de distintas épocas e que narram este país, pessoas que viveram nos anos 30 e 40 e através delas eu vejo as mudanças do Brasil; usos, costumes, hábitos, comportamentos, eu gosto muito de ver gente com mais de 70 anos, entrevistei várias, eu pretendo fazer um livro só com essas mulheres. Uma delas que entrevistei recentemente foi Maria Tereza Goulart que é viúva do ex-presidente João Goulart, uma mulher belíssima ainda aos 74 anos, ela era um deslumbramento no país, cheia de lendas em volta. Ela me contou tanta história bonita dos bastidores de Brasília; isso é gostoso fazer.

Poderia então Zero ser considerado um romance de crônica, um documentário?

O Zero eu acho que é um imenso videoclipe, o primeiro videoclipe literário deste país, é muito mais isso. É tudo rápido pa-pa-pa. Aí tem a vantagem no videoclipe você tem rever, no Zero você pode voltar a página.

Que porcentagem de Zero poderia ser considerado realidade e que porcentagem ficção?

Cem por cento, não tem ficção dentro de Zero. Não tem nada inventado.

Não tem nada inventado? E a parte das torturas?

A parte das torturas foram cartas reais que me vieram da prisão e que chegavam às redações dos jornais e que chegaram na redação da revista Realidade onde eu trabalhava. Eu li mais de cem cartas, e escolhi essas que eu publiquei, mudei o nome claro porque era muito complicado. Nada foi inventado, nada. Tudo acontecia e eu transportava, eu não queria fazer um livro inventado. Eu exagero um pouco. É um pouco como as figuras de circo, o anão deformado, a mulher barbada, era uma coisa muito comum antigamente. No Brasil havia uns caminhões imensos que eram um museu, chamava-se “Museu Científico” e você entrava e tinha “gato com três cabeças”, “macaco com sete pernas”, era uma coisa estranhíssima com tudo o que há de bizarro; e alí no centro da cidade tinha esse tipo de coisas, eu ficava lá, tinha muito faquir... aí eu juntei tudo isso, o romancista entra aí nessa hora, junta todo isso numa imensa feira de horrores.

Você estudou cinema?

Eu não estudei nada, eu fiz escola primária, depois eu fiz o ginásio e depois eu fiz o chamado científico que era o pré-universitário. Vim para São Paulo para fazer talvez filosofia, mas aí me encantei pelo jornal, não tinha tempo e precisava trabalhar para sobreviver, meu pai não tinha como me sustentar, me apaixonei pelo jornal e segui, mas não acabei desistindo do sonho do cinema; para fazer cinema no Brasil você tinha que fazer roteiro, pedir dinheiro emprestado ao banco, ter dívida e eu sempre tive horror disso, nunca fui um homem que negociava direito as coisas. Aí acabei transferindo o sonho e mudei do cinema para fazer literatura e o romance.

Engraçado porque essa história lembra-me muito do Manuel Puig, aconteceu com ele praticamente a mesma coisa, ele foi a Roma para aprender cinema no Cinecittà. Você foi a Roma também, não é?

Eu fui a Roma, mas eu fui numa aventura, eu ganhei uma passagem de um amigo, era muito cara na época a passagem.

Quando é que você foi lá?

Eu fui lá no 63, fiquei quase um ano. Fui para lá e mandava correspondência para o jornal Última hora, a Última hora guardava aqui meu salário. Eu levei um dinheiro e juntamos um grupo de pessoas, nós dividíamos um apartamento, éramos seis pessoas. Eu fazia alguns trabalhos em Roma, eu ia muito ao estudo, ia muito para Cinecittà. Amigos daqui que eram cineastas iam para lá, através deles eu conhecia cineastas, roteiristas. Apresentaram-me um dia para um produtor, Franco Cancellieri, ele produzia um dos primeiros filmes de Antonioni, O grito. Esse homem era muito simpático, conversamos eu, ele e o Fernando de Barros que é um cineasta já falecido de aqui do Brasil, um cara importante. Eu falei com ele, eu sou jornalista, sou escritor, gosto do cinema e tal... Ele me falou: “Vou-te mostrar uma coisa.” Ele abriu uma sala, uma sala enorme cheia de roteiro, todo o mundo mandava roteiro para ele porque era produtor. Ele me deu quatro roteiros para que eu lesse, eu lia inglês, francês, italiano e espanhol. Ele pedia a minha opinião e eu dei por escrito o que achava desses roteiros; eu não sabia que ele já tinha lido os quatro e achava a mesma coisa que eu, foi a sorte minha, ele fez um teste. Aí ele me dava cem dólares por semana para ir lá de tarde a ler roteiro. Fiquei oito ou nove meses, foi uma experiência ótima, mas era uma aventura de juventude, eu tinha 27 anos, queria ver artistas, famosos, conheci o Fellini.

Oito e méio é para você um grande filme.

Sim, foi sempre para mim um grande filme, vi o Fellini entrevistando pessoas para uma figuração, ele procurava figurantes para Julieta dos espíritos que foi o primeiro filme colorido, ele estava lá num café de Roma, perto da Piazza dell Popolo, e o assessor de imprensa me falou que eu podia fazer uma pergunta, mas eu fiquei tão intimidado... Fellini. Até hoje eu adoro o cinema, vou muito ao cinema, tenho uma videoteca que você não imagina, todos os clássicos.

Porque o neo-realismo teve um peso forte no Brasil...

É, o neo-realismo e a nouvelle vague tiveram um peso muito forte aqui.

É engraçado que eu acho que você e o Puig coincidiram naquele ano em Cinecittà. Não sei se você conhece a obra dele.

Conheço sim. De fato na primeira edição de O beijo da mulher aranha7 da Codecri a orelha é minha. Uma coisa engraçada do Puig era que sempre aparecia a mesma foto dele, ele tinha vinte e poucos anos, ele não permitia outra foto, já estava velho e ele não admitia outra foto.

Você alguma vez o conheceu?

Eu vi uma vez que ele fez uma palestra aqui em São Paulo trazido pela Companhia das Letras, mas nunca falei com ele, ele era muito cercado. Ele morou no Brasil, no Rio. As pessoas gostavam muito dele.

Bom, voltando ao cinema, eu tenho outra pergunta com respeito ao sentido da literatura, qual é o papel que você acha que tem a literatura no mundo atual onde a imagem parece ter deslocado a escrita para um segundo lugar? A imagem tirou o papel da literatura?

Nunca tirou e nunca vai tirar, a literatura vai ser sempre literatura, no fundo é a base do cinema; sem um bom roteiro, e um bom roteiro é literatura, você não faz cinema, os diálogos são literatura, se não tiver bons diálogos... a literatura vai sempre existir, assim como o livro vai sempre existir, vai coexistir o cinema, o vídeo, a televisão, o teatro e o livro. O livro é uma coisa que jamais deixará de existir; há um livro de Umberto Eco, Não contem com o fim do livro, também não contem com o fim da literatura, a literatura é necessária para o ser humano, para ler e para fazer. Eu não sei se a literatura tem função, na época da ditadura, na época do socialismo se dizia que a literatura tinha a missão de fazer revolução, não faz revolução, a ficção não faz isso, você muda a cabeça de algumas pessoas, mas não bota arma nas mãos de ninguém para derrubar o governo através do livro. Eu acreditei nisso e não acredito mais, acreditei quando jovem, idealista, sonhador, romântico, continuo romântico, mas não mais tonto. A literatura é para divertir, é para provocar, é para abrir cabeças, é para mostrar o mundo que a gente vive, é para mostrar a vida como ela é. Para mim a grande indagação da literatura, a que eu venho procurando é o que é a vida, por que a gente está aqui? Que significa isso? Se a literatura tem uma função para mim é essa, tentar essa busca de compreender a nossa existência.

A sua literatura não tenta reivindicar ou vindicar alguma coisa?

Isso é panfleto.

Não tem cunho social nenhum a sua literatura não?

Tem cunho social se se entende que a literatura é política porque você normalmente fala do homem, fala de um país e então acaba sendo social e política; agora não só pode ser isso, ela tem que ser mais do que isso.

Loyola, para alguns escritores a literatura é uma via ou trilha de escape da realidade. Para você seria então o contrário, seria uma afirmação da realidade?

Eu acho que é uma afirmação da realidade, mas também é uma coisa na que eu me refugio as vezes, mas eu nunca desligo da realidade, impossível. Quando essa realidade me oprime, quando essa realidade me sufoca, eu sento no computador. Para tentar compreender o que está acontecendo comigo e com essa realidade em volta de mim. Agora, é evidente que é uma grande viagem para todo o mundo. Eu às vezes falo com a minha mulher e ela pergunta alguma coisa e eu respondo como se fosse qualquer personagem porque eu estou o tempo inteiro envolvido, de alguma forma é isso, é uma fuga da realidade para o escritor e também para quem lê.

Você é também um grande leitor e um grande defensor da leitura.

Eu sou, leio o tempo inteiro.

Você deu palestras sobre a importância da leitura.

Dou palestras sobre a importância da leitura e sobre como é fácil fazer literatura. Para incentivar nas pessoas que o escape da realidade ruim pode ser a literatura, a leitura, poesia, conto. Eu falo principalmente para jovens. Agora, eu sou de uma geração que mudou muito o conceito de ver o escritor. Até a minha geração, anos 60, eu publiquei o primeiro em 65, mas eu me firmei como escritor em 70, até então os escritores brasileiros eram funcionários públicos, trabalhavam em ministérios, em autarquias, em departamentos de educação. A minha geração é a primeira que quebra com isso e vem dos meios de comunicação, vem do jornal, da televisão, da publicidade. E por quê? De alguma forma por causa da ditadura, e porque nós que trabalhávamos nos meios de comunicação sabíamos que alguma coisa estava acontecendo e não estava passando. Então muita gente foi para a literatura para mostrar isso que está no outro lado, como eu fiz no Zero. E aí tomou gosto, é uma primeira geração que muda todo um paradigma. Segundo, antigamente os escritores dificilmente saíam de suas casas e de seus escritórios porque eram sacerdotes, sumos sacerdotes adorados, idolatrados, eram muito importantes. A minha geração foi para a rua; um dia nós descobrimos, e os professores descobriram e os estudantes pediram, e nós começamos a percorrer o Brasil. Eu fui a esse Brasil inteirinho, você não imagina onde eu fui, no ano passado eu fui a 55 cidades, praticamente uma por semana. Este ano eu diminuí porque tinha dois livros para fechar, mas essa geração percebeu que naquele momento que tinha aquela censura, a gente era uma espécie de arauto. Nós somos aqueles que vêm dizer o que vocês vão ler e o que está acontecendo, e nós mesmos fomos criticados pelos nossos companheiros, falavam que fazíamos isso por vaidade, não é não, é pela literatura, assim também nós ganhamos leitores. O João António que é um grande escritor que já morreu, muito bom, ele dizia assim: “corpo a corpo com o leitor”. É a hora que a gente via quem lia. Se você fica em casa, você nem sabe o que está acontecendo na vida, nem na rua, e nem vê quem te lê. Isso não quer dizer que não imagine e não invente, eu invento mil coisas.

Para ir concluindo eu quero falar também de A altura e a largura do nada 8 que é um livro que eu achei muito interessante. É um livro também feito de documentos, não é?

A altura e a largura do nada surge desde que eu vi Amarcord de Fellini. O Amarcord é o Fellini olhado para a cidade dele, Rimini, e trazendo as lembranças, os mitos e as histórias e tudo aquilo que tinha na cidade, os personagens, ele recuperou tudo, tudo, tudo. Eu pensei que por que não fazer isso com a minha terra, eu sempre quis fazer isso com Araraquara. Aí comecei a anotar nos meus cadernos tudo o que me vinha de personagens, de tipos, de filmes, de fatos, de boatos e aí fui pondo no livro. Aquele livro é o meu Araraquaracord, o ‘cord’ é de coração, Araraquaracord: Araraquara do meu coração. Muita coisa foi inventada pelas pessoas, quantas mulheres que diziam que elas eram putas e que davam e que nunca deram, é a imaginação, isso nasceu da mitologia interiorana que acaba sendo a mitologia paulistana.

O livro tem páginas brancas e páginas pretas.

Tem três cadernos de páginas cinza, são três perfis verdadeiros, um que é do meu pai, um que é do Zé Celso Martinez Corrêa que é o diretor do Teatro Oficina, o teatro mais revolucionário deste país, um homem alucinado, durante a revolução foi preso, foi exilado, sofreu muito. Sempre combateu a ditadura e fez peças como Roda viva que foi uma peça que na estréia os fascistas entraram e bateram em todo o mundo, até nos atores. O rei da vela que era baseado em Oswald de Andrade. José Celso é de Araraquara e cresceu comigo. E o terceiro perfil do livro é da Ruth Cardoso que foi a ex-mulher de Fernando Henrique e que é de lá também de Araraquara. Araraquara também tem uma grande importância em Dentes ao sol 9, esse livro é Araraquara e o meu grupo de Araraquara é o embrião de A altura e a largura do nada. Araraquara é uma das poucas cidades onde Sartre, quando esteve no Brasil, foi a fazer uma palestra, de lá um dos maiores gravuristas brasileiros, Lívio Abramo, nasceu lá.

No livro está a história do Sartre e do Pelé que estavam lá no mesmo dia e à mesma hora. Isso é verdade?

É verdade, eu estava lá, eu vi.

Parece ficção, eu quando li achava que isso não era possível num lugar como esse.

Não, não, o Sartre saia do teatro e subiu para a faculdade, e o Pelé vinha descendo e eles se encontraram na esquina, aquele dia o Pelé foi lá jogar, foi em setembro do 60. Araraquara teve também uma escola de artes fabulosa, a maior fábrica de meias do Brasil é lá, então é uma cidade muito louca.

Para acabar, não sei se tem algum livro em projeto do que nos possa falar.

A verdade eu agora estou no que falam de entre safra. Eu acabei a biografia da Ruth Cardoso que demorou um ano e meio, e eu fiz também um livro infantil que é a continuação de outro livro infantil que se chama O menino que vendia palavras 10, agora é o mesmo menino só que se chama O menino que perguntava, e é um menino que gosta de fazer perguntas e o sonho dele é inventar um milhão de perguntas, então é o mesmo personagem que O menino que vendia palavras, a mesma professora, o mesmo pai. O menino que vendia palavras é uma história real que aconteceu comigo.

Há uma questão biográfica, não é?

É, mas em forma de literatura, porque meu pai lia muito, era muito simples, mas lia muito, minha paixão pela literatura vem dele, ele tinha dicionários, ele gostava, ele me ensinou a olhar dicionário. Então eu ficava olhando, e depois na escola quando chegava a hora de fazer sinônimos eu fazia porque eu tinha dicionário, e a melhor nota era sempre a minha, aí os meninos começaram a pedir ajuda e eu ia dando, só que não dava de graça, eu fazia o trabalho deles, mas um me dava um sorvete, outro me dava uma bolinha de gude, o outro me dava um chiclete, o outro uma bala e daí vem esse menino que vendia palavras, essa é a história. Ganhou o prêmio Jabuti de melhor ficção do 2008 da Câmara Brasileira do Livro que é um prêmio bom. Eu me divirto fazendo literatura, as pessoas que falam da angústia diante da página em branco, eu tenho angústia às vezes quando eu não consigo resolver questões em relação com os demais, mas é um prazer enorme se sentar e escrever. Eu não sei fazer outra coisa na vida e espero não fazer outra coisa na vida.

Muito obrigado Loyola pelas palavras e pela conversa.11




Notas:

1 O “Prêmio Melhor Ficção” foi dado pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Além disso Zero ganhou o “Prêmio de Melhor Romance” em 1975 dado pelo Departamento de Cultura do Distrito Federal.

2 Brandão, Ignácio de Loyola. Zero. Milão: Feltrinelli, 1974.

---. Zero. Ed. Comemorativa 35 anos. São Paulo: Global, 2010.

3 Amado, Jorge. Vida de Luis Carlos Prestes: el caballero de la esperanza. Buenos Aires: Claridad, 1942

4 Solzhenitsyn, Aleksandr Isaevich. O arquipélago Gulag. Amadora: Bertrand, 1975.

5 Vale, Sérgio. “Ignácio de Loyola Brandão: mascate de palavras”. Em Discutindo Literatura Ano 3, nº 17 (10-16).

6 Brandão, Ignácio de Loyola. Bebel que a cidade comeu. São Paulo: Brasiliense, 1968.

7 Puig, Manuel. O beijo da mulher aranha. Rio de Janeiro: Codecri,1981.

8 Brandão, Ignácio de Loyola. A altura e a largura do nada. São Paulo: Jabuticaba, 2006.

9 Brandão, Ignácio de Loyola. Dentes ao sol. Rio de Janeiro: Brasília/Rio, 1976.

10 Brandão, Ignácio de Loyola. O menino que vendia palavras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

11 Entrevista feita em São Paulo no início de julho de 2010.



                                                * * *
 

 

Rafael Climent Espino é doutorando da Universidade de Purdue, nos EUA, sua área de pesquisa é o romance latinoamericano da seguda mitade do século XX. Rafael é bacharel em Filologia Hispânica e Filologia Portuguesa pela Universidade de Granada, Espanha, e mestrado em Literatura Hispânica por esta universidade. Tem lecionado aulas de espanhol como língua estrangeira, cultura e literatura espanhola em universidades da Hungria, Portugal e os EUA.
E-mail: rcliment@purdue.edu

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Rafael Climent Espino no Cronópios.