Café Literário Cronópios

Um anjo-árvore da Amazónia
por Ana Marques Gastão





 

A fila boa
por TV Cronópios




Ma che bella storia!!!
por TV Cronópios




Pet é amigo ou é brinquedo?
por TV Cronópios




Zootropo com Angela Dip
por TV Cronópios




O Anjo da Guarda de Caio Fernando Abreu
por TV Cronópios




Os Bracher
por Jorge Sanglard




Zootropo com Nydia Licia e Máximo Barro
por TV Cronópios




Quermesse: toda poesia erótica de Sylvio Back
por Sylvio Back




Estamos ficando sem super-heróis
por Redação




Editora Pequeño Editor, da Argentina, encontra seu novo autor no Cronopinhos
por da Redação




Ficção Científica e Poética de Artur Matuck
por Artur Matuck




Asstrology / Horoscoku
por Roberto Bicelli







 
21/03/2012 11:48:00
De Moraes: 100 anos do autor do hino Minas Gerais



Por Jorge Sanglard



                                 De Moraes - arquivo da família

       Compositor, cantor e violonista, De Moraes (José Duduca de Moraes), nasceu em Santa Maria de Itabira, em 19/3/1912, há 100 anos, e morreu em Juiz de Fora, em 25/11/2002, há nove anos. Sua maior obra foi a letra da canção “Minas Gerais”, de 1942, uma versão da valsa italiana Vieni sul Mare (Venha para o Mar), que acabou conquistando o status de hino popular dos mineiros. Os 90 anos de vida de De Moraes foram dedicados à música, mas o reconhecimento veio tarde e a pobreza marcou boa parte de sua trajetória e a velhice. Mesmo tendo sido um dos maiores recordistas de vendas da Odeon, nos anos 1940 e início dos 1950 e autor de cerca de 200 composições, depois de abandonar a música por desgosto com a situação precária dos direitos autorais, foi reencontrado no final de 1997, pobre, doente e esquecido, vivendo na periferia de Juiz de Fora, com dificuldades financeiras para sustentar a si e a mulher, Norberta Nobre de Moraes, com a qual estava casado há mais de 40 anos.

       De Moraes iniciou a carreira musical em 1935, cantando na Rádio Mineira PRC-7, em Belo Horizonte. Antes, aos 16 anos, trabalhava como laminador na Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira em Sabará (MG), quando apresentou-se cantando e tocando violão no Clube Cravo Vermelho, instituição recreativa para os funcionários da siderúrgica. Integrou também o regional do clube e foi seu diretor musical. Em fins dos anos 1930, mudou-se para Belo Horizonte e posteriormente para o Rio de Janeiro.


        De Moraes e Doquinha na Rádio Tamoio, Rio de Janeiro - foto: arquivo da família

       No início dos anos 1940, começou a apresentar-se com destaque na Rádio Tamoio, no Rio de Janeiro, onde atuou durante seis anos no programa "Hora sertaneja", no quadro "Rancho dos violeiros". Em 1940, lançou suas primeiras gravações, cantando acompanhado de Antenógenes Silva ao acordeom, a marcha "Moda da cidade" e a rancheira "Arrasta o pé meu bem", ambas de autoria de Antenógenes Silva. No ano seguinte, acompanhado novamente de Antenógenes ao acordeom e cantando com Nair Rodrigues, gravou a valsa "Partida cruel" e a toada "Passa pro lado de cá", as duas de parceria com Antenógenes Silva. No mesmo ano conheceu seu primeiro grande sucesso, ao gravar com Nair Rodrigues e tendo o acompanhamento de Antenógenes no acordeom, a mazurca "Adeus porteira velha", de autoria do último.

       Em 1942, compôs, em parceria com o pernambucano Manuel Pereira de Araújo, o Manezinho Araújo, a letra da música "Minas Gerais", a partir da melodia da valsa "Viene sul mar", homenageando sua terra natal e que fora gravada com outra letra em 1917, pela Casa Edison do Rio, na voz do cantor Cadete, mas com o mesmo título "Minas Gerais", quando se referia à nau capitânia da Armada Brasileira, comprada naquele ano à Inglaterra. No mesmo ano, foi lançada em disco, juntamente com a toada "Gavião do mar", também em parceria com Manezinho Araújo.

       "Minas Gerais" alcançou grande sucesso popular, tornando-se uma das composições mais executadas no país, sendo adotada ainda como "hino popular mineiro". A partir de 1944, formou dupla com Xerém. No mesmo ano, lançaram a marcha "Lá vai balão", de Xerém e Pequeno Edson, e a valsa "Saudades de Marianinha", de sua autoria. A dupla gravou um total de seis discos pela Continental.


                           Doquinha e De Moares - foto: aquivo da família

       A partir de 1947, passou a formar dupla com Doquinha, por sugestão de Francisco Alves. Em 1950, gravaram as toadas "Esperando meu benzinho", de sua autoria, e "João Tropeiro", de Antenógenes Silva. A dupla gravou diversos discos, fazendo sucesso com, entre outros, "Meu balão", com Zé Praxedes, "Viola entristecida", de sua autoria, "Minha viola", com Marques da Silva, e "Esperando meu benzinho", de sua autoria.

       Em 1998, foi lançado pelo "Projeto Oh! Minas Gerais", um CD resgatando 14 interpretações do artista em 78 rpm, remasterizadas pela Alça Music. Produzido por Cleber Camargo, de Itabira, a edição do CD contou com a colaboração deste jornalista e pesquisador, de Juiz de Fora, que assinou um texto recuperando a trajetória de De Moraes. Constou também uma entrevista realizada pelo pesquisador Alfredo Valadares em 1979. No mesmo ano, como parte do trabalho de resgate de sua obra, foi homenageado pela Câmara Municipal de Juiz de Fora com o título de Cidadão Honorário e a prefeitura outorgou-lhe a Comenda Henrique Halfeld. Ao final de 1999, teve início o resgate da memória e da obra do importante compositor mineiro. Em março de 2002, “Minas Gerais” completou 60 anos, mas o compositor permanecia recebendo uma quantia irrisória em direitos autorais. De Moraes e a esposa sobreviviam com dificuldades e o único bem era uma casa no bairo Santo Antônio, em Juiz de Fora, que foi alugado para ampliar um pouco a renda do casal, que passou a morar nos fundos do imóvel depois de uma reforma.

       De Moraes morreu na noite de 25 de novembro de 2002 de insuficiência cardiorrespiratória. Ele enfrentava problemas de saúde e caminhava com a ajuda da mulher, Norberta Nobre de Moraes, com quem viveu por 40 anos. O corpo foi velado no prédio da Câmara Municipal de Juiz de Fora e percorreu as ruas da cidade em carro do Corpo de Bombeiros. No enterro, estavam presentes cerca de 60 pessoas, que deram o adeus ao compositor cantando “Minas Gerais”. O compositor foi enterrado no Cemitério Parque da Saudade, em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, onde residia desde a década de 1970.

       Os versos de “Minas Gerais” são conhecidos por todos os mineiros e sempre orgulharam o compositor, mas não foram suficientes para garantir uma aposentadoria digna ao seu autor. De Moraes terminou seus dias dependendo do apoio de amigos, principalmente, depois que foi redescoberto em Juiz de Fora. Ele ganhou um plano de saúde da Santa Casa de Misericórdia e recebia uma cesta básica mensal da Prefeitura de Juiz de Fora.

       Segundo o vereador Flávio Checker, que indicou De Moraes para o título de Cidadão Honorário de Juiz de Fora em 1998, a morte do compositor provocou reflexões: “Primeiro, a incompatibilidade entre a contribuição dele para a cultura do País e as condições de vida que teve. Depois, o desamparo do cidadão comum, que depende da aposentadoria para sobreviver”. Sentimento compartilhado por Jair Pires de Oliveira, sobrinho-neto do compositor. O então governador mineiro Itamar Franco solicitou ao então vereador juizforano Bruno Siqueira que o representasse no funeral do compositor e divulgou nota oficial do Governo de Minas sobre a morte de De Moraes, afirmando que ela comovia os mineiros: “Devemos a ele a criação de `Minas Gerais`, hino do Estado pela vontade popular. Desde que foi gravada pela primeira vez, a canção passou a ser entoada em louvor a Minas. Ele será sempre lembrado por ter dado aos mineiros o mais querido símbolo sonoro das Minas Gerais”, concluiu o então governador.

       O compositor passou também a integrar o “Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira”, sob coordenação do jornalista e pesquisador Ricardo Cravo Albin, num verbete elaborado pelo autor deste artigo.

       Em 13 de maio de 2010, a viúva, de De Moraes, Noberta Nobre De Moraes, fez à Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage – Funalfa, em Juiz de Fora, a doação de todo o acervo particular do compositor: discos, partituras, fotografias, violão e certificados. O acervo está sob a responsabilidade e guarda da divisão de memória da Funalfa, onde foi elaborado um inventário das peças e ficará à disposição para consulta do público, músicos, compositores ou pesquisadores.


                                                 * * *


Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil. E-mail: jorgesanglard@yahoo.com.br

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Jorge Sanglard no Cronópios.