02/06/2006 21:45:00
O Mentiroso Mergulha em Shakespeare de Verdade
Por Maurício Paroni de Castro

Gostaria de compartilhar com o leitor a singular experiência em que estou envolvido há cerca de dois meses: Shakespeare, convidado pelo Teatro Promíscuo, em companhia de uma miríade de artistas de primeiríssima linha na confecção de Timão de Atenas e Macbeth. O leitor vai me desculpar que eu escreva, mais uma vez, somente de minhas experiências; entretanto, estas me parecem tão singulares que seria uma pena não tentar contar algumas aventuras criativas que, de outra forma, não chegariam ao público.
Tentarei filtrar e respeitar as naturais idiossincrasias dos envolvidos.
Vou escrever a partir dos dois pontos-de-vista de que disponho: como ator, onde interpreto Apemanto (filósofo cínico) em Timão de Atenas, protagonizado por Renato Borghi e dirigido por Élcio Nogueira Seixas e Luciana Borghi; e, como diretor, vou dirigir Macbeth, protagonizado por Élcio, Luciana, Renato e Alvise Camozzi. Justifica-se aqui o nome da companhia, certo?
Isto deverá tomar pelo menos mais oito meses desta coluna. Terei tempo de contar o Timão de Atenas do ponto-de-vista de um diretor que atua (no elenco, há mais uns três ou quatro nessa mesma condição)
Começo pela faceta mais acessível à escrita, ou pelo menos a que é me é mais racionalmente clara e habitual, que é o rascunho de direção que elaborei para o Macbeth.
O resto virá como um diário, escrito em meio aos dois processos criativos. Peço, desde já, vênia pelas inevitáveis digressões futuras. Quem desejar, poderá enviar suas queixas por e-mail. Tentarei me corrigir.
Boa viagem.
UM PLANO PARA MACBETH
Já foi dito que o argumento desta peça resume-se na asserção de que intenções malévolas, no fim das contas, produzem ações e efeitos malévolos, que não são redimidos pelo protagonista. Isto tem a ver tão explicitamente com o Brasil atual que nem vale frisar com infantilidade ideológica a questão. Basta seguir as tramas de Macbeth, instigadas por sua mulher, e veremos quem é quem no Brasil de hoje.
Há outro aspecto apropriadamente histórico no enredo: o de que as aparências políticas e individuais interseccionam-se e enganam. O que aparenta ser bom pode ser a quintessência do Mal, como a boa sorte de Macbeth, transformada pela Lady em sua própria tragédia. Más ações individuais e privadas de governantes acabam por propiciar ações análogas de governados, de maneira aparentemente fantasmagórica. Em um período onde a ética se dissociava da política (Macchiavelli versus Thomas More), Shakespeare perguntava-se até que ponto isso era praticável. Macbeth demonstra a relação de causa e efeito entre as duas coisas.
A Escócia, terra gelada ao norte da Muralha de Adriano, jamais foi tangida pela “urbe” clássica. A dimensão política mediterrânea era conhecida pela experiência indireta da vizinha Inglaterra. Para aumentar a propriedade da parábola, opto por uma direção formalmente enquadrada por pinturas cenográficas.
Elenco os pontos que nortearão o projeto cênico:
1. O plano principal dos atores e do espetáculo será um pequeno praticável (4,5m x 4,5m, à antiga italiana), onde o habitualmente vertiginoso imaginário shakespeareano poderá ser agilizado por uma cenografia rapidamente modificável.
2. Haverá grande emprego de rotundas ou painéis de madeira pintada, de tipo tradicional. Serão inspiradas em Turner e realizadas por Laura Trevisan. Turner foi o pintor que lançou a arte trezentos anos na frente, sem romper a forma. Seu uso da cor preconizou a arte abstrata, ao criar climas que vão desde a fantasmagoria a incêndios e explosões. Havia, porém, o cuidado de não cortar o acesso do público ao seu universo de significados.
Não pretendo romper a forma. Quero, antes, afirmá-la, pois a gramática sugerida pelo texto de Shakespeare assim o requer, tanto quanto a velocidade da trama. Entretanto, o uso explosivo da cor fascina, como as manchas vermelhas (falsas ou não) nas mãos que cometem ou inspiram o reicídio. Nasce aqui o uso das rotundas pintadas, de fatura realística mas formalmente avançada, realizados pela pintora Laura Trevisan. A cenografia será de Simone Mina e a “aparência das personagens” será tarefa de Adriana Ramos.
3. A verdadeira protagonista formal da versão aqui defendida, a tridimensionalidade dos atores e personagens em relação ao fundo pintado, será ressaltada pela peculiaridade da iluminação, a candelabros baixos e ribaltas. Isso ressalta também a platéia como elemento humano tridimensional, sem agressividade formal, e constrói a intimidade público-atores, sempre essencial em Shakespeare
4. A pintura de cavalete, realizada ao vivo por um dos intérpretes das bruxas (o pintor Gianpaolo Köhler), será parábola das maldições a que estão submetidos os protagonistas. Além de tudo o que for pintado/vaticinado concretizar-se, as pinturas de fundo, por serem imóveis, deverão inspirar suspeição e desconfiança da “realidade”que representam. Nasce um diálogo pictórico que engendra-se perfeitamente com a economia do texto e do espetáculo.
5. Ponto conclusivo é que, em relação à poética teatral que tenho desenvolvido, há uma inversão de sentido estético, sem que isso signifique uma negação da mesma estética. Com os espetáculos a partir de textos de Pirandello encenados em Milão, Glasgow e São Paulo, indaguei sobre o que era real e não-real nas ações de poder dos círculos individuais das personagens. Aqui, irei além do tema do poder e da ambição, das razões individuais de uma micro-coletividade;
6. Haverá o tema da ambigüidade humana, presente não somente nas personagens principais (Macbeth, Lady Macbeth, bruxas e Banquo), mas sobretudo no estilo e na forma das falas. Shakespeare empregou muito o oxímoro (uso, na mesma frase, de temas contrastantes) e a ironia (sobretudo no que diz respeito ao que o casal Macbeth espera dos eventos desencadeados e o que realmente acontece).
Nesta tragédia o que aparenta ser não é necessariamente o que é. Ou o que parece ocorrer não é o que realmente ocorre. Onde uma floresta aparenta mover-se, em realidade move-se o exército que significará o fim de Macbeth. Pintura e iluminação tenderão a ressaltar o que realmente se move – atores que representam um bosque que, por sua vez é um exército. Luz de velas e pintura instilam plenamente o uso orgânico de recursos cênicos simples, com efeitos certeiros na teatralidade, produzindo beleza e justificando a encenação do espetáculo.
Maurício Paroni de Castro, 44, é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana. E-mail: paronidecastro@hotmail.com |