Café Literário Cronópios

Os Babilaques de Waly Salomão
por Antonio Cicero





 
Coluna:
O MENTIROSO
Maurício Paroni de Castro


Renato Borghi e Nelson Rodrigues, o casamento eternamente feliz
por Maurício Paroni de Castro




Tio Vanja brasileiro
por Maurício Paroni de Castro




Grand Guignol, o gênero degenerado
por Maurício Paroni de Castro




Influenza solitária de palco
por Maurício Paroni de Castro




Ruínas de uma arquitetura teatral em São Paulo
por Maurício Paroni de Castro




O corte da tarja preta
por Maurício Paroni de Castro




O desenho angustioso do limite
por Maurício Paroni de Castro




O velório indecente
por Maurício Paroni de Castro




Satyros, Sons, Furyas
por Maurício Paroni de Castro




Devedores de Pirandello
por Maurício Paroni de Castro




O Aleph, uma vela e um olho
por Maurício Paroni de Castro




A mão do gato
por Maurício Paroni de Castro




Do Filme A Via Láctea -
por Maurício Paroni de Castro




O Mentiroso Mergulha em Shakespeare de Verdade
por Maurício Paroni de Castro




Mini-artigo sobre a malvadeza (complementar a “Quando a vida se liberta da obra”)
por Maurício Paroni de Castro







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
02/06/2006 21:45:00 
O Mentiroso Mergulha em Shakespeare de Verdade


Por Maurício Paroni de Castro

 




Gostaria de compartilhar com o leitor a singular experiência em que estou envolvido há cerca de dois meses: Shakespeare, convidado pelo Teatro Promíscuo, em companhia de uma miríade de artistas de primeiríssima linha na confecção de Timão de Atenas e Macbeth. O leitor vai me desculpar que eu escreva, mais uma vez, somente de minhas experiências; entretanto, estas me parecem tão singulares que seria uma pena não tentar contar algumas aventuras criativas que, de outra forma, não chegariam ao público.

Tentarei filtrar e respeitar as naturais idiossincrasias dos envolvidos.

Vou escrever a partir dos dois pontos-de-vista de que disponho: como ator, onde interpreto Apemanto (filósofo cínico) em Timão de Atenas, protagonizado por Renato Borghi e dirigido por Élcio Nogueira Seixas e Luciana Borghi; e, como diretor, vou dirigir Macbeth, protagonizado por Élcio, Luciana, Renato e Alvise Camozzi. Justifica-se aqui o nome da companhia, certo?

Isto deverá tomar pelo menos mais oito meses desta coluna. Terei tempo de contar o Timão de Atenas do ponto-de-vista de um diretor que atua (no elenco, há mais uns três ou quatro nessa mesma condição)

Começo pela faceta mais acessível à escrita, ou pelo menos a que é me é mais racionalmente clara e habitual, que é o rascunho de direção que elaborei para o Macbeth.

O resto virá como um diário, escrito em meio aos dois processos criativos. Peço, desde já, vênia pelas inevitáveis digressões futuras. Quem desejar, poderá enviar suas queixas por e-mail. Tentarei me corrigir.

Boa viagem.

 

 

UM PLANO PARA MACBETH


Já foi dito que o argumento desta peça resume-se na asserção de que intenções malévolas, no fim das contas, produzem ações e efeitos malévolos, que não são redimidos pelo protagonista.  Isto tem a ver tão explicitamente com o Brasil atual que nem vale frisar com infantilidade ideológica a questão. Basta seguir as tramas de Macbeth, instigadas por sua mulher, e veremos quem é quem no Brasil de hoje.

Há outro aspecto apropriadamente histórico no enredo: o de que as aparências políticas e individuais interseccionam-se e enganam. O que aparenta ser  bom pode ser a quintessência do Mal, como a boa sorte de Macbeth, transformada pela Lady em sua própria tragédia. Más ações individuais e privadas de governantes acabam por propiciar ações análogas de governados, de maneira aparentemente fantasmagórica. Em um período onde a ética se dissociava da política (Macchiavelli versus Thomas More), Shakespeare perguntava-se até que ponto isso era praticável. Macbeth demonstra a relação de causa e efeito entre as duas coisas.

A Escócia, terra gelada ao norte da Muralha de Adriano, jamais foi tangida pela “urbe” clássica. A dimensão política mediterrânea era conhecida pela experiência indireta da vizinha Inglaterra. Para aumentar a propriedade da parábola, opto por uma direção formalmente enquadrada por pinturas cenográficas.

Elenco os pontos que nortearão o projeto cênico:

1. O plano principal dos atores e do espetáculo será um pequeno praticável (4,5m x 4,5m, à antiga italiana), onde o habitualmente vertiginoso imaginário shakespeareano poderá ser agilizado por uma cenografia rapidamente modificável.

2. Haverá grande emprego de rotundas ou painéis de madeira pintada, de tipo tradicional. Serão inspiradas em Turner e realizadas por Laura Trevisan. Turner foi o pintor que lançou a arte trezentos anos na frente, sem romper a forma. Seu uso da cor preconizou a arte abstrata, ao criar climas que vão desde a fantasmagoria a incêndios e explosões. Havia, porém, o cuidado de não cortar o acesso do público ao seu universo de significados.

Não pretendo romper a forma. Quero, antes, afirmá-la, pois a gramática sugerida pelo texto de Shakespeare assim o requer, tanto quanto a velocidade da trama. Entretanto, o uso explosivo da cor fascina, como as manchas vermelhas (falsas ou não) nas mãos que cometem ou inspiram o reicídio. Nasce aqui o uso das rotundas pintadas, de fatura realística mas formalmente avançada, realizados pela pintora Laura Trevisan. A cenografia será de Simone Mina e a “aparência das personagens” será tarefa de Adriana Ramos.

3. A verdadeira protagonista formal da versão aqui defendida, a tridimensionalidade dos atores e personagens em relação ao fundo pintado, será ressaltada pela peculiaridade da iluminação, a candelabros baixos e ribaltas. Isso ressalta também a platéia como elemento humano tridimensional, sem agressividade formal, e constrói a intimidade público-atores, sempre essencial em Shakespeare

4. A pintura de cavalete, realizada ao vivo por um dos intérpretes das bruxas (o pintor Gianpaolo Köhler), será parábola das maldições a que estão submetidos os protagonistas. Além de tudo o que for pintado/vaticinado concretizar-se, as pinturas de fundo, por serem imóveis, deverão inspirar suspeição e desconfiança da “realidade”que representam. Nasce um diálogo pictórico que engendra-se perfeitamente com a economia do texto e do espetáculo.

 5. Ponto conclusivo é que, em relação à poética teatral que tenho desenvolvido, há uma inversão de sentido estético, sem que isso signifique uma negação da mesma estética. Com os espetáculos a partir de textos de Pirandello encenados em Milão, Glasgow e São Paulo, indaguei sobre o que era real e não-real nas ações de poder dos círculos individuais das personagens. Aqui, irei além do tema do poder e da ambição, das razões individuais de uma micro-coletividade;

6. Haverá o tema da ambigüidade humana, presente não somente nas personagens principais (Macbeth, Lady Macbeth, bruxas e Banquo), mas sobretudo no estilo e na forma das falas. Shakespeare empregou muito o oxímoro (uso, na mesma frase, de temas contrastantes) e a ironia (sobretudo no que diz respeito ao que o casal Macbeth espera dos eventos desencadeados e o que realmente acontece).

Nesta tragédia o que aparenta ser não é necessariamente o que é. Ou o que parece ocorrer não é o que realmente ocorre. Onde uma floresta aparenta mover-se, em realidade move-se o exército que significará o fim de Macbeth. Pintura e iluminação tenderão a ressaltar o que realmente se move – atores que representam um bosque que, por sua vez é um exército. Luz de velas e pintura instilam plenamente o uso orgânico de recursos cênicos simples, com efeitos certeiros na teatralidade, produzindo beleza e justificando a encenação do espetáculo. 

 

 

 

 

 

 

 

Maurício Paroni de Castro, 44, é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana. E-mail: paronidecastro@hotmail.com

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