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Uma rara conexão com a poesia contemporânea italiana
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04/05/2005 18:49:00 
Guardiães do tempo


Por Jussara Salazar



Camus descreve um desconfortável sentimento que haveria na morte mesmo sendo essa morte, uma morte moderna. A fotografia de Flor Garduño revela-nos a luminosidade extrema da existência, evoca os signos de um tempo transcendente e primitivo que movimenta o silêncio, aura suprema e lugar onde a terra vive e respira, pele e olhos, visagem através de uma réstia, ou de uma feérica brecha que se desfaz entre bruma, escuridão e sol. A morte que comparece de modo sublime nas imagens do livro Guardiães de tempo, moderna ou não, é um acontecido constante de revelação do espírito, sendo também supremo paradoxo, ritual que ora solidão ora ascese, não designa um fim absoluto, mas quer ter seu retorno à vida, mors janua vitae, a morte, porta da vida. A mãe terra Coatlicue ergue no trançado transbordante de açucenas o olhar mestiço que salta do fundo negro e profundo da imagem e revela aí, não mais a máscara, mas aquele retrato em que como o fez Diego Rivera, vaticina uma origem, sob a luz de inúmeros sóis refletidos, tal como o espelho mágico do tempo. Tempo esse de uma fotografia que anuncia seus guardiães, secretos como o negro dragão de um conto da dinastia T’ang, sentinela de apenas uma pérola, sendo assim, o guardião da imortalidade, a metáfora do tempo em seu limite e duração.



                          Cantores, Guatemala, 1990


 

Em Flor Garduño, a natureza humana eleva-se à condição sagrada e transcende o real, o mito sustenta a condição física das coisas, determinando de forma alegórica um caráter íntimo, já que nesse caso a essência humana vela incansável os dias e as noites. Por vezes incontáveis, o mesmo mito repete-se, hybris entre a fisicidade de uma matéria pictórica e a luz da fotografia, de maneira multiforme, evocando uma atitude atemporal do ponto de vista sócio-antropológico. A religiosidade aí dá lugar a uma espécie de saudação à natureza, manifestação de uma imanência entre a imagem e a vida, ou mesmo dessa morte mítica, onde tudo se funde numa poética de estranhezas. Como as máscaras de t’ao-t’ie esses rostos quase irreais vão se humanizando, a face divina e a face do sol alcançam então a dimensão da suprema poesia, o sentido do símbolo e do arquétipo.



                      

               A revelação, Bolívia, 1992



 

Em “A revelação”, os signos de Flor Garduño atingem uma espécie de iluminação sagrada, o homem ali ajoelhado reverencia com as mãos o pequeno cavalinho de madeira que carrega em seu dorso um imponente cavaleiro de chapéu e manto. Tudo flutua sobrenatural na imagem carregada de significados em sua luz mágica, impregnada pelo clarão das pedras na pátina da parede secular.




               A caminho do cemitério, Equador, 1988



 

A dramática imagem de “ A caminho do cemitério” é desconcertante e bela; uma pequena legião sem rostos caminha solitária e silenciosa por uma rua que finda em uma alvíssima névoa, a pá e o pequeno esquife, que um dos homens carrega amarrado às costas, traduzem o que poderia haver de mais sublime na morte e nos remete a uma indagação: - Para onde terá ido o sol?




               A árvore da vida, México, 1982



 

Já em “A árvore da vida”, três personagens fazem um contraponto solar com a única e possível referência sobre a areia infinita, a imensa e velha árvore recortada ao fundo branco da paisagem, cosmo vivo em ascensão para os céus, guardiã do orvalho celeste e da seiva que transmite a imortalidade à maneira de um himorogi japonês ou, ainda, como na tradição dos Upanixades em que o universo é uma árvore invertida e mergulha suas raízes no céu estendendo seus ramos pela terra inteira.

Diante desse elemento fantástico da fotografia de Flor Garduño pode-se pensar, como Guimarães Rosa, que não se morre nunca, mas apenas se permanece encantado.


 



Flor Garduño
nasceu no Cidade do México e atualmente é considerada um dos maiores nomes da fotografia no mundo inteiro. As imagens que aparecem aqui pertencem ao livro “Gardiens du temps” (Arthaud, 1992, Suiça).

 





Jussara Salazar
é poeta e designer gráfica. Natural de Pernambuco, vive e trabalha em Curitiba desde 1986. Tradutora e colaboradora de periódicos e revistas no Brasil e no exterior, publicou de sua autoria em 1999, "Inscritos da casa de Alice" (Tipografia do Fundo de Ouro Preto), "Baobá", poemas de "Leticia Volpi", (Travessa dos Editores, 2002) e "Natália", (Travessa dos Editores, 2004). Trabalha há alguns anos como editora e com o selo Tigre do Espelho produz livros e publicações. E-mail: jussara_salazar@yahoo.com.br

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