11/07/2006 21:58:00
Um fio dourado na agulha, o teatro árabe em San Francisco
Por Paula Valéria Andrade

Na coluna de hoje resolvi falar de um grupo teatral bem incomum nos Estados Unidos.Talvez o fato de ser incomum não seja tão somente a temática abordada. Mas a localidade em que se encontra para falar de seus temas. Principalmente hoje em dia em tempos de Guerra no Oriente Médio. Tanto entre Israel e Palestina como entre os EUA e o Afeganistão.
O Golden Thread Productions é uma organização de performances dedicadas ao teatro e a dramaturgia que venham explorar a cultura e a identidade do Oriente Médio representada pelo mundo afora. Localiza-se em San Francisco, uma das cidades mais democráticas e liberais não somente na Califórnia, como também no país inteiro. E por isso mesmo, apesar de todos os conflitos internacionais e políticos em jogo, sua liberdade de expressão está bem protegida. O grupo não se abala. Embora traga na sua maioria artistas e dramaturgos das nacionalidades de países como Iran, Armênia, Egito, Palestina, entre outros; não somente defende sua bandeira cultural no espaço geográfico do Tio Sam, como também traz um inquieto e provocador pensamento no intuito de promover um denso e crítico diálogo entre os costumes do East side e do Ocidente como um todo.
A idéia não é apenas descobrir, desenvolver e apoiar os artistas do Oriente Médio, imigrantes e residentes locais. Mas também desenvolver e produzir trabalhos inovadores, intrigantes e de consciência social que possam instigar e influenciar sua audiência. Muitos são autores que ainda vivem por lá mesmo, bem longe da cultura Ianque. Com essa missão também se inclui a promoção de textos originais, liquidificados num rico suco, expostos em montagens com diversidade de estilos árabes ou melhor dizendo, do Oriente Médio como um todo.
Visão
Torange Yeghiazariam é uma jovem escritora iraniana e fundou o Golden Thread Productions em Outubro de 1996 sem apoio cultural ou patrocínio, mas com a ajuda de seus amigos mais próximos e de sua família: Maria Zamroud, Termeh Yeghiazarian, Gen Hayashida, and Kamshad Kooshan. O nome do grupo foi inspirado no mito de Ariadne que ofereceu a Theseus um novelo de linha dourada para guiá-lo até a entrada do labirinto. Desde então, Torange não somente montou seus espetáculos como dramaturga, como também começou a promover os textos de autores de sua cultura, até então inéditos para o público americano. Isso mesmo, ela fundou um grupo de teatro underground árabe no seio da Califórnia, sozinha, sem grana e há 9 anos atrás. Algo absolutamente ousado para uma jovem mulher iraniana. Inclusive algo muito ambicioso para uma cultura aonde a mulher deveria se bastar com o casamento e o dever de criar filhos, ficando em casa. Mas Torange foi muito além das expectativas de sua cultura de origem para com o sexo feminino. Hoje, ela é a diretora artística do grupo que além das montagens anuais também criou um festival de novos dramaturgos.
Através do poder transformador do ”Theatre Golden Thread Productions” (“Producoes Um fio Dourado na Agulha”) e sua proposta participativa de criar um mundo aonde as experiências humanas se sobressaem as tantas diferenças políticas e culturais, muitas audiências já foram tocadas a fundo.E vivenciaram incríveis processos de melhoria na interatividade com a cultura Ianque. Assim como também reciclaram certos posicionamentos mais conservadores com as mulheres. Na vasta imaginação do grupo, o Oriente Médio está definido não somente pela fronteiras geográficas e suas separações políticas mas também como uma experiência compartilhada de pessoas que através da história foram tocadas por seus contos, melodias e aromas. O Oriente Médio vive nestas almas, vive dentro de cada um deles, mesmo imigrantes, e assim como eles se redefinem, eles acabam por redefinir um novo olhar sobre este velho modo de ser e de contar uma história. E eles acreditam que assim ele pode ser reconquistado e repensado em contraste com o Ocidente.
História
A estréia do primeiro espetáculo teatral ocorreu com "Operation No Penetration, Lysistrata 97!" (“Operação Não Penetração Lysistrata 97”), uma clássica comedia Grega anti-guerra que foi adaptada para o Oriente Médio, colocando então as mulheres Palestinas e Israelenses unidas no propósito de forçar os seus homens a assinarem um tratado de paz. Desde então, a companhia teatral continuou a apresentar criativamente várias questões sociais bastante desafiadoras em seus palcos. A próxima montagem foi "Deep Cut" (“Corte Profundo”) da autora Karim Alrawi, uma peça que ousou lidar com o tema da circuncisão feminina e tortura. Ela foi dirigida por Hal Gelb, e dialogou o tempo todo com a questão se, deve-se ou não interferir com a cultura alheia e a despeito do que. Principalmente quando a tortura e a violência estão no foco. A produção recebeu ótimas críticas dos jornais Pacific Sun que a descreveu como “…a play that makes you think.” (uma peça que faz você pensar) e também o Synapse que disse “An Absolute Pleasure to watch.” (Um prazer absoluto de se assistir). Já em 2002, com o dobro da audiência em números de ingressos vendidos, foi apresentada a premiére de "Nine Armenians" (Nove Armênias) da autora Leslie Ayvazian no maior e famoso Magic Theatre. Tanto a crítica como o público de espectadores aplaudiu em cena aberta o trabalho impressionante do elenco e da direção. Sem contar a apresentação de um tema nunca antes abordado desta forma nos palcos Estadosunidenses. Desde 1999, o Golden Thread Productions tambem comecou a produzir o festival anual de novos dramaturgos em peças curtas (Short-plays): ReOrient. Em média, são apresentadas de 6-8 peças teatrais de textos inéditos e vencedores do concurso promovido pelo grupo. Este seria um tipo único e inédito de festival a ser realizado nestas bandas da Califórnia, porque além de tudo, são premiéres mundiais, fazendo de San Francisco a mecca do teatro do Oriente Médio no mundo Ocidental.
Visite o website do grupo: http://www.goldenthread.org

Paula Valéria Andrade nasceu carioca, viveu em São Paulo e atua como poeta, escritora, webcolunista de teatro(*) e designer por 16 anos. Publicou “IriS digiTaL Poesy(a)” 2005 Editora Escrituras; seis livros infantis com prêmios Jabuti, APCA, FNLIJ, White Ravens ;`A Arte em Todos os Sentidos", sobre arte & tecnologia multimedia, 2000 Editora do Brasil e participou de algumas antologias. Reside em San Francisco- Califórnia- há três anos trabalhando com teatro. (*)www.blocosonline.com.br |