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Poesia na estante
por Luis Edmundo Alves



 
Coluna: NAS DOBRAS DA LÍNGUA
Solange Rebuzzi


Alberto Manguel no Rio de Janeiro
por Solange Rebuzzi




Na língua materna
por Solange Rebuzzi




Antes e depois
por Solange Rebuzzi




Carta ao amigo desconhecido
por Solange Rebuzzi




Ficção carioca
por Solange Rebuzzi




Uma cena de inverno?
por Solange Rebuzzi




Mãos
por Solange Rebuzzi




Entrevista com a poeta argentina Tamara Kamenszain
por Solange Rebuzzi




Vitela assada e batatas ao murro
por Solange Rebuzzi




Laure Limongi Rio/São Paulo
por Solange Rebuzzi




O azul de Portinari
por Solange Rebuzzi




Retrato
por Solange Rebuzzi




Vacas sem pasto
por Solange Rebuzzi




Cidade gris
por Solange Rebuzzi




Janela e chão
por Solange Rebuzzi







 


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Solange Rebuzzi


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Alfredo Suppia


Artur Matuck
12/07/2006 22:09:00 
Uma tarde com Bernstein


Por Solange Rebuzzi





Encontro com o poeta americano Charles Bernstein no hall de um hotel, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Um táxi nos espera do lado de fora, e o programa inicial prevê uma caminhada no Jardim Botânico e um passeio na Urca, subindo o cartão postal da cidade: o Pão de Açúcar.

Registro alguns momentos de nossa conversa que aconteceu aos poucos, in process, ao longo dos cantos de árvores e raízes amazônicas, principalmente.

 

 

1.

Bernstein acredita na importância política, especialmente, da divulgação de poemas e poetas, que façam trabalhar a palavra com suas próprias vozes, dando lugar às leituras em locais públicos, ao longo do tempo e em múltiplas línguas.

 

 

2.

Escrever ensaios e escrever poemas e publicá-los tem a mesma importância para este poeta. Ele diz que escreve um ensaio como quem escreve um poema: um a um e de forma nova a cada vez.

 

 

 

 

P a l a v r a s  d o  p o e t a

ditas no táxi ou no Café de uma livraria

:

 

Nos Estados Unidos, costumamos dizer que as mulheres começam escrevendo Diarys, uma espécie de Diários íntimos, e os homens escrevendo Journals, Diários literários. Mas, “of course it´s a joke!”

 

 

Sim, as mulheres gostam de escrever poemas sobre o Amor e os homens escrever sobre a Verdade. Ambos são ruins! Importa escrever sobre as Coisas. Sobre a vida e sobre o que se vê.  

 

 

No Brasil e na Argentina o tempo dos militares silenciou muito as mulheres. Vemos mais claramente este fato nos Estados Unidos que não viveu este tipo de governo, e, as poetas, escreveram muitos ensaios e os publicaram em livros durante as últimas décadas. Nos países em que a ditadura operou silêncios, as mulheres ficaram mais silenciadas e por mais tempo.

Ainda:

As ditaduras militares no Brasil e Argentina, além dos tantos sofrimentos e mortes que infligiram, deixaram efeitos negativos em vários aspectos da vida social e política. Há inclusive um que é menos noticiado, mas é significativo, e diz respeito ao catastrófico efeito que causou na poesia de uma maneira geral.

Muito do que foi interessante para a poesia da década de 70 e 80 foi uma extensão do melhor de “1968”, pois a vida da poesia estava na troca com as pessoas, no trabalho, e nas idéias, nas leituras e nas pequenas (mimeo e xérox) impressões - via livros e revistas. Os poemas emergiam do coletivo senso de troca. A supressão da liberdade abria a troca com o público e movia a poesia, uma vez mais, em direção ao mundo íntimo do poeta como resistente herói (admirável) ou simples solitário (necessário). Mas este papel do poeta como Autêntica Autoridade contra a Autoridade termina por ser uma formação reativa, um estilo muito imposto pela circunstância inóspita.

Nós vemos isto também no chamado Bloco Comunista – o heróico poeta lírico (o macho) contra o estado totalitário. Ao mesmo tempo, a repressão política impede a emergência da troca coletiva em público, a entrada de novas vozes possíveis apenas em termos deste espaço público de poesias comunitárias, dissidente não só do cânone macho lírico mas também do imoral dissidente, contra a Lírica (masculina) Autoritária tanto quanto...

 

 

O importante é escrever poemas e divulgá-los. A internet é um espaço excelente para se fazer isto. Eu o faço há muito tempo, e também divulgo poetas de muitas outras línguas (embora divulgue mais os que escrevem na língua inglesa).

 

 

Para um poeta a leitura é importante, mas a escuta é fundamental!

Neste ponto psicanálise e poesia se aproximam.

 

 

Sim, a poesia tem que fazer uma brecha e encontrar a forma de existir no espaço fora do consumo. Porque é disto que se trata.

As livrarias não são os melhores espaços para as leituras de poesia, pois elas estão implicadas no mercado, no comércio. Os espaços neutros são os melhores. Nos Estados Unidos há leituras todos os dias em muitos lugares, em espaços públicos. E na Europa também.

 

 

 

Some notes/ Algumas notas (by memory):

 

A expressão exchance foi repetida, muitas vezes, ao longo desta tarde. Bernstein explicou seu pensamento poético desdobrando-o (for) exchange.

Reflito que posso considerar também a expressão, como uma posição onde se experimenta a escrita poética debruçada no mundo e em direção a muitos outros poetas e muitas outras línguas.

Sorridente Bernstein explicou-me sobre a forma que gosta de permanecer enquanto escreve:

Não em uma mesa de escritório, mas sentado em uma confortável poltrona com o laptop sobre as pernas. Acomodado de forma a conseguir tomar um gole de café, nos espaços e intervalos em que respira livremente seu texto.

Anoto: Bernstein gosta de beber café expresso, sem açúcar nem adoçante, e os toma duplos. Mas ao ouvir de mim que João Cabral de Melo Neto também tomava inúmeros cafés ao longo do dia para permanecer acordado, acrescentou: Eu tomo muitos cafés. É a minha bebida favorita.  

 

 

À minha pergunta, se ele tem por hábito escrever a mão ou se direto no computador, explica que, em geral, escreve os ensaios sem privilegiar uma primeira escrita, mas os poemas, estes, nascem em um bloco de notas com palavras e versos que são escritos a mão. Retira imediatamente do bolso, um pequeno bloco de papel e mostra-me cinco ou seis versos, que fez ao longo da orla do mar de Ipanema e Copacabana, na caminhada matutina deste dia 26 de junho de 2006.

 

 

Sobre o silêncio disse de repente:

- Não importa escrever hoje em dia dando prioridade ao silêncio.

 

 

 

Breve histórico

 

Charles Bernstein nasceu em 1950 na cidade de Nova York. Casou-se com a pintora Susan Bee, sua editora e colaboradora em vários livros. Publicou 30 livros de poesia e libretti, incluindo Shadowtime (Los Angeles: Green Integer, 2005), várias coleções de poesia e alguns livros de ensaios críticos.     

Traduziu poetas de diversas línguas, entre eles João Cabral de Melo Neto, Paulo Leminski e alguns poetas contemporâneos brasileiros, juntamente com Régis Bonvicino. Tem uma página na internet http://epc.buffalo.edu/authors/bernstein/ onde edita vozes de poetas de várias partes do mundo.

Atualmente é professor de Poesia na Universidade da Pensilvânia. Foi professor na Universidade de Nova York, Buffalo, onde criou na década de 90 o Programa de Poética no Departamento de Inglês. É completamente dedicado ao trabalho de divulgar a Poesia e o pensamento poético.

O primeiro livro, Parsing, apareceu em 1976. Em 1978 começou a editar o jornal crítico L=A=N=G=U=A=G=E com Bruce Andrews. O nome do jornal tornou-se o termo que passou a nomear um movimento de poetas que trabalham com uma estética que privilegia a linguagem, o som, e a forma que o poema aparece na página.

É desde a década de 70 a grande força inventiva da Poesia Americana Contemporânea.

Esteve no Rio de Janeiro a caminho de S. Paulo e Campinas, onde participou do Encontro Internacional de Poesia “Tempo de Guerra e Banalidade” organizado por Régis Bonvicino & Alcir Pécora.

 

 

 

Transcrevo alguns versos do poema “Reading the Tree: 2 do livro Rough Trades (1991), recebido em mãos for exchange.

São alguns fragmentos, em versos de muitas vozes (às vezes linhas distorcidas), escritos a partir de uma antologia de seus contemporâneos. Páginas 37, 38, 40.

 

 

“Meus recifes, minhas árvores caíram.

Então o leitor lota a página

com a pressa das idéias: um portátil

altar amarrado em suas costas, acenando

fábulas e rostos e manobrando

entre pontos, furos em nuvens,

condensando em direção a um rastro de tinta.

 

(...)

 

Eu costumava ser Americano mas agora só  

falo inglês.

 

(...)

 

(Toda experiência é condicionada por esperança.)

& meus sentimentos anseiam por nomes conhecidos

somente por intervalo e tom. Os pontos

conectam uma vez só. Eu venho

até a porta, paro na porta, eu

empurro a porta aberta.”

 

 

 

 

 

 

 

Solange Rebuzzi é carioca, poeta e psicanalista. Publicou entre outros: Leminski, guerreiro da linguagem (ensaio, 2003) e Leblon, voz e chão (poemas, 2004), ambos pela editora 7Letras. E-mail: solrebuzzi@uol.com.br

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