Café Literário Cronópios

Passeando por Andara
por Vicente Franz Cecim



 


Lúcidos delírios
por Ray Silveira




Essa essa é do Eça
por Ray Silveira




Os vendedores de humilhações
por Ray Silveira




“Printed Newspapers Are Dead!” Will books be the next ones?
por Ray Silveira




Adoro corações femininos
por Ray Silveira




Vaso vazio
por Ray Silveira




O último dia
por Ray Silveira




Check-Up
por Ray Silveira




Compulsão
por Ray Silveira




Sede
por Ray Silveira




O fabricante de espelhos
por Ray Silveira




A possuída
por Ray Silveira




Xadrez
por Ray Silveira




Amadadama
por Ray Silveira




Sete Dias Como Outros
por Ray Silveira







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


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Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
16/07/2006 18:05:00 
A Valsa


Por Ray Silveira

 

Mais de uma hora à espera. À frente, uma parede. O monstrengo estacionado atrás. Dentro, uma velha gravemente enferma defecando deitada. O motorista se recusa a retirá-lo. Você pensa em agredir, apanhar as chaves e dar marcha à ré. Mas teme as conseqüências: e se a velha morrer? O automóvel não tem como sair. Não há outro transporte. Mesmo sendo o último ato da minha vida, mato este cachorro. Misturação de ódio, frustração e desesperação. Explosiva salada. Você é médico e saiu do baile dos quinze anos da filha única, para vir assistir um parto salta-caroço. Voltaria para a valsa, à meia-noite. O hospital – de porte médio - fica na zona rural. Não passam automóveis. Não passam carroças. Não passam animais. Não passa nada. Não há passado, nem futuro. Só agoridade. Vontade de voar.  Penso em ir a pé. O clube é distante. Mesmo correndo, não haveria como chegar atempado. Os telefones não fazem chamadas; só aceitam. Subo ao primeiro pavimento. Deve haver uma saída; tem de haver. Cascatas de suor despencam pelo muro abstrato de concreto do meu corpo. Doem as batatas de ferro das minhas pernas. Pensa na filha, desde quando nasceu. O começo de uma época menos desinfeliz. Aquele baile, especialmente aquela valsa, seria o apogeu. Telefone para o senhor. Não há como sair. Se não estiver aí à meia-noite, mate todo mundo, mas postergue a valsa. Chame ela. Você tem de vir, pai. Há mais de um ano sonho com isso... Hei, peraí! Desligam. Desligo também o controle remoto do meu agitado coração... Não lembrei de pedir para mandarem um táxi. Tenho de voltar no tempo. Continuar na ligação. Como, não é possível?  Caminho sem destino pelas enfermarias. Subo e desço escadarias. Se ficasse parado, a sensação de impotência me implodiria. Caminhando, tem-se a impressão de tudo se resolver espontaneamente. Entro na geringonça. Como supunha, não há chave na ignição. Procuro o motorista. Evadiu-se. Evaporou. Volto para a cabine e ponho a alavanca em ponto morto. Tento empurrar sozinho. Há um aclive. A sucata nem se move. O marido reclama, a neta grita, a velha geme. Volta a pensar na filha. A infância, um misto de alegrias e tristuras. O primeiro papá. Os aniversários; os parabéns pra você; os natais; papai-noel; a mãozinha acenando nas horas de ir para o trabalho. As diarréias, desidratações; as crises de garganta, as febres... a convulsão. Penso nos pais das outras debutantes. Gozando a minha aflição. Aquela malícia involuntária e quase inconsciente quando se assiste à dor ou ao ridículo de outrem. Conversam baixinho, apenas entre si. Não têm coragem de admitir a felicidade maliciosa. Não acreditam ser possível acontecer, porque lhes repugna a consciência. Ponho-me nas suas peles e tento me imaginar em situação idêntica. Nunca senti qualquer prazer com o sofrimento dos semelhantes. Não sou melhor. Certamente, há outros defeitos do caráter que eu tenho e eles não.  Mas vesti uma couraça contra opiniões e apreciações de terceiros. Assim como não me rejubilo diante do infortúnio alheio, também não dou a mínima para os seus sentimentos a meu respeito. Passa da meia-noite. Sente e vê a impaciência e a intolerância dos pais das moças. São legiões de fantasmas caminhando no seu encalço a zombar e a injuriar: Quem mandou sair? Não podemos esperar o senhor ganhar dinheiro a essa hora da madrugada e cometer o abuso e o absurdo de nos fazer esperar. Essa idéia obceca e é mais dolorosa do que a própria angústia do impasse. A ansiedade da impotência. Escuta vozes: Pai, não vou pedir para atrasar ainda mais. Há pessoas para substituí-lo. Que valsam muito bem. Que seriam melhores pais e a quem preferiria a você, ainda que estivesse aqui. Por favor, mande esperar mais um pouco. Uma hora e trinta, pai, não dá mesmo... Primeiro dia de aula. Primeiras provas. Primeiro boletim: Matemática, sete. Português, sete. História, sete. Geografia, sete... Em cada nota, que depois volta, o sete da infância que não volta mais. Saio do pátio de estacionamento e caminho à toa no negrume da noite. Logo, cai uma tempestade. Meu traje a rigor encharcado de água; e de lágrimas, a minha alma. Vestida de branco, caminhando sob o aguaceiro, mas sem se molhar, diviso a minha filha vindo ao meu encontro. Corro para ela e abraço o vazio. Todavia, está ao meu lado. Veja, pai, a minha roupa como está linda. Meus amigos se cotizaram e me deram. Veja a grinalda de brilhantes, por mim tão desejada, e você não quis pagar: Presente do pai do meu namorado. Veja os sapatos de Cinderela, doados por uma amiga. Veja a filha que não tem mais, pois o meu último desejo era dançar a valsa dos quinze anos, mas você preferiu o seu trabalho. E desaparece. As trovoadas são fantasmagorias urrando a minha dor. Apenas o lampejo dos raios interrompe as trevas, por alguns segundos. O ar enregelado se move transformado num vento frio soprando e assobiando sem cessar. Volto para o hospital. Imaginou uma saída desesperada: tentar passar por cima do veículo de trás custasse o que custasse. Quem sabe, voando. Essa absurdidade se torna compulsiva. Entra no próprio automóvel, liga a ignição, acelerando ao máximo o motor e engrenando a ré. Solta a embreagem. Em vez de voar, o automóvel colide com o detrás. Gritos. Um esqueleto, recoberto de carnes podres, sai do veículo e parte na sua direção com uma ceifadeira ao ombro. Vai para o banco traseiro e se encolhe. Coluna vertebral recurvada; queixo encostado ao tórax; coxas e pernas fletidas sobre o tronco; braços abraçando braços. Alfa estreitando ômega...

 

 

 

 

 

 

Raymundo Silveira é médico e escritor. E-mail: raysilveira@secrel.com.br http://raysilveira.zip.net/
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