Café Literário Cronópios

Os vórtices e vértices de W. B. Yeats
por Luis Dolhnikoff





 
MEZANINO


É isso aí, picho!
por Mathilda Kóvak




Chacrinha, buscapé e imbecybers
por Mathilda Kóvak




Flor Bella Espanca Que Eu Gosto
por Mathilda Kóvak




Páscoa com conteúdo
por Mathilda Kóvak




Passamentos
por Mathilda Kóvak




Dando férias ao ego
por Mathilda Kóvak




Apesar de você
por Gabriela Kimura




Samba e fúria, fado e credo, gozo e remelexo
por Gabriela Kimura




Desabamento (na falta de melhor perspectiva)
por Gabriela Kimura




O inferno de Dante, antes
por Gabriela Kimura




Um passeio pelo bosque da repetição
por Gabriela Kimura




Um horizonte cortado ao meio – Impressões sobre Leo Gilson Ribeiro & Bento Prado Junior
por Nilson Oliveira




Atravessar o deserto negro dessa página
por Nilson Oliveira




O Observador do litoral: a retina atravessada em constelação de saliva
por Nilson Oliveira




No limiar do ocaso: impressões sobre o ano literário
por Nilson Oliveira







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
11/01/2007 22:35:00 
Atravessar o deserto negro dessa página


Por Nilson Oliveira

 

 

Livros pra serem furtados...
Folha de S. Paulo - 5/1/2007 - por Rubem Alves
O roubo é um estímulo poderoso. Santo Agostinho roubava pêras do vizinho só pelo prazer de roubar. Eu mesmo roubei pitangas e, para realizar meu furto, inventei uma maquineta de roubar pitangas. Meu desejo de roubar me fez pensar. Todo pai, mãe e professora ficam atormentando as crianças e adolescentes para ler. Comportam-se como o agente do governo tentando ensinar os caipiras. Mas eles não querem ler. Ler é chato. Livro que se deseja ler são os livros proibidos: precisam ser roubados. Era assim quando eu era pequeno. A gente roubava o livro proibido e ia atrás das passagens mais escabrosas. (postado por Cronópios, São Paulo, em 9/1/2007)

 

 

"Ler é chato. Livro que se deseja ler são os livros proibidos"?
Será? Acho que nessas - como em outras - questões não tem regra, não. Tive um pai ultra liberal, dono de uma vasta biblioteca franqueada a mim desde cedo, sem censura, o que me fez ler "só tudo", todos os clássicos, digo, antes dos 22 anos, quando saí de casa. E a continuar a fazê-lo, com prazer, pela vida afora. (postado por Ana Guimarães, Rio de Janeiro, em 9/1/2007)

 

 

Esses relatos, postados ao longo da semana no café, evidenciam experiências que trazem à tona pontos de vistas diferenciados em relação à leitura. Ambos por si relevantes. Nos lançam a alguns questionamentos: O que é ler? Quais forças se ativam no momento da leitura? Que livro não se pode ler?  O que é um livro proibido?

 

No curso dessas questões nos lançamos adiante...

 

Na literatura, a leitura é tão fundamental quanto a escrita, pois é a leitura que reconhece o livro, a sua força, suas cintilações. A leitura atravessa o livro arrastando seus abismos, como nos diz Blanchot: “A leitura faz do livro o que o mar e o vento fazem da obra modelada pelos homens: uma pedra mais lisa, o fragmento caído do céu, sem passado, sem futuro, sobre o qual não se indaga enquanto é visto. A leitura confere ao livro a existência abrupta que a estátua parece reter do cinzel: esse isolamento que a furta aos olhos que a vêem, essa distância altaneira, essa sabedoria órfã; que dispensa tanto o escultor quanto o olhar que gostaria de voltar a esculpi-la”[1]. Só o leitor tem a força para legitimar a escrita à condição de obra de arte, só ele pode  manter com ela uma intimidade, desejante, que recusa a qualquer custo reconhecer o livro fora de qualquer conceito que não seja o de obra de arte.

 

Ler não tem outro objetivo senão o da própria leitura.

 

Kafka não lia nada que não fosse literatura, Walter Benjamim tinha obsessão por livros infantis; Cioran colecionava autores obscuros; Maurice Barres naufragava nos textos eróticos; para Pound a leitura era um austero programa de obras e autores essenciais; Dostoievski, enquanto esteve preso, leu a bíblia um sem número de vezes.

 

Não existe conhecimento ou livro proibido, na literatura qualquer leitura é possível, todo livro é um campo aberto de possibilidades.

 

O Livro está aí, não só na sua realidade de papel e impressão, mas também na sua  natureza de livro, esse objeto de significações estáveis, que cria e recria comunidades a sua volta. Só a leitura toma o livro pelo o que ele é, só ela o dignifica, seja como: objeto, coisa ou obra de arte   

 

O leitor envolve a si próprio e vê-se envolvido pelo livro, desenvolvendo, na experiência da leitura, uma capacidade de se aperceber no próprio envolvimento, se lançando com isso a uma realidade diferencial de experiência estética. A leitura surge deste modo, como um ser viscoso que se estende muito além da realidade tipográfica do livro. A leitura tem como condição a legibilidade do texto escrito, que age sobre o emissor transformando-o no primeiro leitor-destinatário, guiando-o à escrita, tendo como constante a leitura. Não esta ou aquela leitura, prescrevendo este ou aquele sentido, segundo um entendimento passível de negação ou afirmação, mas executando sua tarefa essencial de constituir prazer, sabor, viagens, como acompanhamos nas páginas de Bruno Schulz: “Inclinado sobre este livro, de rosto flamejante como o arco-íris, eu ardia em silêncio entre um e outro êxtase. Ao mergulhar na leitura esquecia-me do almoço. A intuição não me enganou: era um livro verdadeiro, original, sagrado”[2].   

 

A leitura não apenas liberta o leitor da sua realidade cotidiana, como, arrasta-o  para outras realidades, além do próprio livro, produzindo experiências que estão fora dos seus hábitos: o interesse principal de um texto reside não no seu sentido mas no seu efeito. É a partir  dessas experiências que é possível pensar a função da literatura.

 

Ler, ver e ouvir a obra de arte exige mais ignorância que saber, exige um saber que se nutre de uma imensa ignorância e um dom que não é dado de antemão, que é preciso cada vez receber, adquirir e perder no esquecimento de si mesmo. E depois de consumida, essa escrita evapora sem deixar rastro, sem formação, sem nada. Só o silêncio.

 

A leitura em esfera de sucessiva continuidade alcança a intimidade do hábito; Como nos diz Becktt: “O habito é o lastro que acorrenta o cão ao seu vômito. Viver é um hábito, respirar é um hábito”[3]; o hábito faz parte da vida daquele que lê, assegura o tempo da leitura. Ler literatura é entregar-se ao delírio desta possibilidade, é mergulhar no fascínio enquanto o texto é consumido, digerido sem economia.

 

No espaço literário, a leitura é tão fundamental quanto a escrita, pois é a leitura que reconhece o livro e, como diz Ney Ferraz Paiva: faz “Atravessar o deserto negro dessas paginas” [4]








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[1] Maurice Blanchot. Espaço Literário, roco, 1991.
[2] Bruno Schulz,. Sanatório. Imago, 1994
[3] Samuel Becktt. Proust, Cosac & Naify, 2003
[4] Ney Feraz Paiva. Nave do nada. Fundação. C.R, 2003

 

 

 




 

Nilson Oliveira, editor da revista Polichinello, autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão (edições IAP 2007) E-mail: nilson_olliveira@yahoo.com.br

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