Esses relatos, postados ao longo da semana no café, evidenciam experiências que trazem à tona pontos de vistas diferenciados em relação à leitura. Ambos por si relevantes. Nos lançam a alguns questionamentos: O que é ler? Quais forças se ativam no momento da leitura? Que livro não se pode ler? O que é um livro proibido?
No curso dessas questões nos lançamos adiante...
Na literatura, a leitura é tão fundamental quanto a escrita, pois é a leitura que reconhece o livro, a sua força, suas cintilações. A leitura atravessa o livro arrastando seus abismos, como nos diz Blanchot: “A leitura faz do livro o que o mar e o vento fazem da obra modelada pelos homens: uma pedra mais lisa, o fragmento caído do céu, sem passado, sem futuro, sobre o qual não se indaga enquanto é visto. A leitura confere ao livro a existência abrupta que a estátua parece reter do cinzel: esse isolamento que a furta aos olhos que a vêem, essa distância altaneira, essa sabedoria órfã; que dispensa tanto o escultor quanto o olhar que gostaria de voltar a esculpi-la”[1]. Só o leitor tem a força para legitimar a escrita à condição de obra de arte, só ele pode manter com ela uma intimidade, desejante, que recusa a qualquer custo reconhecer o livro fora de qualquer conceito que não seja o de obra de arte.
Ler não tem outro objetivo senão o da própria leitura.
Kafka não lia nada que não fosse literatura, Walter Benjamim tinha obsessão por livros infantis; Cioran colecionava autores obscuros; Maurice Barres naufragava nos textos eróticos; para Pound a leitura era um austero programa de obras e autores essenciais; Dostoievski, enquanto esteve preso, leu a bíblia um sem número de vezes.
Não existe conhecimento ou livro proibido, na literatura qualquer leitura é possível, todo livro é um campo aberto de possibilidades.
O Livro está aí, não só na sua realidade de papel e impressão, mas também na sua natureza de livro, esse objeto de significações estáveis, que cria e recria comunidades a sua volta. Só a leitura toma o livro pelo o que ele é, só ela o dignifica, seja como: objeto, coisa ou obra de arte
O leitor envolve a si próprio e vê-se envolvido pelo livro, desenvolvendo, na experiência da leitura, uma capacidade de se aperceber no próprio envolvimento, se lançando com isso a uma realidade diferencial de experiência estética. A leitura surge deste modo, como um ser viscoso que se estende muito além da realidade tipográfica do livro. A leitura tem como condição a legibilidade do texto escrito, que age sobre o emissor transformando-o no primeiro leitor-destinatário, guiando-o à escrita, tendo como constante a leitura. Não esta ou aquela leitura, prescrevendo este ou aquele sentido, segundo um entendimento passível de negação ou afirmação, mas executando sua tarefa essencial de constituir prazer, sabor, viagens, como acompanhamos nas páginas de Bruno Schulz: “Inclinado sobre este livro, de rosto flamejante como o arco-íris, eu ardia em silêncio entre um e outro êxtase. Ao mergulhar na leitura esquecia-me do almoço. A intuição não me enganou: era um livro verdadeiro, original, sagrado”[2].
A leitura não apenas liberta o leitor da sua realidade cotidiana, como, arrasta-o para outras realidades, além do próprio livro, produzindo experiências que estão fora dos seus hábitos: o interesse principal de um texto reside não no seu sentido mas no seu efeito. É a partir dessas experiências que é possível pensar a função da literatura.
Ler, ver e ouvir a obra de arte exige mais ignorância que saber, exige um saber que se nutre de uma imensa ignorância e um dom que não é dado de antemão, que é preciso cada vez receber, adquirir e perder no esquecimento de si mesmo. E depois de consumida, essa escrita evapora sem deixar rastro, sem formação, sem nada. Só o silêncio.
A leitura em esfera de sucessiva continuidade alcança a intimidade do hábito; Como nos diz Becktt: “O habito é o lastro que acorrenta o cão ao seu vômito. Viver é um hábito, respirar é um hábito”[3]; o hábito faz parte da vida daquele que lê, assegura o tempo da leitura. Ler literatura é entregar-se ao delírio desta possibilidade, é mergulhar no fascínio enquanto o texto é consumido, digerido sem economia.
No espaço literário, a leitura é tão fundamental quanto a escrita, pois é a leitura que reconhece o livro e, como diz Ney Ferraz Paiva: faz “Atravessar o deserto negro dessas paginas” [4]
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[1] Maurice Blanchot. Espaço Literário, roco, 1991.
[2] Bruno Schulz,. Sanatório. Imago, 1994
[3] Samuel Becktt. Proust, Cosac & Naify, 2003
[4] Ney Feraz Paiva. Nave do nada. Fundação. C.R, 2003