13/02/2007 22:10:00
Pirex sed lex
Por Caetano Waldrigues Galindo

Pois então muito bem então.
Consultando cá meus infindáveis alfarrábios (preciosas cadernetas em que tomo notas de toda e qualquer dúvida ou resposta iluminadas que me ocorram [tá certo, na verdade é um parmtop, um PDA, mas me diga, qual que é o glamour de dizer que consultei as notas em um z22 vagabundíssimo? As pessoas, afinal, continuam falando em coisas como “gavetas de guardados”... ]), selecionei para o mês de fevereiro um campo que me interessa loicamente.
Loucuras.
Acho que já falei alguma vez que tenho um tesão mortal por aquela definição do velho Nietzche (na cidade em que você mora tem aqueles carrinhos que vendem nozes doces de uma franquia chamada Nutty Bavarian? Meu irmão diz que não consegue ver a marca sem pensar no bigodão do velho N... Entenda quem entender, fazer o quê..?); aquela de que as palavras são apenas metáforas gastas..
Nessa de brincar com etimologias a gente encontra com imensa freqüência metáforas e metonímias de um poder insonhado pela quase totalidade dos poetas.. E obviamente essas coisas ficam mais loucas e mais divertidas quando a gente entra no domínio das qualidades mais abstratas.
Já falei por aqui dos descaminhos dos adjetivos que tem a missão de dizer que alguma coisa é bonita. As línguas escolhem caminhos, que com freqüência dizem muito sobre os conceitos que regem cada civilização em cada momento.
O velho Wittgenstein, quem diria?, tinha razão. Se a gente prestar bastante atenção em “o que” a gente diz, a gente resolve muitos dos problemas filosóficos, bem como cria muitos outros. (Pra quem não sabe, ele diria que era menos interessante pensar “o que é o belo” do que verificar “quais usos os falantes efetivamente fazem da proposição X é belo”.)
Mas e a loicura lá do alto, amigo lapão?
Então.
Hoje ficamos com palavras que indicam loucura. E acho que vai dar pra encontrar esses mecanismos, essa poesia (com o perdão da breguice; não consigo deixar de ver tipo o Emílio Santiago quando alguém usa a palavra desse jeito), essas iluminações.
Louco, mesmo, é um começo frustrante. Palavra de origem desconhecida.. hmpf.
Mas tem mais. Louco nunca faltou.
Lunático é bem óbvio, não? Especialmente se a gente lembra que os antigos estúpidos efetivamente acreditavam que as fases da lua agiam sobre nosso comportamento e eram capazes de criar crises em pacientes com problemas mentais. Quem já não ouviu aquela lorota sobre o aumento no número de crises violentas em hospícios durante tal ou qual fase da lua?
Prestaram bem atenção nas palavras estúpidos e lorota?
Ando de saco cheio de astronomias e crendices tipo cortar o cabelo segundo o calendário lunar. Coisa de lunáticos.
Como curiosidade à parte, fica que o inglês, que usa a palavra germânica moon para o satélite (apesar de quê, se você for tipo fazer um exame de DNA em moon você vai descobrir que ela é prima distante do latim mensis, que deu o nosso mês.. e lembre que os romenos, por exemplo, chamam mês de luna), mesmo assim manteve lunatic e o mais usado looney, que nada mais é que uma corruptela popular do latinismo pedantesco. Quem não lembra dos desenhos Looney Tunes?
(Viu? Na minha modesta, até na mais transparente das etimologias tem coisa pra ver.. cf o manifesto do mês passado)
Desvairado. Esse meteu um disfarcinho pra esconder a origem. Pena.
A palavra foi primeiro documentada em espanhol, sob a forma desvariado.
Não é lindo? Não tem a cara do Riobaldo?
E lembre do substantivo desvario que você insistia em escrever desvairio... Agora faz sentido.
Delirante também é bom. Acho que todo mundo conhece essa (até por isso eu gosto de ficar com as menos coloridas e fuçar nelas pra achar interesse), mas vai mesmo assim.
Pois que a lira em questão era, em latim, o sulco da charrua do arado. Quem delirava, ou seja, desviava da lira, eram os bois mais doidos. Daí o sentido que a gente ainda mantém de delírio não apenas como alucinação mas também como desvio do padrão normal. Uma idéia delirante.
De doido a gente já tratou em conexão com o nome do dodô. A origem da própria palavra, no entanto, é coisa de louco. Quer ver? Ó só o que diz o Houaiss:
do galego-português doudo `louco, alienado, demente, extravagante` de orig. contrv.; há os que remetem ao ang.-sax. dold (> ing. dolt `tolo, bobalhão`), cuja der. fonética e semântica é aceitável, mas o emprt., de difusão pelo vulg., é historicamente improvável (dada a maior expressão política e econômica de Portugal na época); Corominas, no entanto, sugere *tollitus (< lat. tollère, ver tolh- ) > *toldo > doudo, com assimilação da sonoridade; é possível, ainda, ampliando a primeira hipótese, que o galego-português doudo remonte a uma raiz i.-e. *dheu- `fumaça`, daí `obscuridade provocada pela fumaça ou por tudo mais que afetasse os sentidos`, de que derivam o ang.-sax. dold, o gaél. doit, o ing. doted e sua var. doited `maluco, senil`
Mole?
Pirou?
Aliás, pirar é provavelmente de origem români (a língua dos roma, ou ciganos). Originalmente queria dizer fugir.. E eis a metáfora do delírio de novo..
Quer ficar maluco? Bom. Tem quem diga que a palavra vem do adjetivo espanhol malo (o nosso mau), ou mesmo do substantivo mal, o que meio que espelha a formação de in-sano: ambos quereriam dizer doente, aquele que não está bem. Aliás, louco em romeno é literalmente não-bom: nebun.
Mas mais divertida é uma terceira hipótese, tão (im-)provável quanto as outras (pode portanto sair contando pros amigos, desde que com o devido crédito a este que vos..), que liga (a hipótese) a palavra às ilhas Molucas, na Indonésia, anteriormente chamadas efetivamente de Malucas, e à impressão, digamos, pouco amistosa que os nativos causaram nos portugueses quando estes foram malucos o bastante pra dar a cara por lá.
Uma última, bacana.
O latim sidus, acusativo siderem, queria dizer “astro, corpo celeste”. E os tatus (atenção..) dos romanos ainda pensavam que os astros eram o destino. Daí a gente ter até hoje, ao lado de coisas mais previsíveis, como sideral, o adjetivo siderado, com mais ou menos a mesma trajetória, portanto, de lunático.
Mais que isso, quando eles pensavam e consultavam os astros para ver o que fariam eles diziam que estavam considerando.
Já quando lamentavam o que os astros haviam decidido (ou o que eles inocentemente atribuíam a uma decisão dos astros, como nos cabe dizer nessa era de razão) e só lhes restava esperar que as coisas mudassem, eles diziam que estavam contrariando os astros, ou seja desiderando...
Legal?
Té pra mais.
Té pro mês.
Caetano Waldrigues Galindo é professor de lingüística histórica na Universidade Federal do Paraná. Já publicou traduções do romeno (Lucian Blaga) e do inglês (Djuna Barnes e Charles Darwin. No prelo: Saul Bellow e John Gay). É o pierremenárdico autor de uma tradução inédita do Ulysses, de James Joyce. Contato: olapaonahileia@hotmail.com |