Café Literário Cronópios

A visitadora
por Frederico Füllgraf





 
MEZANINO


É isso aí, picho!
por Mathilda Kóvak




Chacrinha, buscapé e imbecybers
por Mathilda Kóvak




Flor Bella Espanca Que Eu Gosto
por Mathilda Kóvak




Páscoa com conteúdo
por Mathilda Kóvak




Passamentos
por Mathilda Kóvak




Dando férias ao ego
por Mathilda Kóvak




Apesar de você
por Gabriela Kimura




Samba e fúria, fado e credo, gozo e remelexo
por Gabriela Kimura




Desabamento (na falta de melhor perspectiva)
por Gabriela Kimura




O inferno de Dante, antes
por Gabriela Kimura




Um passeio pelo bosque da repetição
por Gabriela Kimura




Um horizonte cortado ao meio – Impressões sobre Leo Gilson Ribeiro & Bento Prado Junior
por Nilson Oliveira




Atravessar o deserto negro dessa página
por Nilson Oliveira




O Observador do litoral: a retina atravessada em constelação de saliva
por Nilson Oliveira




No limiar do ocaso: impressões sobre o ano literário
por Nilson Oliveira







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
15/04/2007 01:17:00 
Flor Bella Espanca Que Eu Gosto


Por Mathilda Kóvak




      Nem o derretimento das calotas polares será capaz de operar inundação tão devastadora quanto a que minhas lágrimas irão produzir, aqui neste Mezanino, ao experimentar o peremptório fim de meu mandato. Despeço-me com pesar e apesar de inúmeros rogos à minha permanência. Contudo, o niagara aqui vertido e controvertido não será em vão. Saio do Mezanino para entrar na história do Cronópios, graças a vocês, escribas e leitores, que se ocuparam de ler-me, durante quatro semanas. Merci beacoup!

 

    João Gilberto, aquele cantor que defendia uma música intitulada “O pato”, que deveria, a bem da verdade, se chamar “O chato”, não conseguia vender discos imitando Orlando Silva. Aí, alguém lhe aplicou Chet Backer e Henri Salvador, e ele achou que parecia bossa nova, um gênero criado por Dóris Monteiro e Dick Farney, estes, sim, autênticos e originais, e copiou os dois, na maior cara de pau. De todo modo, ele, o João, enfandonho de ouvir, tinha seus momentos de perspicácia. Um deles foi quando disse que, no Brasil, até os canários cantavam desafinado. Ele mesmo um canário que não primava pela afinação. Outro instante, a ser evocado, foi quando admitiu que o artista pode ouvir as críticas mais positivas do mundo. Porém, vai ser daquela que o reduz a pó de que ele se lembrará pelo resto da vida. 

     Semana retrasada eu estava algo Márcia de Windsor, distribuindo nota dez a torto e a direito. E meu mezanino indulgente foi praticamente ignorado. Foi só eu descer o sarrafo, para que o Café Literário, que fica aqui, bem debaixo do meu nariz, se pronunciasse, tanto para bem quanto para mal. Bastava eu dirigir meus olhos irritados e irritadiços às mesas, pra identificar toda sorte de objetos voadores pra lá e pra cá, até perceber que, malgrado o fogo cruzado se desse entre os comensais, o alvo não era senão eu mesma. A-do-rei! E, graças a meu estágio no showbicha, onde assava marshmellows na fogueira das vaidades, com uma mão, e fazia esgrima, com o espeto, na outra, consegui me defender dos petardos destinados a meu rostinho bonito que, ao contrário do de Chico Buarque, como alguém pontuou, não é ordinário. Do mesmo modo, acolhi com felicidade elogios, de escribas inteligentérrimos, de pena e saco cheios das baboseiras proclamadas neste café. Ou o café é descafeinado, ou tem cafeína além do figurino. Basta! Basta! Por que não discutimos os efeitos do efeito estufa sobre a literatura?! Ou que gêneros literários espocarão no cyberspace, além daqueles que já nos são conhecidos. Haverá literatura após a morte?! Haverá literatura, depois que as calotas polares derreterem?! Quem lerá nossa criação literária: mamífero, ovíparo, animal, vegetal ou mineral?! Será que o livro de um escritor ignaro, depois de nosso desaparecimento iminente, será confundido com a Bíblia?! Será que foi isto o que aconteceu com Jeová?! Há tanto o que se pensar neste momento em que gozamos do mesmo privilégio que o homem de Neandertal às avessas: em vez de alvorada, o arrebol do crepúsculo... Resultado: fui obrigada a confessar a um de nossos colaboradores que não sou crítica literária, nem escritora, nem poeta. Sou profeta. Li Sergio Sant`Anna antes de ser editado, numa cópia xerox, que me foi entregue por uma amiga comum, Joice Niskier, que me dizia: "olha só. Sua alma gêmea.” O que vocês comentam hoje, no Café, passou por mim, séculos antes. E o que vocês irão descobrir, daqui a 20 anos, leio agora, não raro, manuscrito. Sem precisar me mover, porque me cai às mãos, espontaneamente. Não preciso de saber enciclopédico. Dispenso a academia (de ginástica) das letras. Não sou atleta do conhecimento. Sou a palavra que, lançada ao zéfiro dos tempos, nos mares das circunavegações cibernéticas, vira maremoto e movimenta as águas paradas das discussões bizantinas. E não é o deus Narciso em mim que ora se manifesta. É Zeus, que me concede a autoridade tácita e intrínseca da loucura.

 

 

Momento Clodovil

 

    Mas é claro que disse isto em estado colérico. Imagine que até ser acusada de estar na TPM eu fui. E eu nem fui agressiva, nem nada. Sempre postulei que emails, textos internáuticos, em geral, deveriam vir com rubrica. Assim, saberíamos se nossos interlocutores estão ou não com a cachorra, ou com a macaca, ou com o ovo virado. Eu sou doce como o Pão-de- Açúcar. Flexível como um trampolim. E mudo de opinião, porque, dizia Paulo Francis, que alguém pichou no Café, só os idiotas não mudam de opinião. Agora, tenho sangue lusitano e ímpetos de Maria da Conceição Tavares. Entretanto, tenho igualmente meu coté Clodovil. Picho, mas volto atrás e peço desculpas, se soei desrespeitosa. Desrespeitar, para mim, é omitir. 

     Tentei explicar para o Carlos Emílio, por exemplo, que sou também Emília, Marquesa de Rabicó, e que faço personagens, como este aqui. Eu, na real, sou mais complacente do que o hímen de certas mulheres.

 

 

Soçaite das letras

 

     Depois de conhecer artistas alternativos, artistas mainstream, escritores marginais, escritores inseridos no soçaite, cheguei à mesma conclusão que Normam Mailer pescou: a única diferença entre ricos e pobres é que os ricos têm mais dinheiro.

     Ou seja, pode ser cronópio, pode ser fama, que a lenga-lenga é a mesma. Somos poços de vaidade. Não estou livre dela. Calço, vez por outra, os escarpins da humildade, mas é puro fingimento. Modéstia não é o meu forte e é a fraqueza de todos nós que nos expomos à galhofa alheia, como dizia Drummond. Entretanto, o que me difere de alguns escribas é que não dou a mínima se me lêem ou não. O que convenhamos é o cúmulo do esnobismo. Mas do pecado da hipocrisia não sofro. Eu não desço do meu pedestal, melhor, mezanino. Quem quiser que suba. Agora, desconheço um sem número, ou número cem, de escribas, porque é impossível tomar conhecimento de tudo o que é produzido num universo de seis bilhões de pessoas. Diz Cortázar, em "Histórias de Cronópios e de Famas", "como os escribas continuarão, os poucos leitores que no mundo havia vão mudar de profissão e adotar também a de escriba. Cada vez mais os países serão compostos por escribas..." A democratização, melhor, a massificação do conhecimento gera a ilusão de que todos são escritores, poetas, artistas... E agora, com a internet, é o do it yourself. Acontece o que ocorreu em 80, na música. Foram centenas de bandas por semana. E não foram as melhores que permaneceram. Agora, serão milhões de escritores. Como ler?! Por que nós aqui devemos ser lidos, e o fulano ali da esquina, que pode ser muito superior, não?!  Não somos a elite, o escol... Somos iguais a qualquer escriba. Disse isto tudo ao Emílio. E comentei com ele que quase ninguém vive de literatura nos States. Onde, aliás, é muito mais difícil editar do que aqui. Morei lá e o problema é o mesmo. John Updike, que vende bastante, vive de palestras, por exemplo. Literatura não é profissão. Nunca foi e não será. Graças a Deus. Se for, mudo de ofício. Porque sou, como meu ídolo, Clarice, amadora. Que ama. E, como dizia Sócrates, "a prostituta vende amor. Se eu vender minha paixão, que é a filosofia, serei um prostituto." Ele não cobrava por suas aulas. Vamos viver de quê?! Não sei. Palestras, como fazia Wilde e outros. Sermões. Ou do mecenato, que bem podia voltar no neo-Renascimento em que, malgrado meu pessimismo ortodoxo, ainda creio. Editoras são empresas. Sempre foram. Nunca foi diferente. O que acontece é que o catálogo das editoras era mais talentoso porque o público também era mais talentoso. Somos testemunhas do triunfo dos imbecis de que falou Nelson Rodrigues.

       Mas que tal começarmos a parar de reclamar e agradecer a oportunidade de escrever num site maravilhoso, o mais bonito, do ponto de vista gráfico, e o mais interessante de toda a internet?! Eu acho um luxo. E tenho um livro no prelo da Rocco, por exemplo. Além de outros sete editados. Mas editora é uma mediocridade. Um celeiro de incompetentes. Não precisamos mais delas. Viva!!!! Temos o privilégio de ter Pipol e Edson, dois poetas de uma grandeza infinita. Pra que precisamos da cavalgadura das editoras para trotar, se temos esses dois talentaços, geniais, para nos ajudar a navegar, hóspedes de sua arca de Noé de fino cyber e saber?!

   Se fui tratada a coices por possíveis candidatos ao fardo do fardão, formados em literatura num provável curso da biblioteca nacional do exército, capitães de um novo gênero ou escola literários: o caudilhismo – o que não é o caso do Carlos Emílio; snif! Snif! Clô em ação – tive, outrossim, o privilégio de conhecer dois belos exemplares do gênero lítero-masculino: Edson Cruz e Pipol. Bem que São Paulo podia exportar este produto, raríssimo no mercado carioca. O mulherio ia fazer fila...

      Passamos a tarde de terça-feira juntos, num colóquio agradabilíssimo aqui neste que Groucho Marx chamaria de nada em suas formas mais violentas, o Rio de Janeiro. Bem, foi assim:

 

De Malarmé a Melamed

 

     Pensava eu no que disse Malarmé, que o artista nada mais é que um individualista, quando o telefone tocou e fui convidada para ir ao programa de Michel Melamed. Fui. Era uma semana muito difícil, a semana em que acompanhei o fim de minha querida Clarice Liztaylor. Mas, em meu discurso fragmentado, consegui falar sobre o Cronópios, com muito entusiasmo. Na semana seguinte, o Edson me escreve contando que ele e o Pipol haviam sido convidados. Trocamos alguns emails sobre a vinda deles. Achei um absurdo não pagarem passagem. Parece TV Globo. Mas a TVE vive no vermelho. Enfim, Edson e Pipol acharam que valia a pena ir às plumas, para divulgar o site.

      Almoçamos no Nova Capela, restaurante tradicional da Lapa carioca, que agora está os olhos da cara, como tudo nesta cidade cara e careta. Mas, enfim, era ao lado da TV e Pipol e Edson já haviam enfrentado a via crucis do traslado do aeroporto Antonio Carlos Jobim ao centro do Rio, encarando um trânsito alucinado e um motorista de mini-bus psicopata. Mais seguro não transitar pelas ruas esburacadas da cidade maravilhada. Sou, como tinha prevenido, a pior cicerone do Rio, porque detesto morar aqui e vivo pedindo asilo cultural na embaixada de São Paulo. Levo uma vida de Casper Hauser, trancada em minha torre. Raramente saio. Quando saio, sou agredida pelo calor tórrido da atmosfera e pela violência do cidadão local. Não me refiro ao bandido, que este é conseqüência de uma violência muito mais abrangente: a burrice. Não sei onde andam os Vinicius, os Stanislau Ponte Preta, os Millores... extintos, como animais em perigo, na savana da história, na tundra do esquecimento.

      O Vinicius, aliás, escreveu uma crônica sobre a vinda do Chaplin ao Rio. Ele desfilaria, em carro aberto pela Avenida Rio Branco, com papel picado jogado das janelas, fanfarras, multidões... Em uma semana, seria visto tomando chopp com uns gatos pingados na Cinelândia. E, em um mês, viraria mendigo. A crônica foi escrita na década de 40. Imagine agora, quando a miséria humana assassinou de vez a humanidade dos famas fodidos.

      De certo modo, Michel Melamed também foi vítima deste oba-oba carioca. Regurgitofagiou à larga, desfilou no andor das procissões carnavalescas das igrejinhas desta paróquia subdesenvolvida e, no ano seguinte, foi mais malhado que Judas, porque cometeu o pecado de escrever e encenar uma peça muito mais inteligente do que seu trabalho de estréia, este, muito manjado, de um experimentalismo avant-retagarde. Falo, sem pruridos do Michel, porque, se ele peca por ser carioca, ganha os céus por ser judeu. A cultura judaica é dona de autocrítica e capacidade de não se levar a sério. Assim, quando pichei “Regurgitofagia”, pro Michel, via email, ele me agradeceu e disse que ia pensar sobre o que eu havia dito. Talvez tenha pensado demais e feito a besteira de ser menos besta e mais anjo do apocalipse guanabarino, como lhe determina o nome.

     Agora, faz um programa para o qual fui convidada a ser roteirista, há tempos. E que carece mesmo de roteiro, porque Michel fica perdido ali, sem uma planta baixa em que se orientar. Ainda assim, Pipol e Edson se saíram gloriosamente bem. Esses caras têm que ter um pgm de TV, sobre literatura e arte. São geniais, fluentes, talentosos e bonitos. E não param de ser interessantes. Não estou puxando saco, porque não domino esta arte. Puxei-lhes, sim, as orelhas, semana passada, e eles receberam a crítica, como ela deve ser recebida, com bom humor, porque mau humor com bom humor se paga.

     Como se não bastasse, ainda tive a surpresa de ouvir o Edson cantar. Que maravilha! O cara, além de ser poeta de grande estatura, com livro imperdível no prelo, original e farto, ainda é popstar de responsa. Nunca POP. Pólo de pensamento contemporâneo?! Não deveria ser PPC, ou PPA?! Pólo do Pensamento Acéfalo, uma descoberta revolucionária da neurociência.

     Eu vejo todo mundo reclamar da falta de sensibilidade dos atravessadores da cultura. Mas o que eles não têm é tino comercial. Como é que deixam escapar uma mina de ouro feito o Edson? Mas eu disse que, com sua inteligência, ele não suportaria a cretinice do showbusiness, que de business não tem nada. É puro show-off.

     Mas, enfim, Pipol, que é um gênio, no início, disse que estava assim meio inibido etc e tal. Bastou ficar sobre os refletores... Refletores nada. Aquilo é luz de padaria. Bom, o cara arrasou. Foi de uma fluência e de um desembaraço, que conseguiram calar o Melamed, que ficou a cofiar a barba, admirando boquiaberto os interlocutores.

     Adorei quando o Edson deu umas alfinetadas, elegantérrimas, no apresentador, lembrando que lhe pedira um texto, na época de seus 15 minutos de fama, e ele ignorara o pedido. Deve estar arrependido. Mas ainda há tempo. Não entendi bem o que ocorreu, mas o Michel ficou melindrado, no início da gravação, com um comentário totalmente amigável do Edson, que foi obrigado a lembrar que estava tão disponível a ele, Michel, que pegou um avião, pagou passagem, e foi baixar ali naquela emissora empoeirada, que parece uma repartição pública, com holofotes de lâmpada de cozinha. Edson falou na suscetibilidade dos escritores. Mas atores são bem mais suscetíveis. Ator não pensa. Sente. Eles falam assim: “eu sinto que nós temos que chamar o bombeiro para consertar a torneira do tanque... eu sinto que devemos trocar a roupa de cama...” São fofos. Crianças gigantes. Mas estranhei, porque não é do feitio do Melamed esses melindres. Sabe-se lá se foi reflexo tardio da bomba de efeito retroativo do carnaval carioca, onde o divisei num bloco de cineastas, que devem ter filmado “A hora e a vez de Arnaldo Jaburro”, grande pensador contemporâneo do pólo do pensamento acéfalo. Quem nasce pra Jabor jamais será Zsa Zsa Gabor.

     Só sei que nossos editores tiraram de letra e de letras. Foram de uma educação, de uma cordialidade, de quem tem cidadania, de quem é cosmopolita, porque mora na cidade mais interessante da América do Sul e uma das mais charmosas do mundo: Sampa. Com seus contrastes, dificuldades, contradições... é uma puta cidade, meu.

     A gravação durou 40 minutos. Gozado, porque a minha durou umas três horas. O negócio é que eu passei a maior parte do tempo brigando com o Michel. Foi um verdadeiro telecatch. Só faltou o juiz Crispinho, pra arbitrar a luta livre. Mas depois trocamos afagos. E eu saí, mancando feito Verdugo. E ele continuou, à la Ted Boy Marino. (Edson, você acha oportuno colocar aquelas mãozinhas aqui pra explicar quem são esses tipos divinos de nossa cultura?!) Discutiu-se, aliás, as qualidades do hipertexto. Pipol, com seu wit, lembrou que são como notas de rodapé, o troço mais pentelho que um livro pode ostentar.

     Bom, não vou estragar a surpresa da entrevista. Foi rica, ágil, e a melhor que já vi no programa, embora eu nunca tenha visto nenhum, como é mesmo o nome?, “Recorte”. Sei que Luís Capucho gravou e ficou lacônico. Eu gravei em estado maníaco. E Edson e Pipol, em total harmonia das dissonâncias. Músicos, poetas, artistas gráficos, editores...

     É ou não é um privilégio ser editada por esta dupla?! Pra que editoras?! Mais tarde, deixamos a estação e, depois de penar por um táxi, única cortesia da casa, rumamos para a pérgula do outrora glorioso Hotel Glória, onde sorvemos um drink em copos de plástico, para espanto de Pipol, esteta e homem de gosto requintado. É mesmo o fim. Só no Rio de Janeiro. Uma baba por umas bebidinhas furrecas, servidas, ainda por cima, num copo que deve ter sido aproveitado de água mineral. Mas ali conversamos de um tudo, de Truffaut, que eu e Pipol amamos, a Bruna Lombardi, que quase destruiu Mario Quintana, mas que, depois dos drinks, resolvemos eleger a musa do Cronópios.

     Pipol tem idéias geniais sobre o que será o livro do futuro. Cada um de nós arriscou um palpite. Eu ainda acho que no futuro, quando não houver mais energia elétrica, vão aparecer com um livro impresso em papel, achando que é a invenção mais arrojada de todos os tempos. Mas nós não estaremos aqui para testemunhar. E já teremos editado muitos livros eletrônicos, sem precisar passar pelo calvário das editoras industriais.

  

 

T.S. Eliot Ness

 

     O site desta semana foi pura poesia. Uma ode a esta que é o silêncio da canção. Tavinho Paes nos brindou com sua proposta de desconstrução do poema, na era da reprodutividade tecnológica e sua conseqüente interatividade. Antonio Cícero deu um show na TV Cronópios que, diga-se de passagem, tem uma imagem de cinema, excelente. Cícero é muito bom poeta e homem de muitos conhecimentos. Além de ser uma simpatia. O show de Cícero prova que ele não precisa mais de showbusiness. Pode prescindir da irmã Marina e do Mano Caetano, porque lhes é infinitamente superior. Eu fiz muita letra pro supermercado fonográfico, mas, gente, por favor, não confundamos poesia com amaciante de roupa. Os tempos de Noel e Lamartine já se foram. Infelizmente. O lugar da poesia, agora, é outro.

    Quanto ao comentário de Cícero sobre o Brasil ser pobre em matéria de filosofia, lembro do que disse Nietzsche, que se tornou, em virtude da ganância de um psicanalista metido a escritor, o Sidney Sheldon do pensamento: “no futuro, os filósofos cantarão e dançarão.”

    Vi o Edson cantar. Ele é filósofo. Sua poesia é pura metafísica.

    Vejo Pipol, com seu talento Magrite encontra Terry Gilliam, e ele é poeta, filósofo, no baile de máscaras de sua estética a um só tempo clássica e insurgente.

    Leio excelentes poetas no Cronópios, que me surpreendem a cada instante. E eles, como Clarice, pensam com as coronárias. Mesmo que Adélia Prado tenha dito que o intelecto não deva habitar a poesia, e vice-versa, e eu concorde com ela, bom lembrar que os filósofos pré-socráticos, tão modernos, achavam que se pensava com o coração. Daí, decorar, saber de cor, de coração. E Clarice, helênica, nossa deusa grega ucraniana, crânio da Ucrânia, nos segreda outra vez o curso do pensamento na anatomia humana.

   

    E aqui me despeço, já soçobrada num oceano de lágrimas. Alguém aí no café, traga um rodo! E, em verdade vos digo, o lugar da poesia é aqui. Prelibo a todos nós, poetas, mesmo àqueles que ombuswomanizei, porque criticar, dizia Elia Kazan, é um ato de amor. E foi por e com amor que o fiz. Encerro meu mandato com um quase poema desta quase poetisa – vamos acabar com esse negócio de achar que o feminino é menor?! Ei-lo:

 

EQUILÍBRIO

 

Há dias

em que quero morrer

e isso às vezes dura anos.

 

Há dias

em que quero viver tudo

e isto, às vezes,

dura a vida.

 

Há dias

em que não quero morrer

nem quero viver.

 

Então, escrevo.

 

 

 

Beijos de sua Florbella Espanca Que Eu Gosto, a Eliot Ness que vai desabaratar os intocáveis de nossa cultura. Tenho dito. E tenho escrito. Sarah Vah!

 

P.S. E não falei do Cronopinhos. Que dizer?! É perfeito, irretocável, lindo... como diria minha amiga, Célia Biar: Maaaaaaaaaaaravlhoso! 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mathilda Kóvak é escritora, compositora, roteirista. Tem seis livros infantis editados e um sétimo no prelo - Rocco, além do livro "Contos da Era do Fax", Ed. Mondrian, e o CD "Mahatmathilda, a evolução de minha espécie". E-mail: madmath@uol.com.br

 

 

OBS.: Desnecessário dizer, que as observações contidas nesta coluna são de responsabilidade da autora.

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