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Coluna:
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Adeus à Ricardo Manuel
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Na hora do inventário
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A Poesia e Os Seus Paradoxos
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Artur Matuck
29/09/2007 23:36:00 
Adeus à Ricardo Manuel


Por Abreu Paxe

 

Já me recordo de Ricardo Manuel com saudades.

É verdade. Está comprovado. Nenhum ser vivente está em condições de evitar a morte. Ao que os latinos aludem mors certa hora incerta. Ela é intrínseca à própria condição humana.

 

Ricardo Manuel é uma figura que marca o meu percurso como poeta. Foi ele que me deu o primeiro aval sobre a minha condição de poeta dos que se seguiram. Bem dizer, foi com base nas suas amáveis palavras que comecei a acreditar no meu projecto literário, embora depois ele tenha passado a contestá-lo dizendo que eu escrevia para as gerações futuras, ou seja: para ele, aquilo que eu escrevia era tão difícil e constituía-se num projecto literário não para os leitores de hoje, mas para as gerações vindouras, sustentando esta sua posição com o seguinte argumento: olha para o Maimona, ele é um grande poeta, mas ninguém o lê, pensava ele.

 

Apesar de não estar de acordo com as suas posições continuei a frequentá-lo até onde e como pude. Aprendi muito com ele: incentivava-me à leitura, indicava-me obras para leitura como forma de aprimorar os parcos conhecimentos que possuía do fenómeno literário.

 

Como na altura não tinha condições para adquirir determinados livros ele oferecia-mos devidamente autografados por si .

 

Quantos encontros marcámos na BICKER, lugar onde tomava o pequeno almoço no período entre as 9H00 e 10H30m para falarmos da poesia. Confesso que foi para mim uma boa experiência como estreante num mundo tão turbulento como o da literatura. Pelo menos com base no que conversávamos pude saber como caminhar até que aos poucos  recebi os ténues sinais que me permitem perceber o fenómeno da poesia, não disse, simplesmente, poesia, mas disse fenómeno da poesia. Este fenómeno é que deve ser percebido para que estejamos preparados para os desafios que a poesia nos coloca.

E Ricardo Manuel de certo modo ajudou-me nessa empreitada, embora as assimetrias entre nós no seio da poesia, hoje, talvez seja por isso mesmo.

 

Ricardo Manuel, primeiro como livreiro, depois como homem de letras e terceiro como apoiante dos jovens iniciantes nas lides literárias, conseguiu ludibriar os fantasmas da morte. Negava-se, algumas vezes, a ser considerado cidadão Português pelos seus anos de Angola e pelo que fez por ela. Aí já coloca em conflitos os que confundem a identidade biológica do cidadão (autor) com a sua identidade literária, Ricardo Manuel é um exemplo paradigmático e Lucien Goldmann ensina-nos isso em sociologia da literatura.

 

Para terminar retomo o que Alda Lara já escrevia: “A eternidade é qualquer coisa a que não podemos fugir – tudo em nós interior ou exteriormente clama por uma perpetuação – então a eternidade é a resposta ...” ( Sic ). Lê-se no seu túmulo no cemitério da Camunda em Benguela. Ricardo Manuel que partiu para a eternidade já é recordado, com certeza, com saudades.

Que a terra lhe seja leve. Que a sua alma descanse in pacem.

 

 

 

 

 







 

 

Abreu Paxe nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe. Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), onde é secretário para as atividades culturais. Publicou A chave no repouso da porta (2003), obra vencedora do Prêmio Literário António Jacinto. No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR), Comunità Italiana (RJ), nas eletrônicas Zunai e Cronópios, e em Portugal, na antologia Os Rumos do Vento, (Câmara Municipal de Fundão). 
E-mail: pjairo8@hotmail.com
 

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