Café Literário Cronópios

A crítica literária no jornal e no livro
por Felipe Fortuna





 
Coluna:
VINHETA
Leda Tenório da Motta


A literatura de Machado não pinta o Brasil, mas a literatura
por Leda Tenório da Motta




A duquesa de Guermantes e Glorinha Kalil
por Leda Tenório da Motta




As artes plásticas vão à feira
por Leda Tenório da Motta




Detetives e Detetives
por Leda Tenório da Motta




O affaire Dreyfus
por Leda Tenório da Motta




A cara dos poetas
por Leda Tenório da Motta




Festa na floresta em Parati
por Leda Tenório da Motta







 


Carlos Emílio C. Lima


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Leda Tenório da Motta


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Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
09/10/2007 15:37:00 
Detetives e Detetives


Por Leda Tenório da Motta

 

         Num dos melhores contos de Edgar Alan Poe – “O diabo no campanário” –, um rapazinho, com uma aparência esquisita, certamente um estrangeiro, que, de longe, se poderia confundir com um diabrete, desponta no alto das colinas que circundam um pacato burgo holandês parado no tempo, onde ninguém nunca tinha pensado em investigar o que havia do lado de lá das montanhas, nem nunca tinha perdido a noção da hora, porque todos acertavam seu relógio pelo relógio do campanário da torre do Conselho Municipal.

         De repente, o diabinho evolui até o vale, perfeitamente circular, dirige-se para o meio da praça e, sem que ninguém possa impedi-lo, salta para a torre, onde dá um peteleco no sineiro e desregula os ponteiros do relógio, pondo-os nas treze horas, quando é cinco para o meio dia.

         O desarranjo é pequeno mas ... então .... o burgo enlouquece. As cozinheiras de avental se atrasam nas cozinhas com o chucrute, os maridos hesitam sobre se devem voltar para o almoço, os garotos não sabem se param suas brincadeiras...

          Divertindo-se visivelmente com essa balbúrdia poeticamente produtiva, o narrador de Poe escreve: “os relógios esculpidos nos móveis começaram a dançar como se estivessem enfeitiçados, enquanto os que se achavam sobre as chaminés mal podiam conter-se de furor e tão continuamente batiam às 13 horas, com tais pulsos e balanços de seus pêndulos, que era realmente coisa horrível de ver-se”.

         Não poderia haver melhor comentário para as perguntas um tanto ou quanto enquadradoras que Roberto Schwarz endereçou ao poema “pós-tudo” de Augusto de Campos, a mais de vinte anos atrás, em 1985, nas páginas de um jornal paulistano, e estão hoje recolhidas em obra, num volume justamente intitulado Que horas são?

                  Não é só que, em sua desarrumação temporal, estes (por assim dizer) versos de Augusto 

 

                        Q U I S 

M U D A R          T U D O

M U D E I           T U D O

A G O R A P Ó S  T U D O

                  E X T U D O

M U D O

 

visivelmente encerram uma nota à la Poe sobre a poesia dos mundos desenquadrados.

         Nem é só que, de antemão, essa subscrição de Edgar Poe, que também veríamos como subscrição de Oswald de Andrade, porque o primo rico de Mário de Andrade também detestava as fronteiras muito defendidas, e também queria ver o burgo pegar fogo, é feita para pôr em desconforto as perguntas do crítico: pós-tudo seria depois do quê? e o que quer que aconteça no poema, isso que acontece se passa onde?

         Na verdade, como sabem os leitores das Histórias Extraordinárias, a pergunta “Que horas são?” figura como epígrafe ao conto de Poe. E o que é ainda mais interessante é que, do alto deste frontispício, Poe a faz seguir de um comentário sibilino: “Que horas são? Velho ditado”. À luz dessa nota irônica, que fique valendo para Roberto o que ele diz do poema de Augusto: que o pequeno pensamento que encerra é insípido como um lugar-comum!

         De fato, será que Roberto sabe que cita Poe e que há muito tempo Poe o espreita e ironiza seus métodos?

         E já que bem-esquadrinhar é também cercar o espaço, haveria ainda algo a dizer sobre a maneira como este conto genial de um autor da predileção dos concretos, que é o pai de todos os semioticistas, por antecipação, comenta murmúrios sócio-lógicos a respeito do verdadeiro lugar de onde Augusto estaria falando – a periferia –, no exato momento em que pensa que fala desde o grande mundo.

         Vimos que há um forasteiro no papel central do conto. E o que vem ele fazer aí? Algo que tem tudo a ver com a lógica torturada e sempre conjetural, quer dizer, nunca verdadeiramente conclusiva, dos detetives de Poe. Vem expandir a mente do burgo, introduzindo a indeterminação. Vem fazer o salutar papel do gênio do mal. Ou – o que dá no mesmo – o anjo de Pasolini.

         Isso dota “pós-tudo” de um sentido “pós-Roberto”. Depois de tanto enquadramento, e mais de duas décadas depois, diríamos que o poema pede para ser lido como um peteleco poético nas idéias fora do lugar... e no lugar das idéias!

         O que também pode – e deve – ser visto como uma homenagem que vem somar-se às atuais a Roberto, cujas idéias aqui estamos debatendo, até estas horas!

 

 

 

 

 

 





 

Leda Tenório da Motta é Professora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC SP, pesquisadora do CNPq, crítica literária e tradutora. Tem sete livros publicados, entre eles, Sobre a Crítica Literária Brasileira no Último Meio Século (Imago, 2003), Céu Acima - Para um Tombeau de Haroldo de Campos (Perspectiva 2005) e Proust- A Violência Sutil do Riso (Perspectiva 2007).

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