Café Literário Cronópios

Três anjos
por João Batista de Brito





 
Coluna:
O MENTIROSO
Maurício Paroni de Castro


Renato Borghi e Nelson Rodrigues, o casamento eternamente feliz
por Maurício Paroni de Castro




Tio Vanja brasileiro
por Maurício Paroni de Castro




Grand Guignol, o gênero degenerado
por Maurício Paroni de Castro




Influenza solitária de palco
por Maurício Paroni de Castro




Ruínas de uma arquitetura teatral em São Paulo
por Maurício Paroni de Castro




O corte da tarja preta
por Maurício Paroni de Castro




O desenho angustioso do limite
por Maurício Paroni de Castro




O velório indecente
por Maurício Paroni de Castro




Satyros, Sons, Furyas
por Maurício Paroni de Castro




Devedores de Pirandello
por Maurício Paroni de Castro




O Aleph, uma vela e um olho
por Maurício Paroni de Castro




A mão do gato
por Maurício Paroni de Castro




Do Filme A Via Láctea -
por Maurício Paroni de Castro




O Mentiroso Mergulha em Shakespeare de Verdade
por Maurício Paroni de Castro




Mini-artigo sobre a malvadeza (complementar a “Quando a vida se liberta da obra”)
por Maurício Paroni de Castro







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


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Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
24/10/2007 20:08:00 
Do Filme A Via Láctea -


Por Maurício Paroni de Castro






"Sou um Homem: não me alieno a nada do que acontece a um ser humano." O comediógrafo Terêncio, em "Heautontimoroumenos" (Punidor de si mesmo), fez Cremete assim responder a Menedemo, que lhe havia perguntado porque se interessasse tanto pelas coisas alheias. Um homem não pode não se preocupar pelo que acontece a um outro, não pode não estar solidário a esse outro.

No filme A Via Láctea, esse pathos, cuja perda é uma das catástrofes de nossos dias, vira protagonista de uma trama contada com a intuição sofisticada que só as mulheres possuem. Esse protagonismo, que pula a cerca da História, estende-se do humaníssima tragédia grega à sobrevivência dionisíaca e zoomorfa das espécies que, por seu turno, vão desde o seu habitat natural à violência urbana, que vai desde o nascimento à assistência de uma mãe que se apaga na frente do filho, que sofre pela visão incidental de um funeral de chegada certeira para todos, pontuado por uma menina de rua, que mendiga e finalmente nos remete à via Láctea, ao Universo em expansão, à infinitude da vida.

A narração é despojada de qualquer mistificação, usa a gramática mais simples do cinema: o corte abrupto entre as cenas, que não as separa, antes as unifica. Como os traços que separam os compassos na pentagrama constroem o ritmo da música, esses cortes promovem unidade e organicidade, e a esplêndida trilha sonora as integra, como as linhas de ligação entre as notas. Idem, trabalham as palavras nos diálogos mais prosaicos e nas poesias mais sofisticadas, do "te amo" ao outdoor eletrônico com os versos iniciais da Divina Comédia. Se fosse literatura no papel, seria uma mistura inconsútil e fantástica de Proust com Lispector. Sendo cinema, chamemos simplesmente – por que não? - pelo que é: Lina Chamie.

Esse filme traz um lado surpreendentemente proustiano de São Paulo. Sim, aqui prolifera mais sutileza amorosa do que paixão. E não é que a delicadeza de Mozart, Franck, Satie e Companhia afirma, vitoriosa, o contorno do Maravilhoso, através de um frugal contraste alegórico com a transmissão radiofônica das condições penosas do tráfego da hora do rush?

Acostumado à visão das pessoas em primeiro plano por passear pela cidade na maioria do tempo em cadeira de rodas, vejo rostos em primeiríssimo plano que emolduram paisagens distintíssimas. A fotografia do filme completa a integração humanizada de nossa paisagem caoticamente desumana e atinge em cheio o retrato da verdadeira alma desta cidade. Consegue-o através de uma afetividade paradoxal que evidencia a condição selvagem e absurda da nossa urbe. Isso sempre fascinou os turistas mais atentos, sempre foi o maior vício dos paulistanos, ainda que inconscientes. Jamais São Paulo foi tão retratada desse ponto de vista, excetuadas as pinturas do recentemente falecido Vincenzo Scarpellini.

Há uma coisa ainda que motiva este artigo: a raiz da presença de Marco Ricca no filme. Escrevo aqui como um dos co-roteiristas de Crime Delicado, que guarda muitas semelhanças com esta Via Láctea de Lina Chamie, além da paternidade de Buñuel e seus animais vagantes nos enquadramentos. Quem é mesmo que vaga, homens ou animais? E quem é que vive o pesadelo dos engarrafamentos e sonha com as estrelas?  Sou suspeito, portanto, mas quero testemunhar a sinceridade da construção do papel desse artista que, já há algum tempo, desenha para si (Marco e as personagens que tem interpretado) um homem tímido, aparentemente incomunicável, roedor de unhas, assassino involuntário de animais, vitima do tráfego, ciumento de meia-idade, namorador de mulheres mais jovens, espectador sensível  de nossa violência quotidiana.

Eterno medo do abandono materno. O que pode ser mais paulistano? Somente a descrição de um animal dessa espécie feita por uma mulher, seja a sua namorada, seja  a diretora do filme.

Nada pode descrever melhor São Paulo que as tintas dessa forma elegante e vital que sustenta, sem tiroteios,  a narração  dos dois filmes. Nem se pense que faço alusão negativa aos filmes que retratam tão bem a história de nossas cidades, feita de crime, escondida por hipocrisia ideológica e por clichês de vaidades “artísticas” a la  Ferréz e a la Huck. Parece incrível, mas é verdade: conseguimos ser retratados por meio da ablação dos tiros de nossa realidade, ao nos concentrarmos num respiro humano, solidário, e violentamente paulistano.  

 

 

 

 

 

 

 

 

Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana.
E-mail: paronidecastro@gmail.com

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