Todos acompanhamos recentemente um vaivém de matérias na Folha de São Paulo em torno daquela artista plástica que foi à feira, comprou milhares de maçãs e as pôs para apodrecer sobre uma superfície marmórea imaculadamente branca numa galeria de São Paulo.
Pendências como essa não cessam de se desenrolar na Folha (“folha”: bela palavra para referir o avulso, o volante, o fugaz!). Assim, pouco antes da querela crítica das maçãs, em agosto último, o jornal dava amparo a uma outra controvérsia, desta feita, envolvendo Ferreira Gullar e Décio Pignatari. Falando desde sua coluna no caderno Ilustrada, por ocasião dos 80 anos do colega, o poeta neo-concreto veio então a público dizer o que pensava do poeta concreto. Reafirmou a maior importância do neo-concretismo em relação ao concretismo.
Quem seguir folheando a Folha_ ops! _ encontrará ali, num curto espaço de tempo, inúmeras situações críticas. Geralmente, elas declinam uma velha pendência envolvendo o concretismo. Mas não se vive só disso na imprensa paulistana.
Eu abro aqui uma parte dos meus arquivos.
Mais ou menos dois meses antes do episódio do aniversário de Décio Pignatari, em junho de 2007, por ocasião da morte de Bruno Tolentino, o mesmo caderno Ilustrada fez um retrospecto do que dizia dos concretos outro poeta _ Bruno Tolentino _, ao voltar de sua longa estada na Europa. Fomos lembrados que, ao desembarcar no Brasil, a mais de 20 anos atrás, o autor de Os sapos de ontem tinha posições tão contrárias, mas tão contrárias ao laboratório de criação de Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos que chegou a visar, naquela oportunidade, até mesmo aos amigos da plataforma, declarando que jamais poria os filhos numa escola em que Caetano Veloso fosse considerado poeta. Foi assim reavivado o veneno da discórdia (e revisitada outra polêmica que nos tem sobressaltado: sobre se os artífices da MPB entram ou não entram no cânone da literatura brasileira). Tudo no mesmo momento em que Tolentino recebia o Prêmio Jabuti de Poesia post mortem. O caldo sendo engrossado com uma espécie de incrível tréplica de além-túmulo: a última palavra da premiação.
Retrocedendo mais alguns meses, em janeiro de 2006, vamos encontrar no caderno Mais! nova troca de farpas entre Walnice Galvão e o professor português de literatura brasileira da Universidade de Lisboa e editor da importante revista literária Colóquio/Letras Abel Barros Baptista. Por volta desta data, Abel acabava de organizar em Portugal uma coletânea de ensaios de Antonio Candido. Foi a propósito dessa publicação que ele falou ao Mais! Então, em meio às considerações que veio tecer sobre a obra de Candido, a que, justamente, estava dando visibilidade em seu país, permitiu-se fazer alguma reserva acerca da clássica formulação da abertura de A Formação da Literatura Brasileira segundo a qual “a nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das musas”. Convidada a entrar na conversa, para opiniar sobre a opinião de Abel, num box inserido no rodapé da matéria, Walnice não gostou disso e o fez saber. Na réplica, Abel chamou Walnice de provinciana e mesquinha e disse que ter convocado esta defensora da honra maculada de seu mestre para o mesmo número foi deslealdade do editor.
No limite, foi também em torno de Candido, embora não só dele, que, no mesmo órgão de imprensa, em agosto de 2005, despontou mais uma discordância entre João César de Castro Rocha, crítico literário e professor da UERJ, e Francisco Alambert, historiador da USP. O livro de Castro Rocha O exílio do homem cordial foi objeto de ressalvas de seu resenhista Alambert, que localizou nesta reflexão sobre a “cordialidade” _ isto é: sobre a nossa incapacidade de sermos impessoais e republicanamente civis _ um ataque à universidade brasileira e viu faltar nela a força da contribuição do pensamento de Roberto Schwarz. Usando do direito de resposta, Castro Rocha retorquiu que era bem melhor errar sozinho do que pensar à sombra das autoridades, como fazia Alambert. Valeu-se da teoria do medalhão de Machado de Assis para dizer que, se houvesse universidades na época de Machado, ele teria catalogado a insígnia de Alambert: a do professor universitário agregado.
São exemplos ... não de uma vitalidade, de uma maturidade, de uma maioridade da crítica brasileira quando sediada no lugar do jornal, que, como espaço possível para o comentário das artes já conheceu dias melhores, lembremos do Suplemento Literário de O Estado de São Paulo, por exemplo, e do Folhetim da própria Folha quando nas mãos de um Rodrigo Naves!
Enobrecida pela famosa Querela dos antigos e dos modernos, a palavra “querela” nem cabe aqui. Querela é a boa briga produtiva, sóbria e alentada, como a da escola de Boileau e a escola de Perrault, no seiscentos francês. Para se querelar, é preciso mais letras do que isso! Na verdade, trata-se da pequena querela, da picuinha.
Como gênero folhetinesco, a picuinha consegue um máximo de coisas degradantes ao mesmo tempo. É “cordial”, isto é, pessoal e insultuosa, mesmo quando o insulto pessoal tenta se respaldar na distância de uma pretensa ironia fina ou de um falso recuo crítico. Dá sobrevida midiática aos beligerantes e seus tópicos artísticos, sugerindo que é na mídia que a arte e as nomeadas têm que se firmar, a qualquer preço. Indispõe as pessoas e as tribos, de tal modo que ninguém mais se cumprimenta depois disso nos lugares (imaginem o Roland Barthes virando a cara para o Raymond Picard, o professor da Sorbonne com o qual ele debateu desde a École des Hautes Études a propósito de como se ler Racine, o que inaugurou a nouvelle critique française!). Ajuda a vender jornal, isto é, anúncios. Dá razão a Balzac quando, na sua deliciosa Monografia da imprensa parisiense, vendo as coisas de longe, nos primeiros decênios do século XIX, de que dato o jornal e a crítica modernas, já chama os jornalistas de “nadólogos” (em francês “rienologues”, de “rien”, nada).
Desde quando Balzac escreveu as Ilusões perdidas e Baudelaire anotou no Spleen de Paris, no poema em prosa “Á uma da manhã”, que era um alívio voltar para casa e passar a chave na porta, depois de ter tido que agüentar os editores dos jornais, a crítica jornalística nunca foi tão sinônimo de nadologia quanto hoje em certas folhas volantes.