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13/12/2007 18:09:00 
Jorge Mautner e suas canções homoeróticas


Por Amador Ribeiro Neto

 

Jorge Mautner é um caso especial de comportamento camp (fechação). Ele o adota em parte significativa de suas interpretações e em algumas composições - sejam as letras homoeróticas ou não. Na performance da voz e dos arranjos, este cancionista faz a festa, grita, dá uivos, alonga sílabas e promove um ataque de consoantes, semelhantemente ao falar efeminado de certos guetos ou trejeitos homoeróticos. Os arranjos musicais acompanham, com ‘desafinações’ ou timbres agudos os desenhos do intérprete e/ou compositor.

Em “Pipoca à meia-noite” (composição sua) o andamento do arranjo com os graves do piano em contraponto com a guitarra, o canto e a falação do intérprete resumem a figura do cancionista que se assume como ator na primeira parte da canção. O trágico assola sua alma, “quanto ódio contido / quanto espelho partido / um espelho por dia / é a sua quantia / normal” / (...) / “É chegado o momento / do despedaçamento / final”. Imediatamente um sambinha bem marcado pelo piano e pelo baixo, com a bateria fazendo o desenho da percussão, dá início à segunda parte da canção – e o humor impera glorioso. O samba bem marcado anuncia: “Ainda ouço aquele rock na vitrola / v. saindo tão gracinha da escola / diretamente pros meus braços pra me beijar”. Volta a primeira parte e gritinhos agudos do cancionista iconizam, mais uma vez,  movimentos de fechação.

A imagem dos espelhos partidos, todo dia, inicialmente espetaculariza as cenas de desnudamento e negação do tête-à-tête consigo mesmo e com o outro. Por fim, a rotina esvazia o sentido da quebra de espelhos como ato novo e inesperado. Não há como não rir desta imagem de imagens quebradas e do rock cantado como samba. Coisa pra Freud e Jackson do Pandeiro explicarem. Ou cantarem.

“O relógio quebrou” (também de Jorge Mautner) começa com acordes do violão mimetizando o tic-tac do relógio. Para compor a cena, logo de início o intérprete soluça e dá um gritinho estridente. A voz efeminada interroga: “sacou o meu recado?”. O erótico perpassa a canção toda, do arranjo à interpretação, destacando o fálico da letra: “O relógio quebrou / E o ponteiro parou / Em cima da meia-noite / Em cima do meio-dia / Tanto faz porque depois de um vem dois / E vem três e vem quatro e eu fico olhando o rato / Saindo do buraco do meu quarto”.

Aqui o tempo pára e os companheiros de sexo sucedem-se um após o outro, “depois de um vem dois / e vem três e vem quatro”, e são “ratos” saindo do “buraco do meu quarto” – relação fálica com a penetração: os ponteiros do relógio sempre unidos (tesos) e o buraco do quarto (analogia com o ânus). A cena é teatral nos versos “E você de bonezinho caído de lado / Fazendo cena de cinema e cena de teatro / Com seu charme de Greta Garbo [variações: Gal Costa; Wanderléia] / E seu jeitinho de baby-hip / Fico todo alucinado / Sacou o meu recado?”. Alguém disse em algum lugar que onde houver mais de um praticante do homoerotismo sempre há performances teatrais. A letra parece ratificar esta afirmação.

“Cidadão, cidadã” (de Jorge Mautner e Nelson Jacobina) traz à reflexão a questão da diferença cultural, de raça, política, sexual, insistindo no direito de afirmar-se a legalidade (legal = da lei e legal = bacana) de ser diverso: “assim como é natural o vôo da borboleta / assim como falta uma mão no maneta / assim como não acho nada de anormal  / no fato de v. ser troca letra / acho que se deve ser diferente / e não como toda a gente / mas igualmente ser gente / como toda essa gente/ deste país continente / e de todo planeta”. Natural é o que é próprio da natureza (o vôo da borboleta) mas é também a falha da natureza (o maneta). Valoriza-se o ser-se diferente (“acho que se deve ser diferente / e não como toda gente”) e ao mesmo tempo apregoa-se o direito de ser igual a todos do mundo todo. A parte instrumental faz fundo para o intérprete que declama - numa oratória típica de pregação, de discurso político. A paródia vale-se, como material de persuasão, da melodia da canção, proclamando a necessidade de se derrubar “a muralha dos ódios, dos preconceitos, das intolerâncias, das tiranias, das ditaduras, dos totalitarismos, das patrulhas ideológicas e do nazismo universal”. Afinal “deve-se somente ser / e não temer viver / o que der e vier / na nossa telha / e vamos em paz /  porque tanto faz / gostar de coelho / ou de coelha”.

“Samba jambo” (Jorge Mautner e Nelson Jacobina) é um samba maroto com bongô, violinos, violas, violoncelos, baixo, coro feminino, mais o violino característico de Jorge Mautner. Tudo poderia passar em brancas nuvens se o clima desta canção não fosse o mesmo de um poema de Mário de Andrade. Clima de malandragem e de homoerotismo. Senão, vejamos a letra do samba: “eu não ando eu só sambo / por aí / esse samba jambo / escorregando para não cair / eu me encosto neste poste / à sombra da bananeira / e por mais que eu te goste / v. não vê minha bandeira/ iê iê iê iô iô iô /  teus olhinhos sempre têm meu bem / aquela luz da aurora da manhã”.

A denominação samba jambo remete não a uma especificidade rítmica, mas a uma caracterização sensual do samba. Afinal, a cor jambo, aplicada às mulheres morenas e aos homens morenos, está, para nós brasileiros, contagiada pela sensualidade. Daí a conhecida expressão, da cor do pecado.  No poema “Cabo Machado”, de Mário de Andrade, o cabo, ao invés de estar associado à figura do machão, e muitas vezes, perigoso policial, é apresentado diferentemente. Ele é “cor de jambo”, “pequenino”, “moço bem bonito”, “dançarino”, “delicado”, “gentil”, “doce”, “polido”, tem “sorriso perpétuo”, “olhar dengoso”, “educação francesa”, “unhas bem tratadas”, “mãos transparentes”; vale-se do “pó-de-arroz” e “anda maxixe”.

Sua figura contrapõe-se a de outro cabo, o “Cabo Alceu”, poema XVIII, também do livro Losango cáqui. “Cabo Alceu é um manguari guassú” (ou seja, é alto e forte) “com espinhas de todas as cores na cara”, “acredita nas energias sem delicadeza” e, cheio de poder, proclama: “Na minha esquadra ninguém se mexe”.

Assim, Cabo Machado, sensual e provocador, acaba sendo definido como “bandeira nacional”, enquanto Cabo Alceu, cheio de espinhas, forte e enérgico, vangloria-se de manter a rigidez disciplinar em sua esquadra. Cabo Alceu figura no imaginário brasileiro como mais verossímil que Cabo Machado, este último, exceção até por seus trejeitos homoeróticos camp.

Pois é com Cabo Machado que o eu-lírico de “Samba jambo” se identifica. Vejamos: “eu não ando, eu só sambo” traz para a voz do cancionista os versos madrioandradinos: “Cabo Machado marchando / É muito pouco marcial. / Cabo Machado é dansarino, sincopado”. “Escorregando para não cair”, da letra do samba, remete, além dos versos anteriores, a “Marcha vem-cá-mulata. / Cabo Machado traz a cabeça levantada / Olhar dengoso pros lados”. A “luz da aurora da manhã”, que caracterizam os olhinhos do outro-lírico, remetem à “boca encarnada num sorriso perpétuo / Adonde alumia o Sol de oiro, dos dentes / Obturados com um luxo oriental”. E, “e por mais que eu te goste / v. não vê minha bandeira” faz parelha com a sedução não assimilada pelo outro,  enquanto resgata a figura da “bandeira”, em sentido próprio e em sentido figurado - dar bandeira = exibir-se, manifestar-se, entregar-se publicamente.

O homoerotismo do poema de Mário de Andrade dialoga com a letra da canção de Jorge Mautner e Nelson Jacobina trazendo, à cena, o comportamento “fechoso” dos dois eus-líricos. Revelar-se dentro das forças armadas (caso de Cabo Machado) e revelar-se ao amado (caso de “Samba jambo”) envolvem duas esferas homoeróticas: a pública e a íntima. Tanto o poema, como a canção, apóiam-se no humor, no trocadilho, dando leveza e espontaneidade ao comportamento homoerótico.

Para Jorge Mautner, em suas interpretações ou composições, a performance homoerótica está associada ao lirismo e ao humor. Como se nele ressoasse sempre o poema oswaldiano: “amor humor”. Um dos talentos menos reconhecidos da MPB, e rotulado de ‘maldito’, Jorge Mautner é de fato um rei da canção homoerótica, um cancionista que equilibra o texto na melodia e a melodia no texto pra fazer amar e rir.

Um dia, esperemos que não tão distante, sua obra mereça o reconhecimento estético e ético a que faz jus desde 1959, quando compôs a antológica “Vampiro” – uma canção em que o homoerotismo se traveste em óculos de sol para  sugar “o sangue dos meninos e das meninas”, além dissimular, mais uma vez, uma performance da paixão, porque  o outro “é uma loucura em minha vida / uma navalha para os meus olhos”.

Mautner é riso, festa, regozijo, amor. Perversão e não lei. Desejos e orgasmos múltiplos. Tudo ao mesmo tempo agora. Cancionista homoerótico de frente. Atrás. Em cima. Embaixo. Entre.

 

 

Cabo Machado

(Mário de Andrade)

 

 

Cabo Machado é cor de jambo.

Pequenino que nem todo brasileiro que se preza.

Cabo Machado é moço bem bonito.

É como si a madrugada andasse na minha frente.

Entreabre a boca encarnada num sorriso perpétuo

Adonde alumia o Sol de oiro, dos dentes

Obturados com um luxo oriental.

 

Cabo Machado marchando

É muito pouco marcial.

Cabo Machado é dansarino, sincopado,

Marcha vem-cá-mulata.

Cabo Machado traz a cabeça levantada

Olhar dengoso pros lados.

 

Segue todo rico de jóias olhares quebrados

Que se enrabicharam pelo posto dele

E pela cor-de-jambo.

Cabo Machado é delicado gentil.  

Educação francesa mesureira

Cabo Machado é doce que nem mel

É polido que nem manga rosa.

Cabo Machado é bem o representante de uma terra

Cuja Constituição proíbe as guerras de conquista

E recomenda cuidadosamente o arbitramento.

não bulam com ele!

Mais amor menos confiança!

Cabo Machado toma um geito de rasteira...

 

Mas traz unhas bem tratadas

Mãos transparentes frias,

Não rejeita o bom-tom do pó-de-arroz.

Se bem que prefere o arbitramento.

E tudo acaba em dansa!

Por isso Cabo Machado anda maxixe.

 

Cabo Machado... bandeira nacional!

 

 

 

 

Cabo Alceu

(Mário de Andrade)

 

Cabo Alceu é um manguari guassú

Com espinhas de todas as cores na cara,

Talqualmente uma coleção de turmalinas.

 

Acredita nas energias sem delicadeza

E nas graças vagamente eruditas.

 

-“Na minha esquadra ninguém se mexe.

La donna é immobile!”

 

 

 

Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.), organizador e co-autor de "Literatura na Universidade" (ensaios - Idéia Edit.).
E-mail:
amador.ribeiro@uol.com.br

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