16/01/2008 17:40:00
A mão do gato
Por Maurício Paroni de Castro
Ressalto três espetáculos – dos que vi em 2007 - onde a operação do diretor e do dramaturgista foram de rara competência - essencial para a criação do espetáculo. Não vai aqui qualquer juízo em relação à qualidade ou mensagem destes; não pretendo minimamente fazer o papel de crítico.
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“Além da Mágica”, do mágico Célio Amino, é um show que inverte o sinal aparentemente convencional do gênero: não propõe ao público só o desafio de descobrir o truque – a alma da prestidigitação. Propõe uma comunhão de intentos com os espectadores, através da exposição das – poucas - limitações do mago, de modo a induzir o público a uma prática direta da Filosofia.
Magia com abordagem oriental, nesse espetáculo o tempo é o mestre. Uma lanterna, um pinheiro bonsai e uma ampulheta são os principais signos por onde o mago passeia e divaga. Ele executa seus truques, diz que são truques que parecem mágica somente pelo tempo em que perseverou atrás do resultado da ilusão. Vira raciocínio circular. Isso é extraordinário, numa arte pragmática por excelência como o ilusionismo. O pensamento circular empregado nas artes cênicas é muito difícil para o público ocidental, Jean Claude Carrière e Peter Brook que o digam. É o que tenta a maioria no Butoh brasileiro, mas este pressupõe uma preparação “oriental” que o nosso público não tem (e não é obrigado a ter). A analogia feita pelo Mago Célio entre a corda e o coração supera essa barreira.
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Em “Rossini Hits”, o diretor Alvise Camozzi manteve vivo o espírito de Rossini, de antes da arte-mercado. O faz utilizando o combustível popular brasileiro, que é igual. Qual? A nossa necessidade de se deixar encantar por tudo o que é melódico (não somente rítmico) e carnal ao mesmo tempo. Finalmente algo que não é propaganda de cerveja o faz. Esta última é feita de simulacros, o espetáculo de ficção. Com todos os limites técnicos da coisa, com todos os problemas que um espetáculo tão complexamente realizável pode ser, ele desperta encantamento; não a mim, que não sou público normal, mas às pessoas comuns.
Porque os seus interpretes, da orquestra ao coro, também são pessoas comuns, e o resultado é uma festa de abraços ao final da apresentação. Atenção: estamos longe do amadorismo e do senso comum. Aliás, a maior parte do repertório era desconhecida daquele publico.
Nenhuma produção operística traz isso automaticamente, por cara que seja. Mérito do CEM (Centro Experimental de Música do SESC) e da direção, que o faz com pouco dinheiro.
Não se pense que na terra de origem de Rossini, nas cidades maiores de cem mil habitantes, a coisa seja muito diferente. Lá, como aqui, vai-se mais a baladas que a óperas, que sobrevive somente pela maciça injeção de dinheiro público na manutenção da tradição. Mas nem isso adiantaria se não houvesse dedicação política consciente por uma cultura da opera, à qual o Brasil não está avesso (vide o investimento em Carlos Gomes, ainda no século 19).
Se caminharmos pelos bairros de Milão, vamos perceber em muitos deles a presença de associações filo-líricas, como as escolas de samba daqui. Maria Callas deu muito dinheiro para a reforma e reconstrução de varias e imensas casas de opera (como a de Turim). Mas não se furtou a sustentar essas filo-líricas. Ia cantar nelas de graça, aliás.
Não se diga que não podemos fazer isso, e nem o queiramos. O público de Rossini Hits era popular, lotou a platéia e estava feliz, como em bem poucos espetáculos. Mas prefere-se uma política cultural que distribui incentivos fiscais – públicos – a cirques du soleil, a Broadways de araque, e a atores-produtores de técnica sub-reptícia, que ainda cobram ingressos no mínimo de 60 reais. Prefere-se não modernizar e atualizar essa anacrônica e mal formulada Lei Rouanet. Prefere-se queimar milhões de reais em coisas que deixam as pessoas longe dos teatros.
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Em “Determinadas Pessoas – Weigel”, o diretor Ariel Borghi consegue extrair de sua atriz (e mãe real) uma Mãe Coragem que não vi no Berliner Ensemble: aquela pessoa que se deve odiar porque comercia seus filhos e os perde na guerra. Uma parábola sobre o que vivemos: este momento brasileiro onde a Mãe-utopia vende os seus sonhos em troca de poder por si só. Ou um ataque ao ideológico Brecht mainstream que se faz em qualquer lugar do mundo. Pobres filhos de Manfred Wekwerth...
Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana. E-mail: paronidecastro@gmail.com |