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Mapeando a literatura na internet
por da Redação





 
Coluna:
FARRA
Amador Ribeiro Neto


Arte e representação em nossa sociedade pluralista e mutante
por Amador Ribeiro Neto




Thomas Mann: oriental, oblíquo e irônico
por Amador Ribeiro Neto




Céu inteiro. O céu acima de Ricardo Aleixo
por Amador Ribeiro Neto




Novo volume de Roteiro da Poesia Brasileira
por Amador Ribeiro Neto




O haicaista paraibano Saulo Mendonça
por Amador Ribeiro Neto




Sobre a palavra
por Amador Ribeiro Neto




Ouvindo a terceira margem
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A música em 68: os hits e os rapas
por Amador Ribeiro Neto




Poesia Marginal em questão
por Amador Ribeiro Neto




Duas ou três coisas sobre poesia e crítica
por Amador Ribeiro Neto




Jorge Mautner e suas canções homoeróticas
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Contos homoeróticos de um estreante
por Amador Ribeiro Neto




Cazuza, cronista do Brasil
por Amador Ribeiro Neto




A fera que mora em Chico César
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Adriana Calcanhoto e a poesia
por Amador Ribeiro Neto







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


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Jussara Salazar


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Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


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Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
25/02/2008 23:35:00 
Duas ou três coisas sobre poesia e crítica


Por Amador Ribeiro Neto

 

1

A poesia pode propor-se um projeto social definido. Como já fez nos inícios de seus tempos: tinha o propósito claro de invocar bons espíritos, curar doenças, expulsar espíritos indesejáveis, acalmar ânimos, trazer amantes, etc. e tal. Mais ou menos é a função que hoje cabe aos curandeiros e jogadores de cartas, entre outros. As primitivas formas da poesia tinham esta função mística e mítica. E mais: estas poesias contavam histórias, tinham enredo, teciam narrativas. Tudo voltado para as práticas religiosas. Portanto, no início, poesia e religião andavam de mãos dadas.

Depois a poesia começou a ensinar coisas práticas: normas de agricultura, pecuária, construção de casas. Modos de viver bem eram passadas através dos versos. Neste momento a poesia encontra na filosofia, na moral, na ética, uma razão de ser.

Os tempos passam. Alguns poetas continuam emprestando à poesia uma função social determinada. Isto é interessante: a poesia nunca sobreviveu desta função social. Basta ver que mudou o mundo, mudaram seus valores, mas a poesia (a grande poesia, não importa de que época) continua com o mesmo vigor.

Pouco importa que não se crie gado, que não se dê mais crédito a palavras mágicas na condução das crises das doenças, que a arquitetura contemporânea nada tenha a ver com aquela do século XII. A grande poesia de todo este tempo, de todos estes feitos, continua viva e forte. Poucos são os que acreditam no céu, inferno e purgatório. Mas poucos são os que não se comovem ainda com os impecáveis versos de Dante Alighieri. A expedição de Vasco da Gama nada tem a ensinar aos desbravadores dos mares de hoje – mas “Os Lusíadas” continuam um grande livro de poema épico. O mesmo vale para a grande viagem marítima de Ulisses na “Odisséia” ou as guerras infindáveis da “Ilíada”.

O tema da “Divina Comédia” e das obras “com função social” podem ser abordados na prosa. Isto não está em questão. O fato é que na grande poesia os temas são suporte para a forma poética. Não interessam as causas dos poetas – se eles defendem ou atacam uma idéia socialmente aceita ou condenada. Interessa é o trabalho com a linguagem da poesia que só o poeta sabe operar. Quando o tema é maior que a poesia, a poesia fica datada, morre no instante em que aquela circunstância histórica é superada. A grande poesia, isto é, a poesia que vale a pena – ou seja, a poesia que é poesia – sobrevive às questões que envolvem o poeta. O engajamento da poesia é com a forma. A forma é a grande propriedade do poeta, já afirmava Marx.

 

2

A vida nos prega cada peça que nos fazem temer sucumbir, tal seu peso.

Que bom se cada um pudesse ter um Virgílio para guiá-lo pelo inferno e pelo purgatório como Dante Alighieri teve. E, melhor ainda, que bom se pudéssemos chegar aos céus e ver a face de Deus, levados por Beatriz.

A “Divina Comédia” de Dante Alighieri (1265-1321) é um farol iluminando vidas e vidas, na literatura e fora dela, tempos afora.

Dividida em 3 partes (Inferno, Purgatório e Paraíso), tendo cada parte 33 cantos e sendo cada canto formado por 3 versos, fica claro para o leitor a obsessão pela perfeição, que norteia a estrutura da obra.

Tem mais ainda: cada parte tem, depois dos 33 cantos, um verso final solto, que termina sempre com a palavra estrela, entrelaçando a obra num todo único.

E ainda tem mais: se cada uma das 3 partes tem 33 cantos, totalizam 99 cantos. Mas Dante não brinca em serviço: há um canto a mais no Inferno – exatamente aquele que abre a caminhada de Dante (eu preferiria dizer do “eu-lírico”, como costumamos dizer em literatura, mas no caso o uso do nome de Dante já se consagrou a tal ponto que fica até estranho não usá-lo). Assim, a “Comédia” possui 100 cantos. Exatos 100 cantos.

A “Divina Comédia” abre com o famoso verso, que tem servido de intertextualidade para milhares de poemas mundos e tempos afora: “No meio do caminho desta vida” (na versão de Augusto de Campos). Entre nós, Bilac usou o verso e Drummond fez um poema-referência dialogando com Dante.

Ao lado deste verso, uma expressão da “Comédia” tem sido usada à mancheia: “selva selvagem”. Esta duplicação do nome em substantivo e adjetivo da mesma raiz é um recurso que Caetano Veloso usou e usa deslavadamente: “e o céu de um azul celeste celestial”, na música “Trem das cores”. Antes ele já o fizera em “Alegria alegria”: aqui a junção de dois substantivos iguais forja a transformação de um deles em adjetivo.

Dante está conosco, quer queiramos ou não. Dante está conosco sempre, quer saibamos ou não. Dos poemas mais elaborados às canções populares lá está ele.

Aqui estamos nós. Buscando Virgílios e Beatrizes para os caminhos no nosso cotidiano.

Enquanto a vida continua nos pregando peças.

 

3

 

Há um livro indispensável para quem curte literatura: “ABC da Literatura” de Ezra Pound. Traduzido por Augusto de Campos e José Paulo Paes o livro é escrito numa linguagem direta e clara. Parece uma conversa. Aborda temas espinhosos com delicadeza. O que é literatura? Qual a utilidade da linguagem? O que caracteriza a poesia? Qual a ruptura da literatura? Como procede um crítico? Que autores formam um cânone?

Além de trazer uma mini-antologia que abarca Homero, Safo, Confúcio, Catulo, Ovídio, Arnaut Daniel, Dante Alighieri, Shakespeare, John Donne, Rimbaud, Jules Laforgue. Enfim, um livro de cabeceira para os amantes (insones ou não) da literatura.

Vamos tomar o conceito de mau crítico segundo Pound. É aquele que, antes de mais nada, fala da biografia do autor ao invés de abordar a obra. Só com esta afirmação Pound já derruba mais de 50% dos ditos críticos. É inadmissível como um número altamente expressivo tece loas e boas para a vida do autor e “esquece” a obra. Claro que não “esquece”: ele exila a obra, não sabe como abordá-la. Daí se refugia no biografismo.

Outra: o mau crítico é aquele que chama a atenção para a literatura de terceiro escalão. É o tal do igrejismo. O dito crítico incensa a arraia-miúda por interesses escusos à literatura. Quer projetar-se através destes que “critica”. Geralmente é um jogo de troca-troca: eu falo bem de você e você fala bem de mim. E estamos conversados. Daí a proliferação de zil livros que nada acrescentam ao mundo da literatura. São fricotes.

Mas tem mais: o mau crítico é aquele que chama a atenção para os seus próprios escritos, desprezando o objeto a ser analisado. Na verdade este “crítico” sente necessidade narcísica de projetar-se, já que outros o ignoram. Uma boa forma de fazer crítica de verdade é não perder tempo escrevendo, ou falando, sobre obras desprezíveis. Pra que dedicar-se a uma obra inexpressiva? Natimorta? Se ao menos a produção irregular, vá lá.

O crítico tem o dever de esclarecer a obra para o público e orientar o criador. Isto, bem entendido: se a vaidade dos criticados permitir. Há casos de “poetas” que saíram na faca e fecharam bar depois de ouvirem críticas à sua “poesia”. Tem um de tudo nesta fogueira de vaidades.

O bom crítico faz uma escolha. Sua escolha já denota a qualidade de seu trabalho. E opina diretamente sobre a obra. Revela a obra. Revela novos autores. Sem titubear.

 

 

 

Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.), organizador e co-autor de "Literatura na Universidade" (ensaios - Idéia Edit.).
E-mail:
amador.ribeiro@uol.com.br

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