Desde que Glorinha Kalil começou a lançar sua produção em série em torno do “chic”, até por eu ser uma leitora de Proust, que é um estudioso da vida chic, aliás dos mais ácidos, quando calha, presto atenção no que ela conta. Foi assim que acabei fazendo uma pequena coleção de tropeços desta simpática professora de elegâncias e maneiras, que, em termos proustianos, mais parece pertencer ao salão de Madame Verdurin que ao da duquesa de Guermantes, blasé de tão grã-fino.
São acontecimentos por vezes ruidosos. Como quando Glorinha chamou o Justus de “cafona” (ou brega, algo assim) num questionário da Revista da Folha. Se fosse perguntada sobre o Justus, a duquesa de Guermantes, que sabe que as palavras foram feitas para esconder o pensamento, principalmente em boa sociedade, como pede aliás a pequena ética da etiqueta, teria respondido: “eu não tenho clareza sobre o assunto”. A franqueza do julgamento _ aqui _ é Verdurin.
Mas apesar de eles se multiplicarem, desde que Glorinha se lançou no écran, a maior parte destes percalços, no limite da deselegância, só é observável a olho armado. Dando assim razão ao sociólogo francês Pierre Bourdieu quando nota, em seu Sobre a televisão, a propósito da ida dos especialistas aos estúdios, que a televisão manipula códigos invisíveis.
O teste da audiência, com tudo que isso tem a ver com os spots publicitários e o balcão de negócios, é o principal desses mecanismos escondidos, nos diz Bourdieu. Quem está do lado de cá não percebe, mas tudo o que se dispara da televisão passou ou vai passar por esse crivo, de sorte que quem ali prospera, por mais confiável que pareça, ou seja, de algum modo, vende bem alguma coisa. Outro operador clandestino é o tempo. Na televisão, como se sabe, ele é ultra-exíguo. Com duas conseqüências formidáveis para uma ação persuasiva imperceptível. A primeira é que, quando entrevista em tempo relâmpago, a pessoa que põe a cara na tela se preenche de súbito brilho, é a aura da aparição. Com isso, torna-se impositiva. A segunda é que, quando o tempo é assim breve, necessariamente, o discurso fica sob censura. Prova disso, para Bourdieu, é a ausência, nesta ambiência midiática, de verdadeiros debates. Imaginem se ocorresse a alguém, que levasse o debate a sério, ousar tomar todo o tempo necessário à exposição que foi chamado a fazer! Ou dizer algo inesperado! O que significa ainda que quem debate na televisão passou no teste de seu próprio apequenamento. Para a teleficação, só se convidam os compactos inofensivos!
Munidos dessas desconfianças, e diante do sucesso atual de Glorinha, também na ponta das livrarias, tentemos enxergar um pouco mais além das aparências, na tentativa de entender o que se passa. Tomemos, ao léu, três de suas aparições.
Há um ou dois anos, por ocasião de mais um lançamento direto da usina chic, Glorinha foi ao Programa do Jô. O Jô anuncia os entrevistados da noite. Na primeira fila da platéia, fazendo a fashionista, lá está ela... de óculos escuros! O programa, como se sabe, só entra no ar tarde da noite! Ainda que seja gravado de tarde, o lance é noturno. E lá está ela... de óculos escuros de noite! Não que tenha ido ao fundo do gesto (ou da piada) e dado toda a entrevista assim, para surgir na tela de óculos escuros, em plena noite, o que seria passar do chic ao punk. Trata-se de um truque. Análogo ao das luvas na capa do livro Alô Chics.
Temos neste frontispício que está em destaque em todas as prateleiras das livrarias brasileiras um outro apetrecho tão aparentemente sem função quanto óculos escuros na noite fechada. Afinal, onde é que se vai de luvas, hoje, no Brasil? Mas olhando bem, só à primeira vista essa improcedência é inócua, como um ato gratuito ou um gesto de liberdade, e essa falta de sentido, sem sentido. Na verdade, existe aí uma presunção. Como acontece com as partículas expletivas, que, se fossem mesmo inúteis, não existiriam, as extemporâneas luvas da capa do Alô Chics têm um significado oculto. É o mesmo significado dos deslocados óculos escuros. O que solidariza tudo é que, em ambos os casos, trata-se menos do chic que da afetação do chic. Os semióticos diriam do “signo” do chic. O que se almeja é principalmente posar de chic. Impressionar, mesmo. Até porque o público da televisão, que deve ser o mesmo que compra a linha Chic, por uma questão de repertório, deve ser muito mais sensível à primeira coisa que à segunda. Isso também é Verdurin.
Mais recentemente, Glorinha foi vista entrando em flash rapidíssimo no Globo Sport, numa matéria sobre a violência nos estádios. De sua posição de conselheira, veio refletir que, no campo de futebol, as pessoas podem xingar e gritar à vontade. Só não podem sair de lá quebrando tudo. Até aí, e apesar de a cena ser bizarra, em se tratado dela, temos só o visível. Mas quem tem olhos de Macaco Simão terá percebido o contraste entre esse pronunciamento sobre o lazer do povão e essa espécie de cumplicidade com seus modos rudes, tudo tão próprio da era Lula, e a roupa e os enormes brincos, que eram, nesse take, particularmente dourados, assim como o make up era mais para acentuado. Havia no ar muita produção luminescente... e um choque de paradigmas.
A terceira aparição que retemos é a mais secretamente insinuante. Foi na Rede Bandeirantes, numa gravação de segundos para um programa chamado Band Fashion. Convidada a escandir para as câmeras um sonoro “Band fasssshion”, como fazem os sorridentes entrevistados do “GNT Fashion”, na emissora rival, cuja fórmula se duplica, desta vez, uma Glorinha menos produzida trazia no pescoço, a título de écharpe, o chale palestino! (Ou algo muito parecido com ele, uma réplica perfeita). Aquele mesmo chale quadriculado, bandeira da OLP, que usávamos em Paris, há mais de 30 anos, quando fazíamos o doutorado e a revolução, e Glorinha, que ainda não falava às classes “c” e “d” _ que devem formar o grosso do público do Fantástico, a julgar pelo fato de que os nichos “a” e “b”, nesse ínterim, estão no teatro, no cinema ou no restaurante _, vendia aqui em São Paulo roupas de marca.
O que é que isso insinuaria? Sem pretender ser exaustiva: que apesar de as belas causas da esquerda se perderem na poeira dos anos de 1970, assim como a própria esquerda, uma parte de Glorinha _ a que vem a público no domingo à noite educar as massas e politizar a pólis _ abraça, agora, não os ideais dos 70, mas o que sobrou deles no ar do tempo de hoje, no país.
Voltando a Proust, ela não está tão errada assim. Quem leu Em busca do tempo perdido sabe que uma das maiores desilusões do narrador do romance, que encarna o último dos dândis, é constatar, no crepúsculo dos deuses, que eram os modos burgueses do salão Verdurin que eram progressistas, ao passo que o mundo Guermantes era coisa do passado!