Café Literário Cronópios

Grito bárbaro sobre os telhados do mundo
por José Inácio Vieira de Melo





 
Coluna:
O MENTIROSO
Maurício Paroni de Castro


Renato Borghi e Nelson Rodrigues, o casamento eternamente feliz
por Maurício Paroni de Castro




Tio Vanja brasileiro
por Maurício Paroni de Castro




Grand Guignol, o gênero degenerado
por Maurício Paroni de Castro




Influenza solitária de palco
por Maurício Paroni de Castro




Ruínas de uma arquitetura teatral em São Paulo
por Maurício Paroni de Castro




O corte da tarja preta
por Maurício Paroni de Castro




O desenho angustioso do limite
por Maurício Paroni de Castro




O velório indecente
por Maurício Paroni de Castro




Satyros, Sons, Furyas
por Maurício Paroni de Castro




Devedores de Pirandello
por Maurício Paroni de Castro




O Aleph, uma vela e um olho
por Maurício Paroni de Castro




A mão do gato
por Maurício Paroni de Castro




Do Filme A Via Láctea -
por Maurício Paroni de Castro




O Mentiroso Mergulha em Shakespeare de Verdade
por Maurício Paroni de Castro




Mini-artigo sobre a malvadeza (complementar a “Quando a vida se liberta da obra”)
por Maurício Paroni de Castro







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
05/05/2008 22:23:00 
Satyros, Sons, Furyas


Por Mauricio Paroni de Castro



“Vanessa Bumagny e André Sant’Anna apresentam espetáculo que mistura, música, literatura, teatro e balé, sempre com convidados especiais, com quem dividem o palco. De setembro de 2007, passaram pelo Satyros Sons e Furyas: Luiz Gayotto, Kleber Albuquerque, Marcelo Mirisola, L.R. Guedes, Estevan Sinkovitz, Nô Stopa, Zeca Loureiro, Sérgio Sant’Anna, Ricardo Teté, Danilo Moraes, Rogério Bastos, Henrique Alves, Elio Camalle, Helô Ribeiro e Cuca Ferreira. Além disso, o show trabalha textos literários de André Sant’Anna, Sérgio Sant’Anna, Marcelo Mirisola e Verônica Stigger, por enquanto... Vem mais novidade por aí. A formação atual é: Vanessa Bumagny,André Sant’Anna, Helô Ribeiro , Elio Camalle , Zeca Loureiro, Henrique Alves, Rogério Bastos,Cuca Ferreira.”

 

Isso é o que eles dizem do espetáculo.

 

É muito mais: É uma performance niilista das boas, como poucas vezes se vê. Nihil e o Bem, coisa difícil de casar. Em geral, o niilismo apresentado nos teatros cai sempre no que  Heiner Muller - jamais de dizia verdades abertamente - confidenciava ser desespero de filhos de democracia decadente.

 

Ao darmos a merecida atenção às palavras que circulam no Furyas, a revolta que comumente um cidadão prova contra a condição política e social brasileira adquire uma gramática que define os limites do quadro miserável pintado. Desfilam na mente do espectador deficientes físicos e mentais enganados pelo cristianismo, cantoras portadoras de vulvas vulcânicas reprimidas pelo corpo e emancipadas pela voz, escritores necro-românticos, pastores assassinos, felizes legionários sádicos, ratazanas mudas que escondem a sensualidade embaixo do palco e muita, muita iconoclastia. Nada de iconoclastia neurótica de adolescentes mimados; iconoclastia racional, bem representada e bem vivida no palco por gente madura, que homenageia honrosamente o que Buñuel e o Surrealismo apregoaram.

 

Isso pode ser visto em São Paulo. Porém... Nenhuma resenha ou qualquer aceno na mídia, confissão publica do escandaloso caráter mainstream que impera em nossas relações humanas, comunicações ou leituras quotidianas, alternativas ou não, de “esquerda” ou de “direita”. Para estar em sintonia, exercitemos o nosso niilismo ativo: comportamento coletivo para a deseducação da assustadora massa de ignorantes que já começou a nos suceder; uma miserável gestão dos futuros artistas da arte performática brasileira, com seu público a eles homogêneo.

 

Vamos um pouco mais fundo. Sejamos mais práticos.

 

Ir lá e aplaudir é um ato político, é ir contra a homologação do nivelar por baixo a expressão teatral através da pseudo-sofisticação dos recursos disponíveis. Basta  usar panelões na luz, que já te respondem que não tem para alugar porque é coisa velha, prefira-se pagar muito mais caro pelos refletores  “modernos”, assessorias de imprensa caríssimas, cultura como “negócio”. Mas o niilismo vale também para o outro lado: Não é porque se assume a forma precária buscada e assumida dos espaços Satyrus 1 e 2 que o espetáculo terá seu efeito, pois é claro que muitos dos que se apresentam  ali na praça têm e desejam o Renaiscense como objetivo artístico. Cada um faça o que quiser, mas a contradição é imperdoável. Nietszche diria “a forma é fluida, porém o” sentido “ainda é mais” (Para a Genealogia da Moral, 1887).

 

Há grande diferença entre a performance niilista do Furyas e a vagabundagem artística descrita acima. Nesse espetáculo se sente a criação de valor a partir da negação de acreditar nos livrinhos bíblicos e na política como é feita hoje. Aqui o espectador entende o que pode fazer de si mesmo. Pode gargalhar da derrubada dos seus próprios ícones comportamentais já estilhaçados, pode divertir-se com performers que iluminam o lado oligofrênico projetado em si mesmos para acusarem os que se aproveitam da debilidade cultural, social e mental da massa reprimida.

 

O espetáculo é universal ao florescer num caroço paulistano. Pode existir somente no porão cinza que é São Paulo, ovulador da alegria de sobreviver nesse antro de fealdade sublime. É ótimo constatar que tem sempre alguém que sabe descrever esse sentimento, que nada tem a ver com o cartão postal da esquina da Ipiranga com a São João. Estamos bem perto de Albert Camus, que muito se impressionou com esta cidade.

 

Igualmente enfermo, cúmplice e ruidoso, acaso não lancei meus gritos por entre as pedras? Também eu esforço-me por esquecer, caminho através de nossas cidades de ferro e fogo, sorrio corajosamente à tristeza, chamo ao longe as tempestades, serei fiel. Em verdade esqueci: sou ativo e surdo a partir desse momento. Mas um dia talvez, quando estivermos prestes a morrer de esgotarem e ignorância, eu possa renunciar aos nossos túmulos espalhafatosos para ir deitar-me no vale sob a mesma luz, e possa aprender pela última vez aquilo que sei.
                                                                                                          (Albert Camus, Regresso a Tipasa)


Por falar nisso, a cantora Helô Ribeiro, ao interpretar “A Muralha” é a própria Maria de “O Estrangeiro.” Ainda com Camus em mente, relembro ao leitor que evito escrever mal de coisas que vejo e não gosto. Assim posso manter a sinceridade sem ser processado por isso. Esta coluna tem o objetivo de falar do que é de boa qualidade.  As ratazanas de Oran que se ocupem em dar espaço a tudo o que é ruim, para se sentirem melhores e morrerem numa cidade feliz.

 

 

 

 

 

 

 

Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana.
E-mail: paronidecastro@gmail.com

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Maurício Paroni de Castro no Cronópios.