Café Literário Cronópios

Poemas
por Edmir Carvalho Bezerra





 
Coluna:
CONSTELAÇÃO DE SALIVA
Carlos Emílio C. Lima


A foca
por Carlos Emílio C. Lima




Interregno
por Carlos Emílio C. Lima




Inquisição
por Carlos Emílio C. Lima




Solário
por Carlos Emílio C. Lima




Viagem
por Carlos Emílio C. Lima




Ciclo
por Carlos Emílio C. Lima




Os cadernos das devorações felinas
por Carlos Emílio C. Lima




Silencioso como o paraíso, o livro-mente de Vicente Cecim
por Carlos Emílio C. Lima




No Antigo Egito
por Carlos Emílio C. Lima




Cabeças decapitadas
por Carlos Emílio C. Lima




Róia!
por Carlos Emílio C. Lima




Orbitação
por Carlos Emílio C. Lima




Jagarananda
por Carlos Emílio C. Lima




O que aconteceu antes
por Carlos Emílio C. Lima




Sempre ao redor de Wuêé
por Carlos Emílio C. Lima







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
31/05/2008 17:42:00 
O que aconteceu antes


Por Carlos Emílio C. Lima

 

         Você ontem foi me procurar e não me encontrou. O apartamento estava fechado. Hoje sei que você se cagou todo ali, sujou todas as trinta e seis escadas e quando o porteiro lhe viu no meio do cheiro da bosta infinita que você deixara solta por todo o prédio quis chamar a polícia. Você sabia que pensava que eu estava ali porque o som dele se infiltrava por todo o prédio em hélices metálicas. Você se atirou para lá, com bastante medo, com todos os medos porque estava certo, naquele instante em que seus sapatos desapareceram num zumbido formigante por seus pés quase levando metade de suas pernas de roldão, de que a cidade ia subir imediatamente naquele som para o alto, para o mais agudo alto da distância. Você sabia. E me disse depois ao telefone no meio do ruído  de grossas águas eletrônicas, acionando controles, minicomputadores da maldição num assobio de pássaro ferido de pavor que não era com delicadeza a sua voz que se projetava por dentro do meu labirinto cheio de jardins, que aquela não era a sua voz, que assumira o controle de setor, incertos rios, a proa para todos os rumos, que assumira que não era mais aquele menino que comigo falava ao telefone e que não me reconhecia mais na minha voz mesmo ela me apertando num cinturão de ruídos cingindo-me de ouro rouco nos rins e de repente ali por meio do abismo negro do telefone que vinha percorrendo-se nos fios no interior de seres deambulatórios e que explodiam em nódulos de luzes e gritos, buzinas, fumaças, você havia se transformado em mim. Tinha certeza. A cidade subira. A alma total da cidade misteriosamente subira num som de rubi para o alto que eu queria agora que você corresse à janela e visse todos os talões acesos passando em silêncio por cima dos arranha-céus, tendo neles essa história escrita. Mas veja, a Terra está ali, toda a cidade. Estamos de cabeça para baixo. Rinocerontes, anjos e trovões, todos ali onde depois das nuvens, está percebendo? Puxe o fio comprido desse teu telefone e se ponha a escutar o que estou dizendo mas olhe pela janela agora mesmo, é por detrás de um cristal do olho de uma estranha mosca gigantesca e invisível, você sabe, você está vendo mesmo? Os arranha-céus apontam para a Terra lá em cima, não está vendo o planeta girando com seus mares cheios de pontos luminosos?... Todos  aqueles navios, num deles estou eu a te falar aqui do oceano, posso ver a cidade flutuando, girando, rubi em fogo pelo negror do ar de todo esse abismo-assovio, você está a ver, aos gritos, os rios, passa agora por cima daquele rio onde você me viu pela primeira vez no meio da ponte, pode localizá-la, não precisa de memória não, está ali, agora mesmo e eu estou te pedindo para não falar com você deste modo, sei que agora sou você, que nos separamos desse modo, estranha nota, sei, vou-me embora nesse zumbido, você não vai poder nunca mais me tocar como fazia antigamente lá nos prados metálicos da cidade de gozo e fogaréu e quero imediatamente desligar o telefone que não sou tua carpideira. Vai dormir. Amanhã você acorda bem. Que nada que água que fogos que danças que trins sem mais fim soando pelos corredores. ABRA A PORTA! Eu sou você. Você sou eu. Temos que mudar. Você está girando, não pára. Vou até seu lugar, vou falar diretamente com você. Espere-me quietinho aí mesmo no meio de suas almofadas chinesas de todas as cores. Você sabe em que casa eu estou sozinho falando com você. Vi que você não ia entender. Vovô, vou te chamar de vovô aos risos, aos chicotes, aos grilhões, aos peidos, eu vou chamar de vovô dos cachorros, pensa que eu não sei de tudo quanto você faz sozinho quando não pensa de nenhuma maneira em você que sou eu que é você. Pensa? Espera aí. O porteiro está batendo na porta, o som está muito volume, acabou de nascer uma criança no apartamento ao lado de dentro de um solo de guitarra-elefante. Aos trambolhões, aos gritos. Parido pelo som de uma astronave musical. Exatamente. Foi você, você é um criminoso e mesmo assim eu queria ver vocês mas quem fala nesse instante se corta os pulsos os impulsos a cidade sobrevoa de cabeça para baixo toda a Terra num segundo. Seguro-me ao telefone. Quero gritar com você até gozar. Bater em você até morrer. Com três rrr. Arrrrr. Quero ar. Em bolhas, ar em bolhas, não agüento mais. ABRA PELA ÚLTIMA VEZ A PORTA. Os peixes se movimentam nervosos no aquário. A campainha está tocando. Te conheço muito bem. Quando a Silvia chegar de viagem ela vai ficar sabendo. Vinte pessoas num apartamento pequeno como esse. Meu irmão, que é que isso? Não é pra fazer escândalo, aqui não há ninguém, vou baixar o som. Acalme-se. Tome cinco mil, fique quieto, não foi nada e viva as nuvens, os pássaros, os sonhos das nuvens por onde passam os pássaros. Abra-se comigo. O que está acontecendo. Não comeu hoje? Vou te levar uma pizza quentinha aqui da esquina. Desculpe a interrupção mas é que o som estava muito alto mesmo e o porteiro veio reclamar que todos os vizinhos estavam lá embaixo em comissão exigindo do prédio minha expulsão. Num raio, suma num raio. Suma. Desfaça-se, descumpra-se, enovele-se novamente. Deixem-nos em paz. Não queremos nada com você, em nuvens, aqui estou em nuvens, me vou para sempre. NÃO GRITE TÃO ALTO, os alicerces, está ouvindo, os alicerces. Eles se movem sobre pasta móvel, plástica. Em ouro, em nuvens, em músicas, vocês é minha tesoura, cortas minhas veias, capilares que expelem iodo e magma. Mostre seu A de diamante entre as cortinas, entre véus, num solo arabesco de chamas de guitarras. Essa a beleza: carros muito rapidamente trafegam pela cidade em silêncio pela cidade do sono onde nem todos dormem. Vamos prosseguindo, indo, bom. Você não sabe fazer nada. Você é um impostor. Você é minha flor de bosta de zebu, você é meu cogumelo, meus tornozelos, meu pânico e meu azedo zelo. Bebe mais um gelo. Toma. Aí. Viu, estamos no espaço. Só portamos objetos mas sobre piso solo teto não pisamos. Estamos no espaço. Eu não disse e tua voz preenchendo o meu labirinto onde nos encontramos nus afogados, afogados em talco por esse gigante de brisas que nele vai se movendo procurando nós dois por dentro dele. Estou aqui em teu coração. Bate com força nele, mete uma broca, aciona a eletricidade, busca em cheio dentro do susto do estampido, nós estamos aqui, em teu coração. Aos zumbidos, em enxames. Moscas, moças e rapazes. Todos atolados no teu sangue anestésico, sangue mar de esquecimento. Todos vermelhinhos líquidos aqui. És tão sacana que não sentes nenhuma dor da nossa presença tão remota por ser esta, aqui. Lapt! Vai! Parte para longe. Bate com um tapa no peito suado, do lado mais pro esquerdo, bate, estala tua mão sobre nós em teu peito suando de esquecimento. Ligados todos os ventiladores em nossa busca. Da hipófise lança-se o trinado de perseguição. Alfa beta e beta alfa precisam ser encontrados. Hemólise, transfusão. Já. Precisam. Onde se acham. Lá embaixo, fone oco para números em névoas serem num sopro expelidos, torneiras, alto fornos, vaga-lumes. Ruído de teco-teco. Espanador em chamas. Aparelho de som a todo volume no século vinte. Navegaços. Persegue-se. Vou ouvindo. Acendo-me. Estou precisamente em qualquer parte. NOVAMENTE O PORTEIRO VEM BATER À MINHA CAMA? MEIO METRO DA PORTA.  Todos estão dormindo. Só eu te escuto ao telefone e de fato a cidade está girando, estamos sendo sacolejados num saco cósmico. Socos na porta. Somos os pós, pós, pós. Bam! Não pode ser, ele entrou, veio com a policia. Todos agora acordaram. Fábio, Andréia, Lúcio, Janete, Mariozinho, Sérgio e André: a polícia tá pegando todo mundo nu antolhado entulhado nesse apartamento o que dona Silvia vai dizer até os peixes no aquário mas estou pagando para ficar nessa  porcaria, aluguel e tudo o mais e depois o som não estava tão alto e podem procurar fumo que não vão encontrar nem um toquinho e se consigo te telefonar é que chegou por coincidência meu tio advogado com privilégios e parlamentou com a polícia e já está tudo arranjado só não teve explicação mesmo foi a caganeira por todas as escadas porque você fez isso?

         Mas se eu fiz isso vou repetindo é porque algo foi me partindo pondo-me aos pedaços, você mesmo ouviu o zumbido que se intrometia por dentro do concreto, por dentro dos aços sem sol, se infiltrava serpente de todos os sons mais infros à procura de ti. Era à  ti que esse som-cobra-total te procurava e se estou ao telefone é que grito do ápice dessa dor na crista da onda, na mais alta e nervosa agora que se atira contra o céu e se perde sem voltar ao mar, se evapora minha voz-ser-viagem por dentro do teu labirinto, essa coceira na ponta da orelha é o portal para a viagem em teus jardins de éter mas você é tão gigantesco, tem mais  de vinte milhões de habitantes nessa tua parte esquerda que não pode nunca ouvir nossos gritos, não pode sentir nosso amor de fenos, camas e mesas e praças, fábricas, ruas velocíssimas, mais velozes que os jatos, e você está girando, girando, se embolando, sentimos tua dança, tremem os cálices já sem vinho, a fumaça de nossos cigarros desnovela-se ao contrário. Cara, vai dormir, é tarde, tenho que acordar cedo, bem de manhã vou para uma praia com um pequeno grupo de amigos, já resolvi o problema do apartamento, me deixa em paz. Vou desligar. O som a todo volume para comemorar a salvação. Se quiser vem pra cá. Dormimos juntos mas por favor não me confunda com ninguém. Eu sou você. Você sou eu. Pêndulo. Pêndulo, penduricalho. Estrela. Estrela. Vais saber. A ponta daquele prédio arranha-terra, poeira, sulco imenso vai rasgando, olha o ruído, tudo aos pedaços, sobre nós. Ai. Sersolvente esse som que elevou a alma para a cidade ascender ao diamante. Como um sino horizontal feito de mar eletrônico.

         Mas eu não posso encontrar você dois. Vocês são tão minúsculos, navegando verdadeiramente em meu sangue, píons humanos, pavor para minha ampla clara consciência. Dorme, dorme, então. Viaja no teu sono e nos descobre, asa de um peixe lá longe no arco-íris, abrem-se um milhão de olhos girando velozmente recobertos de espuma. O ser dos olhos vai navegável prolixo completo. Vai longe, como todos os mergulhos. Ele novamente vai se aproximando mas que não venha em caganeira  de medo, não suba as escadas do antigo modo, deixando seus rastros completamente humanos a cada degrau recobertos de pastilhas. Tudo escuro. Acende o isqueiro, deixa eu te mostrar uma cidade octogonal, essa pequenininha aqui, veja, apenas uma pastilha-cidade. Pisa com força. Assim. Bate com força tua sola sobre ela. Mais. De fato. Não ouvirás uma trombeta que harpeja em ruído de silêncio que invariavelmente sentimos. Ou sentimos não? Num degrau, o sétimo degrau. Outro dia o menino reclamou porque eu me caguei todinho aqui, quase todo o meu ser subindo os setenta e seis andares numa viagem terrível mas hoje eu descobri, taqui a cidade que eu buscava. De oito lados, pastilha preta no sétimo degrau mimeticamente situada, como numa biblioteca para ser lida por solas de sapatos velozes. Você não sabe nada., disse-me rindo este que eu estava te trazendo. Você sabia, ele não vê a lua nunca. E o sol, o sol o sol o sol o sol o sol o sol o sol o sol o sol o sol o sol o sol o sol? Isso ele vê completo. Diz que a gente está dentro do sol. Que as cores, as pessoas, os automóveis, os ambulantes vendedores, todos são pedaços do sol, aos gritos, aos ritos. Não é mesmo, Roberto? Não é o que você sente? Toca a pele dele, vê se ele tem mesmo a gente dentro da gente. Ele é tão grande. Tem trombetas embebidas na pele que só se desprendem ao som de nossas carícias. Não é incrível? Mira seu coração. Ele gosta. Ele está procurando alpha e beta dentro do labirinto de si mesmo. Por isso que nos quer aqui, no seu apartamento. Veja esse aquário cheio de peixes, tem até um cavalo-marinho. E um canteiro de marfins e de coral. E um piano feito de pedra pome. Para os peixinhos se esfregarem.  E se tocarem, tocarem. Tocarem? Saíram esses borbulhos como num copo de cerveja. Vamos pregar nossas faces contra o vidro do aquário, vai ficar faltando uma quarta face. Mas essa que está faltando a gente pode imaginar. Sobe, sobe, esse som continua subindo velozmente a cidade para o alto. Como as gotas que a máquina de oxigênio faz na água do aquário. Você sabe. Ao telefone a gente pode gritar. De hoje em diante te peço desculpas por tudo que te disse naquela viagem. O torneiro-mecânico, metalúrgico disse que viu um fantasma estranhíssimo, todo de vidro como escamas, lâminas, facas afiadas, recoberto delas flutuando sobre as máquinas, de madrugada, ficou de vigia aquela noite e viu. Vinha que vinha pelos túneis. Estampidos de vidros no silêncio da fábrica. Você não viu. Passa a mão em meus cabelos, assim, gostoso vão passando todos os trens para o oriente, alguém toca uma cítara ali no prédio ao lado, acho que no vigésimo andar, vai subindo, esse som como borbulhos, vai subindo nessa água invisível do espaço e do ar. Por mim, você está doido. Você queria que eu te procurasse? VOCÊ QUERIA QUE EU TE PROCURASSE? VOCÊS QUERIAM QUE EU VOS PROCURASSE? Nos assustamos todos nós de repente dentro de teu labirinto. AH! estamos em três prédios, cubículos, suficientemente numerados, aos ritmos sincopados trabalhamos, trabalhamos, mais, assim que tu gostas, na eterna máquina do erro, quem nos fala nesse assusto para todos os carros buzinarem buzinando, frases e mundos ao contrário, prosseguindo, indo, indo, os corpos, os corpos, três aqui num trís, vamos descendo por dentro dos corredores, ele chegou, ele chegou de cima de seus altos, sem nenhuma numeração, o inumerável, quer nos pegar por dentro desse labirinto dessa cidade de fato, segundo alpha vai subindo nesse som que ele ouviu certa noite de um grito só de escuridão. O rádio diz que é só um terremoto que rebentou desde a Argentina. Nos pontos mais elevados da cidade é que ele foi ouvido. Pa. Pa; Papaquá. É ele, ouviu? Por aqui, atravesse, pule, é só um andar, para rosas ou mares, se atire, já. Ouço o som de metralhas que saem da televisão do aquário das águas do fogo líquido que se movimenta que aquela ninfeta segura dançando com as mãos. Ah a bola para o ar. Lá embaixo, não está vendo, por entre as antenas em primeiro plano aquela menina segurando uma caixinha d`ouro nas mãos, no meio daquela petralhada que sai das fábricas às doze horas. É ela, peguem levem-na para mim. Segurem-na. Dentro da caixinha d`ouro, fervilha em magma meu labirinto, toda essa cidade ali formiga. Formigas, peguem-na, às metralhas, tenham-na entre as mãos. Dançarina da caixa deve ser destruída. Torres desabam para um lado. Meu lado esquerdo. Quando ouvimos aquela voz preenche como um ar de fuligem de ecos todo o apartamento no momento em que pensávamos atingir o orgasmo, suavemente, fomos nos levantando e mesmo nus nos escapamos da cama, os três com nenhum esforço que o mais das vezes essas camas parecem possuir tão enorme poder de atração magnética e fomos nos soltando de suas amarras, fomos nos desacorrentando da cama, cama com buzinas, cama com vozes, cama com trins de todos os telefones do mundo, fomos correndo até à porta, derrubamos uma mesa triste pesada mesa desbotada de suas patas com o chão e sem circunlóquios atravessamos a mesma porta do apartamento com nenhum medo de madeira espessa e atravessada a porta num estampido oco vibrante aos frangalhos em nudez começando a vagar pelas setenta e seis escadas até o chão do prédio onde o porteiro já nos esperava infalível ao telefone novamente nos denunciando à polícia aos gritos e quando ele nos viu desataram-se os botões de sua túnica cinzenta um deles atingindo meu olho tão fortemente que me joguei contra ele como um touro às cabeçadas e da rua em diante não vimos mais nada mesmo nus mesmo com chuva cinzenta das fábricas dos carros das gentes que pensavam todo o tempo muito mal e a voz nos gritava formigas vos procuro no monturo humilhados é que vos trituro com mais gosto viciados é que vos amo meus relâmpagos são os chicotes os mais sutis para vosso gozo multinário de seus lábios que partíamos velozmente quais rapazes perdidos nesse seu labirinto tão imenso já sem curvas só de cubos retângulos hexágonos numerados tão voraz a mente amarga-marga não satisfazia preciosos filtros nem as guitarras nem roupas de couro arcabuzes canhões estampidos completamente ao luar. Clan não via aqui mesmo a lua cheia como dizia e isso ainda mais nos preocupou ah e a menina sumia sumia sumia nas ruas quadrangulares do destino por dentro do labirinto e aqui da orelha vos falamos ao telefone você está nos ouvindo sabe com quantos ovos se faz um universo sabe que de teus olhos somos as lágrimas vozes velozes escamantes lágrimas pelas regiões de todas essas cidades que se movem por dentro de teu labirinto somos os três vos falando imediatamente ao telefone se nos buscas  com vossa bocarra dá-nos sinal sinal, um simples sinal de tua amada, em que vagas, em que vaga, trombetas, buzinas, raios, antenas, papagaios soldados, querubins, mares. Em que micro-instante és tu que vagas, és tu mesmo a tua própria amada, pois senão ovos nesse mercado celeste.

         Esqueço-me bem ou não foi amanhã que isso aconteceria. Nunca não será por outra coisa que eu não me encontro aqui, maldosamente me assinalam. Realmente ele subia as escadas daquela maneira mas não contou os degraus e por isso estará salvo incompletamente mas já é um bom sinal no queixo que eu vi nele por uma face de uma velha que passava próxima  á banca de laranjas. Ela pegou uma por uma e tomou o táxi, completamente abarrotado com as laranjas, pagou caro ao motorista mas levou todas as laranjas da banca dentro do carro. Todo mundo olhando gritando porque as laranjas quando estão douradas daquela maneira nos fazem gritar. E eu gritei. Todos nós gritamos por aquelas laranjas de ouro no meio da fumaça dos carros. Cada um queria aquela predileta. Ela ia e vinha pausadamente. Todo mundo começou a olhar, a contar quantas laranjas ela levava de cada vez para o táxi. O motorista, um rapaz jovem de camisa branca, de olhos pretos, quis ajudar a velha. Ela olhou para a cara de laranja dele e disse num gesto que ele não ousasse tocar em nenhuma laranja. Virou-se para nós, para o dono da banca de laranjas e disse que nenhum de nós sequer olhasse com olhar mais táctil para as laranjas. Só ela poderia pegar. E de uma em uma, lentamente, que pagava bem pela paciência dele. O táxi fora estacionado bem na esquina, a banca também estava na esquina, seu Joselino não tinha vendido nenhuma durante todo o dia de sol que era aquele. Tinha um papagaio por cima dos ombros dele que dizia assim: pedra vai pedra vem, olha pro céu querubim, bem devagar, olha para eles todos, essas mulheres de zumbidos, esses garotos de abismo, olha com tuas feridas todas para eles, eles são poucos porque são muitos, seriam muitos se não fossem nenhum. Pergunte ao seu Joselino quem era que tinha escrito aquele poema que o papagaio recitava, ele disse, os olhos para o alto, em tontura alegre pergunta de repente feita pra ele, eu, meu filho sou poeta mas este poema que o papagaio recita foi meu filho que fez pra o papagaio recitar aqui quando o sol tá tão quente que fica quadrado. Mas aí, a conversa se demorando, gostosa, mesmo no meio do calor das buzinas, a velha veio para perto de mim e me disse, não ouse tocar em nenhuma dessas laranjas, rapazinho, não invente história de conversa sobre poesia pra poder tocar nessas laranjas e aí ela me deu dinheiro para eu me afastar e silenciar. Chegou para perto do seu Joselino e disse para ele no ouvido qualquer riacho de conversa muito rápido. Seu Juselino se entristeceu, pegou com a mão direita na mão esquerda, a mão que gosta de apontar para uma montanha (depois eu digo, não digo?) e entregou para ela o canivete com um tremor das mãos que já vinha anunciando outros futuros terremotos. Titubeou. Babou, deu um grito e foi dizendo bem alto, tome seu dinheiro, devolva minhas laranjas. Devolva, sua besta. Não quero vender para você mais não. Matar meu papagaio é que não. A velha deu um pulo. Um papagaio veio pra próximo do outro, de súbito, como um susto impossível, de pó, desses de trins, zumbidos, cocos rolando por escadas em caracol. Diamantes no fogo do mar. Não e não somente. A velha deu outro pulo. Passou um avião zumbindo por dentro da gente. O velho paralisou-se completamente. Rendido, cedendo. Não disse mais nada toda a vida, pressentíamos. A velha pôs um binóculo nos olhos dela e olhou para as três laranjas que restavam sobre a banca de madeira de seu Joselino. Olhou como se olhasse para planetas em plena rua, boiando sobre todos nós. Essas três não vou levar. Essas três laranjas são pra sorteio. Todo mundo foi ficando muito feliz então porque ela ia sortear as laranjas com a multidão observante. Mas primeiro, e enquanto ela dizia isso foi tirando das mãos titubeantes de seu Joselino o canivete e, zapt, matou de uma degola o papagaio. Foi um grito tão sem fim que nem podemos gritar junto com ele. Foi um ai humano mesmo, lá dentro dos muros cinzentos da rua foi ficando armazenado e o nosso silêncio sentimos formigando por todo o muro comprido urbano protegendo tapando o grito do papagaio que ficara ali horizontalmente pra sempre. Pois não era assim que exatamente eu sentia junto com os outros ali. Mas ela nos disse e já usava um megafone para que do alto das múltiplas janelas se ouvisse seu grito sobre as cores, deflagrando fantasmas da baba nas antenas que o que ela estava dizendo em cumprimento não era ela que dizia, a forma da voz não era dela, assim com enseadas na memória, não era ela mesma que dizia com pedregulhos muitos finos de salto em salto sobre as sílabas tais palavras eram gigantescas não eram dela, os atos não eram dela, que a desamarrassem daquela prisão de laranjas multiplicando-se que o papagaio ali estava seu corpo não era também ele, que seu Joselino não era ele, que a banca de laranjas não era uma banca de laranjas, que nós não estávamos ali embora jurássemos que estávamos ali ouvindo a voz que não era dela, vendo o corpo que não ela era, vendo a cidade que não era aquela. O motorista deu um pulo, veio um guarda, deu outro pulo no meio de uma vaia queimante de ironia, vimos o pau duro dele olhando por detrás do algodão cinzento da calça dele pra gente procurando o mais bonito para prender, vimos que não poderia nada acontecer ali de definitivo de real pois foi uma confusão mas ninguém conseguia tirar o megafone encravado na boca da velha, não sou política, ela dizia, nem mexeriqueira, só quero levar essas laranjas para o mar e se eu não matasse esse papagaio eu não ia conseguir descer essa montanha até o oceano onde jogarei todas essas mil laranjas no brilho das ondas. E aí apareceu você, você tinha um sinal no rosto muito lindo e eu me apaixonei. Silvio. Silvio, na cidade dos túmulos eu me apaixonei por você. Glória na cidade dos túmulos, eu me apaixonei por você. E você veio correndo até ela como se viesse de dentro de um corredor de elefantes sincronizados de nuvens,  massacrados, nas buzinas dos sorrisos, você veio nas antenas de um cometa, quase invisível você veio, com as veias mais à mostra do que todas as estrelas do céu, você veio movido pelas águas, você veio. Fez-se um silêncio pesado de cidade, a fumaça se dissipou pelos rins, da pedra dos cantos das calçadas estalaram faíscas de dança e foi trazendo a paisagem. Tinha um diadema na cabeça, cheio de músicas bem finas e brilhantes esse diadema, você estava quase invisível, um assobio em suas veias parava o barulho da cidade, você veio aos gritos dizendo que a velha sabia de você desde o princípio embora nunca o tivesse visto antes em praia nenhuma dessas ruas, você então nos disse num salto de alegria que era você que era a alma do papagaio ali em carne e caos. E muitos ecos. E você tinha uma espécie de bico gelado só sentido por meus olhos dos mamilos e por esse bico num lugar no pescoço da velha, naquele instante o soldado estava petrificado, uma estátua oriunda da lapidação feita pelos carros que passavam em mais estranho silêncio e não se ouvia nenhum ruído por toda a cidade que agora era sua voz completamente, rios de luzes, rosas de poeira de medo despetalando-se com seus passos. Tocou sua mão no guarda e disse: essa estátua, cinzenta dura é a Amazônia. Eu sou o papagaio que essa velha degolou. Bem alto. Tão alto que vimos que se olhássemos para cima viria uma tontura de todo o oceano com  seus cintos, pedreiras, turbinas, peixes de lata sonâmbulas conchas, deambulantes vidrinhos náufragos de tocar-te, geminados passos reconstruídos do cansaço. Turba alto, grita, turba alto, sobretudo fere os navios, removimentando nossas mãos. A velha estava entalada pelo megafone, parada, extática de tantas ruas, respirando com as ondas bem distantes, cada minuto de sua pele era tecido pelo vento e pela água, pontinhos satisfeitos de tantos risos suas células, senhora dos galos do encantamento das laranjas porque ela estava bebendo seu sangue sugado pelo canudo da garganta do rapaz do de repente que ali chegara para evitar que ela levasse todas as laranjas da banca de seu Joselino. Seu Joselino o reconheceu. Sorriu num espanto feliz. Aprumou até as mãos desconhecidas para tocá-lo com carícia de seus filhos inexistidos produzindo-se ali pois já babava de satisfeito, sem mesas e cadeiras para sentar-se em sua mente. Mas porque você era tão branco como um curvo arco em volta de um sol? Tudo entortava-se, tudo ia para baixo de algum  chão que não pisávamos por saber, então você foi então. Assim. Por mim estiquei o pescoço, senti-me um galo. Proferi. Aqui, aqui é mais alto até aqui. Ele, ele chegou. Veio de medo de linhos de ti, e desfiou-se. Como se de um túnel de rios ele viesse assestou-me o seu olhar mais branco ainda do que sua pele quase ficando transparente de veloz que ele corria até a velha e agora segurava pelo pescoço e ia brincando a velha com uma hélice de um ventilador que girasse mais rápido do que possível e já era o terceiro táxi que a velha tinha trazido para levar todas as laranjas até o sopé da montanha onde estava o mar principalmente. Mesmo com o megafone preso ao meio da boca já sem gritos, os olhos chupados, saltando pelo céu, levando aquelas bicadas, todo mundo imóvel no silêncio da cidade mais que geral vendo tudo então que não acontecia como poderia mas em outra forma que não era propriamente um acontecer mais uma coisa mais, mais trinado, mais elevando-se de outra hora sobre a curvatura de uma outra esboroada no  sem som de não existir, mesmo sem ser assim tão descritível a velha foi tendo seu sangue levado pelo menino que matara antes em papagaio antes preformado. E caiu sobre as laranjas desfeita transformando-se aos gritos e guinchos dos sem sangue na mesma ave que matara, diminuição para penas, asas, cores, gritos, caos, chuva sobre a ave, na sarjeta sendo levada cada vez mais pelo riacho de lama cheio de cascas de laranjas que escorria mais rápido que o tráfego-noite vindo estrelas também em movimento acompanhando todas as pessoas que saíam agora de todos os edifícios, fábricas e os bueiros junto com a fumaça e os gritos que todos nós fizemos quando o rapaz (será que é filho do Joselino, o tal poeta que ele falou) foi seguindo o cadáver da ave já sem gritos de nenhum de nós porque parecia que a cena acontecia numa molécula do espaço de-ninguém-ver e foi, e se atirou e pegou a ave sem cabeça com as mãos, atravessando-a na boca entre os dentes e foi comendo, e um cheiro de flautim foi saindo da boca coalhada de sangue, foi saindo aquele cheiro de flauta orgânica, foi escapando pelo ar transfigurado enfumaçado barulhento entre vidros aços gritos, vozes, passos e buzinas, foi comendo então para sempre a ave que era a tal velha já sem sangue foi comendo um sanduíche aflito entre os apitos dos guardas que chegavam toda a ave  suas cores borradas de chuva ácida na frente da gente sem nenhum pudor medo trejeito outro que não fosse infalível comer por escadarias de seu ser desfazendo-se de todos os tumores, sinais, sardas. Manchas, tudo que houvesse em sua pele só imagens foi se desfazendo cada vez mais invisível foi sumindo fumacinha entre as cabeças da gente as laranjas no chão esparramadas pela confusão pois não saberíamos jamais o que não acontece ao acontecer já tudo engolido seu estômago parecia um pequeno balão inflando-se desaparecendo ao tocar no poste da esquina uma bolha ploft foi tudo ficando igual às coisas que víamos por detrás do ar não era mais visto só se o barulho que voltava do tráfego todos os sons fosse ele embebido aos rítmos de seu ser por dentro da cidade os túneis em ecos as ruas mais distantes escuras clareando pois seguia multiplicado em automóveis ônibus caminhões sirenes gritos giros mais remotos ia tudo sendo enfim nunca mais pude tê-lo pra mim nem sequer pude vê-lo por completo tocá-lo beijá-lo amá-lo foi-se embora por inteiro quando um guarda dos que chegaram urrou ao megafone a primeira letra de um nome que vinha se formando de todo o ímpeto da cidade toda num zumbido de fuga num barulho a esmo naufragando sem mais se saber o que há, o que há, o que há? Ele está nos ouvindo, menino, ele está nos ouvindo, um touro? Movam-se as roldanas em música. Descobrirás. Pela chuva que desaba em mim, descobrirão todos vocês o que pressinto. Não consigo falar com ele. Ele não responde a telefones. Ele apenas nos cala nus pela cidade. Seu esporte ausência de seu amado. Há milhões de mil anos trombeta na alvorada, estéril trombeta na alvorada. Porque você ontem foi me procurar quando sentiu que a cidade estava se fragmentando em micro-pedacinhos pelo som que a fazia subir em arco, em seta para a Terra que se esconde invisivelmente nos céus. Silvio. Choro nas faces. Choro. Choro. E que nos beijemos os três aqui na esquina porque sabemos que não é assim, sabemos que não é assim. E quebrem o orelhão de uma vez por todas. E tratem de descobrir... QUITES. Na chuva se organiza um templo cheio de vazio. Quando se agitam as águas há espuma. Esta é a região do não há para onde. De som seu labirinto, sua compreensão, seu centro de incertezas, seu ritmo de correntezas, cujas vírgulas sabemos que são pontos, cujos pontos sabemos que são ruas, cujas ruas sabemos que são ventos, cujos ventos sabemos que são sustos, cujos sustos sabemos que são gritos, cujos gritos sabemos que são voragens, cujas voragens sabemos que são serenidades embora, embora nada nos apavore. O QUE HÁ O QUE HÁ O QUE HÁ em seu labirinto nos pergunta a nós mesmos onde estamos e é isso mesmo que nós também nos perguntamos. Nos perguntamos mesmo para sempre.

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner. Publicou os romances
A cachoeira das eras; Além, Jericoacoara e pedaços da história mais longe e o livro de contos Ofos.
Este conto faz parte de seu livro editado recentemente, O romance que explodiu.
E-mail:
carlosemiliobarretocorrealima@yahoo.com.br 

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Carlos Emílio C. Lima no Cronópios.