Café Literário Cronópios

A região simultânea
por Carlos Emílio C. Lima





 
Coluna:
FARRA
Amador Ribeiro Neto


Arte e representação em nossa sociedade pluralista e mutante
por Amador Ribeiro Neto




Thomas Mann: oriental, oblíquo e irônico
por Amador Ribeiro Neto




Céu inteiro. O céu acima de Ricardo Aleixo
por Amador Ribeiro Neto




Novo volume de Roteiro da Poesia Brasileira
por Amador Ribeiro Neto




O haicaista paraibano Saulo Mendonça
por Amador Ribeiro Neto




Sobre a palavra
por Amador Ribeiro Neto




Ouvindo a terceira margem
por Amador Ribeiro Neto




A música em 68: os hits e os rapas
por Amador Ribeiro Neto




Poesia Marginal em questão
por Amador Ribeiro Neto




Duas ou três coisas sobre poesia e crítica
por Amador Ribeiro Neto




Jorge Mautner e suas canções homoeróticas
por Amador Ribeiro Neto




Contos homoeróticos de um estreante
por Amador Ribeiro Neto




Cazuza, cronista do Brasil
por Amador Ribeiro Neto




A fera que mora em Chico César
por Amador Ribeiro Neto




Adriana Calcanhoto e a poesia
por Amador Ribeiro Neto







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


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Jussara Salazar


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Amador Ribeiro Neto


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Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
06/06/2008 18:48:00 
A música em 68: os hits e os rapas


Por Amador Ribeiro Neto




Não foi só para o Zuenir Ventura que 1968 não acabou. Pra todos aqueles que viveram a inesquecível década de 60 este ano ficou encravado na nossa “memóriavivavida” como um conjunto de saberes e prazeres.

Em meus cursos de literatura na Universidade Federal da Paraíba vejo meus alunos de 20 e poucos anos falando da música desta época como uma coisa distante, que lhes chega pelas mídias. Mas cheio de molho. Afinal, 68 era o tempo de uma brasa, mora! Na parada musical de 68 Roberto Carlos emplaca o rock de “Se você pensa”, também gravado por Gal Costa no estilo Janis Joplin. Gal ainda arrebentava com aquela que considero a mais bela canção da MPB: “Baby”, de Caetano Veloso. Na voz de Gal reverberava os acordes jamais esquecidos da música tema do programa de televisão homônimo: “Divino Maravilhoso”. Foi neste programa que Caetano cantou “Anoiteceu”, de Assis Valente, empunhando um revólver contra sua fronte. Era dezembro. O Tropicalismo, lançado no ano anterior, dizia a que vinha: bagunçar o coreto e tripudiar com o bom-mocismo das músicas.

Outro sucesso do ano, na voz de Caetano era “Soy loco por ti América”, de Gil e Capinan. Até hoje tocando no rádio e na TV. O Tropicalismo também está presente com a hipernarcísica “Superbacana”, de Caetano, e com a alegria doída de “São São Paulo” de Tom Zé. Os Mutantes, que já surpreendiam o público com “Proibido proibir” emplacavam com duas novas paródias: “2001” e “D. Quixote”. Era uma festa de arromba!

Mirian Makeba chegava diretamente da África com seu balanço provocantemente ambíguo de “Pata pata”. Os Beatles sacodem os bailinhos com “Hey Jude”, primeiro lugar no Brasil e em vários países. Além de “Revolution” que prenunciou as mudanças de 68. Sem esquecer “Hello Goodbye”. 68 era também um ano-Beatles.

Ao lado do rock, o bom samba. O magistral suingueiro Wilson Simonal faz o país o dançar ao som de “Sá Marina” e “Nem vem que não tem”. Sérgio Mendes estraçalha com “The fool on the hill”. Clara Nunes crava sua marca pra sempre na MPB com “Alvorada no morro”. Chico Buarque abandona a bandinha e estoura com “Carolina”, mais um samba que veio pra ficar pra sempre. “Sabiá” obtém o primeiro lugar no Festival Internacional da Canção e racha o público que queria “Pra não dizer que não falei das flores”.

Clara Nunes tem outra. Com “Você passa e eu acho graça” leva frisa o samba como coisa sua. João da Baiana nos dá o imortal, bem humorado e clássico “Cabide de molambo”. A eterna Elis vem com “Lapinha”. Um nome surge dos festivais de samba: Martinho da Vila, com “Casa de bamba”. O MPB4 com “Ela desatinou” cutucava com vara curta a ditadura militar. Era um samba muito cabeça – e os censores dançaram.

Como em toda e qualquer época, a caretice não podia ficar de fora. “Love is blue” de Paul Mauriat “Light my fire” de Jose Feliciano. “Tenho um amor melhor que o seu” de Antonio Marcos. “Última canção” de Paulo Sérgio – aquele que se apresentava com o sósia de Roberto Carlos. “Pra nunca mais chorar”, de Vanusa. “Do you want to dance” de Johnny Rivers. “Aranjuez mon amour” de Lafayette e sua orquestra. “Helena, Helena, Helena” de Taiguara. “A pobreza” de Leno. “O milionário” de Os Incríveis. “Quero lhe dizer cantando” de Agnaldo Rayol. “Eu daria a minha vida” com a chorosa Martinha. José Mendes antecipa a breguice do sertanejo de plástico com “Pára Pedro”. Gigliola Cinquetti alenta os corações kitsch com “Dio come ti amo”. Barbara Streisand estoura nossos tímpanos com “Free again”. Ou seja: havia brega pra todos os desgostos.

1968 é o ano do IV Festival da TV Record. O Tropicalismo, lançado no ano anterior, segue firme e forte, sem medo de temer a morte com “Divino maravilhoso”, de Caetano, interpretado por Tom Zé e Gal. O público ovaciona a canção. Mas o primeiro lugar seria de outra canção tropicalista e acidamente irônica: “São São Paulo” de Tom Zé. “Divino maravilhoso” fica em terceiro lugar. No segundo, “Memórias de Marta Saré” de Edu Lobo e Guarnieri. No quarto, a não menos corrosiva e totalmente pós-moderna, avant la lettre, “2001”, de Rita Lee e Tom Zé.

O festival de 68 consolida o Tropicalismo como o movimento cultural musical mais importante desde a Bossa Nova. A presença de Rogério Duprat e Damiano Cozzella, vindos da música erudita, aumentam o gás e fazem um “up grade” no repertório do público que, dali em diante, nunca mais será o mesmo. Tanto é que anos depois o Manguebeat sacode os rumos de nossa música popular. E está aí a Nação Zumbi comprovando isto. Para muitos a melhor banda do momento.

No mesmo ano o III Festival Internacional da Canção anunciava, sob estrondosas vaias, a belíssima “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim. O segundo lugar vai para uma das mais caretas canções de todos os festivais, a medíocre, sofrível e insuportável  “Pra não dizer que não falei das flores”, de Vandré, o mesmo compositor de belas canções líricas. Mas aqui ele pegou pesado na linha do panfletarismo político e fez uma canção datada, que apenas a desavisada Simone viria a regravá-la, recentemente, com movimentos de marchas marciais. Conseguiu fazer pior o que já era péssimo. O terceiro lugar fica com aquela que é uma das músicas mais insuportavelmente tocadas em barzinhos até hoje: “Andança”, de Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós. A canção é bonita, não resta dúvida, mas a obsessão em tocá-la toda hora, em todo lugar a fez vítima de si própria.

68: nem o AI-5, no final do ano, suprime a garra de nosso povo. Perseguido, vilipendiado, exilado, preso, torturado e morto os nomes da resistência musical e política não arrefecem. Formas de burlar a censura – sempre burra, castradora e injustificável – apareciam aqui e ali. Numa peça teatral, num disco, num show, nas conversas dos bares, nos corredores das universidades, estes focos de resistência dizem não ao não. A ditadura militar chegara. Mas não viera pra ficar. E assim se fez. O ano de 68 marcou a vida e a ação dos brasileiros. Que contra o vento, sem lenço, sem documento, souberamos perseverar, resistir, combater. Ainda que falando de lado e olhando pro chão. Mas havia a certeza do dia raiar sem pedir licença.

Mais uma vez a nossa MPB, sem deixar de lado a interface estética, põe o dedo na ferida da opressão. “Apesar de você”, de 1970 e “Pelas tabelas”, de 1984, ambas de Chico Buarque, são dois momentos basilares de nossa canção engajada estético-politicamente. Outro dia viria e veio. Todo mundo na rua de blusa 68.

 

 

 

Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.), organizador e co-autor de "Literatura na Universidade" (ensaios - Idéia Edit.).
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