Café Literário Cronópios

Matéria sobre o nosso Cronópios
por Pipol





 
Coluna:
A DIFERENÇA É O QUE HÁ
Eliana Pougy


Coisas óbvias e lugares comuns - final
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns XII
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns XI
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns X
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns IX
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns VIII
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns VII
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns VI
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns V
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns IV
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns - III
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns - II
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns
por Eliana Pougy




O menino do meio
por Eliana Pougy




Catadores de dignidade
por Eliana Pougy







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
25/06/2008 21:32:00 
Coisas óbvias e lugares comuns - III


Por Eliana Pougy

 

         Foram para o apartamento dele, na Liberdade. Um cubículo escuro, só com uma cama, uma cadeira, a máquina de escrever numa mesinha capenga, a máquina de mimeógrafo num canto, um fogão de duas bocas, a pia cheia de coisas sujas e roupas espalhadas por todos os lados. Ana estava tão assustada que nem reparou no quanto ele tremia. Ele ainda tinha a expressão de abandono gravada na cabeça, a cara dela quando saiu daquele lugar. Ela ficou ali, parada, olhando para os lados e não havia ninguém lá. Ninguém da sua família. Ele não tinha a intenção de falar com ela, só queria vê-la de longe, sua punição, seu castigo, sua mea culpa, sua culpa, sua enorme culpa. Corou. De repente, a onda de maconha desapareceu. De repente, ele tinha que protegê-la. De repente, ele precisava abraçá-la. De repente, ele se deu conta que ele era tudo o que ela tinha. Ele era responsável por ela, ele tinha de tirá-la dali, daquele pardieiro, ele tinha de lhe dar uma casa de verdade, ele tinha de trazê-la de volta, a sua Ana, a mulher que ele sempre amou e que traiu, cagoetou, dedurou, entregou de bandeja para os milicos, logo ela, a mulher que ele desvirginou aos dezesseis anos numa praia, no meio da lua, no meio da areia, no meio de uma viagem com LSD, ela, seu grande amor, seu único amor. Colocou-a para dormir, fazendo cafuné em seus cabelos ressecados. Ela estava pálida, tão magra, tão subnutrida, e ele perguntou onde estava a sua menina, a sua boneca rosada, aquela menina linda que fazia todo mundo sorrir, sempre feliz, um anjo no meio dessa merda de vida. E ela dormiu, sorrindo.

         Na semana seguinte, eles fugiram para o Chile.

         Foram anos e anos de mudanças, fugas, pedidos de asilo político. Mas o dinheiro começou a aparecer na vida deles. Ele fazia frilas para jornais e revistas onde quer que estivessem morando. No exílio, encontravam com vários companheiros de luta. Receberam ajuda do partido por um tempo, mas se desligaram do movimento rapidamente. Eles reconheceram que foram derrotados, que a luta armada tinha sido uma furada.

         A convivência com os colegas de Ana foi o remédio de que ela precisava. Ela se recuperou e, aos poucos, voltou a se interessar pela vida. Completou seus estudos em Ciências Sociais e em questão de poucos anos, tornou-se mestre e doutora. De aluna, passou a professora. Ela era extremamente competente em sua área, respeitada, apesar de ser jovem ainda.

Chegavam notícias do Brasil sobre as mortes sob tortura de estudantes, jornalistas, padres. Mas, também chegavam notícias sobre a Anistia, sobre os movimentos eclesiais de base. Em meados de 1977, eles começaram a ter esperanças de voltar.

Em 1979, eles desembarcaram em São Paulo junto com diversos exilados que voltaram a viver ao pisar em sua terra. Ninguém da família de Ana apareceu para recebê-la.

 

***

 

Ana conseguiu emprego em uma faculdade renomada, em São Paulo. Seu companheiro escrevia para jornais e revistas e seus livros começaram a vender como água. Tinham paz, agora.

Então, aos poucos, ele viu sua casa se enchendo de jovens cabeludos vestidos com roupas indianas e tudo ficava cheirando a incenso. Ele fingia que não estava percebendo o que estava acontecendo e só pensava no filho que ela teimava em não ter. Ele só queria um filho, porra. Ele implorava e ela falava nos escravos que viviam em fazendas no Mato Grosso. Ele falava em berço, fraldas, chupetas e ela falava em força trabalhista, em força sindical. Ele pedia cafuné e ela queria tomar cerveja com um grupo que trazia violão. Ele queria paz e sossego e ela queria colocar uma prancheta no escritório para fazer a arte-final do jornal do Centro Acadêmico da moçada. Ele começou a ver papéis espalhados pela casa com uma grande estrela vermelha e as letras P e T dentro dela. Porra, pensou, ela não aprende. Ele falava em decorar o quarto de hóspedes com papel de parede rosa ou azul? e ela gritava Diretas Já! E ele escrevia poemas e publicava livros, para esquecer.

Um dia, ela chegou abalada da faculdade. Tinha visto sua irmã. E Clara não a tinha reconhecido. Então, Ana entrou em parafuso. E toda a falta que sentia de sua família caiu em cima dela e a derrubou. Ana enfraqueceu e deixou de ir à faculdade, por uns tempos. Aos trinta anos, sentiu-se velha, cansada, sem forças. Percebeu que seu corpo estava ressecando e que se esperasse mais, talvez ficasse impossível ter o filho que ela prometeu dar a ele, se saísse da prisão. E todos os pedidos dele ressoaram em seus ouvidos ao mesmo tempo e ela se entristeceu ao perceber que o seu marido a amava tanto, tanto... e que ele só queria um filho, porra.

Então, Ana deu um filho a ele.

         Ana saía de casa cedo e voltava à noite.

         Seu companheiro não saía de casa, tinha um filho pra criar.

         Ana virava as noites redigindo textos de denúncia contra a violência.

         Seu companheiro varava as noites cuidando do seu bebê.

         Ana mobilizava-se em movimentos indígenas, em movimentos negros, em movimentos de mulheres, em movimentos gays.

         Seu companheiro se preocupava com as dores de barriga de seu bebê.

         Ana tinha muito que fazer, ela era uma cidadã.

         Seu companheiro trocava fraldas, fazia mamadeiras, lavava chupetas.

Ana chorava porque as eleições não eram diretas, ainda.

         Seu companheiro chorava porque tinha um filho, porra.

        

 

 

 

 

 





 

Eliana Pougy é mulher feita, mãe em andamento, artista em construção e professora em experiência. Já publicou em papel e em pixels, no Brasil e em Portugal. Recebe essa piada que são os direitos autorais brasileiros. É mestranda na FE-USP e professora universitária, além de capacitar professores em arte. Agora está aqui. E-mail: pougy@uol.com.br

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