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O que é mainstream
por Bráulio Tavares





 
Coluna:
CONSTELAÇÃO DE SALIVA
Carlos Emílio C. Lima


A foca
por Carlos Emílio C. Lima




Interregno
por Carlos Emílio C. Lima




Inquisição
por Carlos Emílio C. Lima




Solário
por Carlos Emílio C. Lima




Viagem
por Carlos Emílio C. Lima




Ciclo
por Carlos Emílio C. Lima




Os cadernos das devorações felinas
por Carlos Emílio C. Lima




Silencioso como o paraíso, o livro-mente de Vicente Cecim
por Carlos Emílio C. Lima




No Antigo Egito
por Carlos Emílio C. Lima




Cabeças decapitadas
por Carlos Emílio C. Lima




Róia!
por Carlos Emílio C. Lima




Orbitação
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Jagarananda
por Carlos Emílio C. Lima




O que aconteceu antes
por Carlos Emílio C. Lima




Sempre ao redor de Wuêé
por Carlos Emílio C. Lima







 


Carlos Emílio C. Lima


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10/10/2008 18:29:00 
Róia!


Por Carlos Emílio C. Lima

 

A mãe chamava-a, avistando seu vulto já diminuído na longa faixa de areia. Róia não podia ir muito longe sozinha, pela praia. A casa ainda não possuía as portas e as janelas e pelas aberturas a ventania soprava, trazendo os aromas que se congregavam, estranhos e se dispersavam. Os cheiros de todo o mar meridional pareciam espíritos. A mãe mantinha-se em atordoante vigília, os cabelos castanhos muito finos amarrados na nuca, num coque, com uma fivela de ouro, constantemente assediada pelos sussurros, pelos silêncios violentamente rápidos, cheiros, clarões, assustando-se. Róia era o alto problema. Já existia e tinha que ficar pelo menos sob o contrôle de seus punhais óticos, ela já sabia o que poderia acontecer se Róia ficasse sozinha, sem ninguém esfregando a visão sobre ela. Visível, Róia precisava sempre ficar exposta aos olhos, não importava se aos da mãe, dos irmãos, de desconhecidos, de quem quer que fosse e que não estivesse cego. Os vivos precisavam vê-la. Ela carecia de ser vista sempre, onde estivesse. Ao dormir alguém tinha que velá-la, do contrário ela cessaria de existir, se desmancharia invisível pela passagem daqueles ventos todos, assassinos, sim, aqueles ventos vindos do mar poderiam matar Róia (eram cegos), num único instante, no cubo de um susto, só. Ih! Era difícil, já não suportava, era além de suas forças aquele trabalho mas fora o que o marido dissera antes de partir. Alguém tem que estar sempre à vê-la. Se ela permanecer um instante isolada, sem ninguém a olhá-la, ela desaparecerá com os ventos. Não ficará apenas invisível, ela cessará, a própria alma interna, fina película de sono, luz e vapor, se esvanecerá. A visão que os outros fazem dela é a proteção para que viva entre nós, cresça e jamais desapareça: Róia é a primeira imortal. Que se alimenta da visão que os outros têm dela. É do olhar de nós, mortais, que ela se nutre, da imagem mesma que fazemos dela. Sem nós a vê-la, ela, de súbito, nem que seja por um segundo, um ruflar, se interromperá.

Era invernal a tensão, já havia dez anos (era a idade de Róia). Quando criança menor, de colo, ela, a mãe, mantinha-a amarrada a si, jamais desfazendo o nó da corda de seda em sua cintura. Depois contratou numerosas amas e sentinelas. Sombras até de nuvens.

Era a época em que não existiam os espelhos na Terra e as pessoas tinham uma vaga e longínqua noção de seus próprios rostos. Róia vivia sob o controle dos olhos dos outros. Logo que começou a entender a fala humana Lim tratou de avisá-la de seu dom e de sua absoluta fragilidade. Desde então, Róia jamais descuidou-se. Se alguém parecia ir desviando a cabeça para o lado, lançava um grito e a cada um de seus gritos um pássaro muito alto despencava do espaço. Era incessante, sempre era assim. Não podia haver um único instante de distração. Róia, a que matava as gaivotas distantes.

Daí os bailes, as festas, as noite acesas, os fogos sempre em torno de Róia quando chegava a noite de seis meses, o período em que a vigilância era redobrada. Todos eram convidados, multidões vagantes se congregavam para festas ao redor de simplesmente nada. Não havia espelhos e pulsavam poucos astros no céu. A mãe de Róia era uma das mulheres de uma terra vasta, muito vasta. Todos sabiam da essência de Róia, de sua beleza crescente e de seu coração de dança.

Na casa sem portas e janelas, na casa da passagem interminável dos ventos, do grande mar, Róia dançava para platéias cambiantes que vinham de todas as partes da Terra para protegê-la. Róia avançava. Estava se criando uma mulher que poderia nunca morrer, que não dormia e que se alimentava de ar, do mesmo ar salino e luminoso que num agudo abismo de tempo mínimo infinito poderia matá-la, mas esse ar precisava estar embebido pelo vinho do olhar humano...

A dançarina sempre estava cercada por dezenas de pessoas agora, que falavam as mais diversas línguas e se vestiam dos mais transversos e complexos modos. Saltava e girava, mergulhava estonteante para cima e trazia entre as mãos tufos instantâneos do vento. Só ela sabia pegá-los, agarrá-los, os brotos da brisa, as mudas elétricas do espaço, as sementes duras minúsculas de vento, botões da atmosfera, inapreensíveis para todos os outros, ramos-estampidos, raízes invisíveis do inatingível. Ela girava tão rápida sobre si mesma que conseguia encontrar com as mãos súbitas esses tesouros vivos mágicos atordoantes do espaço. E semeava e plantava um jardim de rumores sobre as areias, e foi formando um pomar de árvores de brisa, ziguezagueantes palmeiras de vento, bosques de ventania perfeita intervalados de espanto. E ela se alimentava dos frutos que só ela via daquelas árvores silvantes, que só ela tocava e amava. Na região mais desértica da praia fora plantado o arvoredo da atmosfera, o invisível pomar do espaço cuja origem era arrancada na dança, nos saltos que ela Róia fazia ao núcleo nervoso do céu. Ainda se vê a grande região de poeira elevada, quente.

O arvoredo invisível era perigoso para todos os outros seres humanos. Entrar em seu território era reconhecidamente impossível. Ali era lugar de limite para todos nós. E as novas notícias cada vez mais surgiam e espalhavam-se pela vastidão dourada das praias crescentes. Róia arrancara as plantas secretas do espaço e as fixara e semeara na Terra. A menina dançarina  das quantidades inabordáveis, a imortal que necessitava dos seres humanos para viver. Ela saltava as grandes fogueiras e fazia despencar os pássaros do espaço. Seus gestos eram geratrizes, estavam criando mundos distantes.

Se Róia vestia-se com um vestido vermelho nasciam as araras. Se púnha um colar de plumas amarelas o mar se encrespava. Se beijava uma ametista o espaço aumentava. Eram seus gestos que faziam nascer povos inteiros pela Terra. Seus movimentos eram intermináveis, ela nunca dormiria, ela não parava de dançar e quando não estava dançando ela continuava a vagar. Desde que ela rompera o cordão de seda da mãe e se pusera a correr pela praia ao encontro das grandes massas de vento Lim havia perdido o controle de tudo, e já não sabia mais o que fazer. E eram festas a girar e multidões a velar a criança crescendo. Tudo era sem fim. Cintilavam as primeiras espigas.

Chegava um músico de longe e dizia: Róia gerou meu povo lá na montanha quando girou sobre essa rocha no mar. Sou seu filho e vim tocar essa cítara para que ela continue dançando - gerando. Cheguei primeiro para avisar que toda a caravana de minha gente se aproximará para vê-la durante a noite de seis meses gerais. Ajudaremos a manter as fogueiras vivas no grande pátio da dança. Róia dançará para nós e continuará gerando povos na Terra e nas estrelas. Róia é nossa mãe, a infante menina, a multiplicadora, a que domou o abismo... a mergulhadora do céu! Róia não desaparecerá. E Róia se aproximava do músico-criança, dançava em torno dele e continuava a girar, a gerargirar e a crescê-lo.

Com o mover-se do tempo a pele de Róia foi ficando cada vez mais clara, mais nítida, lisa e perfeita, moldada polida por tantos olhares. Seu corpo era sempre mais inconcebível, brilhante, já era a mais bela mulher, a virgem dos ventos, torneada pelos olhares em círculo em volta dela. Lapidada pela tensão desejante, pelos sustos, os risos, o prazer do ver infinito.

Ficávamos nós meninos aprendendo com ela o que era a beleza que a gente mesmo podia criar ao ficar vendo, imagivendo sempre, sempre vento. Ela era o máximo de nosso gozo em círculo, redondo, ela dançando, saltando, os pandeiros, tambores, as tubas, as águas, os ventos, sempre à luz protetora de nossos olhos esbugalhados de satisfação, amor e cuidado. Ela fazia com que a seiva da Terra jorrasse de dentro da gente. As plantas, verdor, cor, ciciar.

Mas se todos podiam vê-la, porque era preciso, ( ela vivia pela tenda do olhar) , nenhum de nós podia tocá-la. Somente as mulheres podiam. Nós, não. Talvez nem elas também. Elas só ficavam mais perto.

Ela rodopiava como um não batendo com os pés sobre a terra o ritmo da espuma, e do céu. Porque se a tocássemos, o que aconteceria? A Terra começaria a girar mais depressa? Cada vez mais? Era o que se dizia então por todos os lagos, à beira dos rios, dos horizontes, cachoeiras.

Róia gostava de andar nua mas também de ornar-se, ornamentar-se das oferendas trazidas de todos os poros da Terra, e das regiões que criava era uma alegria também. Mensageiros chegavam de longe anunciando que mais e mais aumentava o tamanho da Terra, que pouco a pouco as distâncias eram incomensuráveis. Além de povos diferentes surgindo por toda parte eram terras que não se acabavam mais.

Lim assustava-se, orava para as estrelas, comunicava-se. Sua filha já tinha seios, cabelos de ouro nasciam-lhe entre as pernas, as flautas dos músicos embelezavam suas entranhas até um esplendor sem limites. Os homens que chegavam cada vez mais em multidões proclamando-se seus filhos miravam para Róia com o olhar sem fim. Uma serpente de mulheres ligando-se de mão em mão a protegia do acesso dos homens vindos de todas as profundidades, planícies, reflexos, e ecos.

Quams,  grandes acúmulos de nuvens se aproximavam da região, quando eram quams que chegavam, era necessário proteger a dançarina no interior da casa sem portas e janelas, resguardá-la do fervilhar de desejos e exaltações que poderiam resultar num desconhecido desastre porque de fato não se sabia mesmo o que aconteceria se um daqueles filhos sedentos pela mãe jovial-ancestral conseguisse tocá-la, agarrá-la, abraçá-la e finalmente, perder-se nela. Era a constante preocupação de Lim... pelas praias ardentes.

Mas seria na verdade um desastre o que aconteceria? Havia outras versões ao aroma das cordas vibradas no meio das festividades, sem agora mais nenhuma limitação ponderável. Dizia-se que o primeiro rapaz que a fecundasse interromperia a desenfreada gestação de mundos. Apregoava-se mesmo em certos círculos de povos e tribos ao redor de incessantes fogueiras em espiral que não seria o efeito de tal ação um interromper geral na multiplicação de povos, terra e espaço mas sim um ordenamento, uma harmonização. Era mesmo necessário que a calma se restabelecesse no universo.

Róia jamais ficou um instante sozinha. Jamais,. As mulheres mantinham-na longe do alcance dos homens. Protegiam-na de um acontecimento que não poderia mais ser adiado. Passaram a ocultar sua nudez de abismo com véus, cortinas e grandes palhas crepitantes, farfalhantes. Isso em vez de diminuir a curiosidade maraumentava os rumores, dilatava as conversações, aguçava as astúcias, os apetites com a essência de sede da seda.

Quando despencou do alto o primeiro clarão do longo dia de seis meses não foi mais possível conter os ânimos acesos nem certos acessos certeiros, prováveis, até o centro do círculo.

As mulheres armadas com afiadas espinhas de peixe passaram a tecer em volta de Róia faixas de arco-íris que os homens não podiam ultrapassar sob pena de perderem o dom de amar. Eles sabiam o que mais parecia aumentar sua indignação. Eles então passaram a se utilizar de subterfúgios e iniciaram a construção de longas escadas de bambu para, por meio delas, subirem até às nuvens. Na casa das nuvens eles subiram com suas flautas e, lá reunidos, conspiraram a criação de uma música secreta. Baixaram à terra molhada da praia e se prepararam para o enfrentamento, a música composta na casa das nuvens acumulada nas flautas mudas, os olhos umedecidos de um estranho silêncio aguçado e resplandecente. Era o começo possível da guerra, da guerra oculta que emergiu entre os homens e as mulheres por causa de Róia , a dançarina imortal reluzente, a mãe criança, a beleza completa do mundo.

Para que a guerra não atingisse proporções realmente irreversíveis houve um acordo entre as partes. Que foi preciso. Os homens exigiram que fosse armado um torneio, uma competição. O vencedor e o perdedor teriam acesso à mulher. Era urgente. Ficou acertado. Com pedras geométricas conduzindo nuvens. Se os homens tivessem tocado a música obtida na casa dos cúmulos a Terra teria cessado o seu giro e as mulheres teriam se transformado também em homens e isso elas não poderiam querer. Se as mulheres tivessem arremessado as espinhas pelo arco-íris amoladas dos peixes contra os corpos dos homens, eles retrocederiam à condição de fetos e voltariam ao interior dos seus úteros, de novo prisioneiros nas barrigas delas, dentro das grutas úmidas das cachoeiras. E todos ficariam sozinhos, sem uns e sem outros. Seria impossível viver. Pois que houve a praia da trégua.

Para comemorar a grande luz dos seis meses imensos promoveu-se a festa do pacto, ao que Lim concordou. Róia novamente voltou a dançar diante do olhar dos homens dispostos em círculo mais ou menos disciplinados, com certa lisura no mar.

Róia arrancou do céu coroas inesperadas, Róia arremessou os seus braços, o corpo; saltou e girou criando mais vastidão e fulgor. Veloz como um grito, ágil, maleável, flexível, espantosa. Trovões, claridade, mil medos de cristal, mil admirações de pássaros de todas as cores em revoada num só mesmo instante, tambor lá da Terra, tambor que escutou. Mesmo aqui nós ouvimos. O sino reboou, reboou, escutamos. Róia dançava, protegida, vivendo por todos os olhares. No centro da pupila, da íris de todos, a bailarina girando, gerando a brasa estalante, o fogo, a chama, o cristal. Tudo se viu, desfizeram-se os véus, as camadas, as gazes, nuvens, ilusões, as mulheres cedendo e ela bem alto, no centro dançando, na casa dos olhos do espaço.

Os olhares transformavam cada vez mais sua pele, cada vez mais luzia e luzia, de branca passou a prateada, de prata foi ficando mais límpida, lisa, lisa, lisa, refletia-nos a todos em círculo, sim, sua pele era um espelho total. O primeiro espelho. Foi quando eles surgiram aos poucos, da dança, de repente, sonhados, daquela expansão.

Róia tinha a pele que nos refletia. Ia cada vez mais rápida através de seus gestos e felinos. Não sabíamos mais o que seria da competição que havia sido planejada. Por um de nós ela poderia ser amada. Mas aconteceu? Cada vez era mais bela, a inconcebível beleza. E girava e girava. Agora elevara-se, suspendia-se da Terra, moldando-se, atraindo e dispersando a todos, a tudo, gerando e criando, cada gesto um mundo distante, belo e desconhecido. Nós gozávamos sem fim. A seiva fluía da gente. Aquilo não era possível. As mulheres ficavam iluminadas daquele esplendor. Luziam estridentes. Elas também não tinham imaginado que aquilo fosse daquele modo acontecer. Veloz, a dançarina penetrando no núcleo instantâneo do céu, suspensa, cada vez mais redonda, uma bola, um círculo esférico, um "ondo", um grande olho de fogo, de luz, uma bola, iluminando tudo com seu fulgor de espuma veloz, transformada. Pairando sobre o mar de silêncio, reboando de ouro as espumas do mar. Bem que dois de nós, o vencedor ganhador e o que perdesse lutassem e a alcançassem, tocassem-me logo daquela vez. Mas não foi possível, isso, por então. Ela, uma esfera, bem quase uma esfera...

Faz milhões de anos que isso aconteceu no tempo que vem lá do espaço, do alto, de onde ela continua dançando, girando e girando e ampliando com luz o espaço. Sempre alguém a verá, a estará vendo, amando-a, admirando-a, torneando-a, tornando-a ainda mais resplendente. Dizem que até as mulheres. Não sei. Sei que nós a queremos, os homens. E, também mesmo as mulheres, as águas, as pedras. Ela é nossa mãe muito criança, incansável, que não dorme e se alimenta do espaço, que arranca tufos de mais energia de cima, a dançarina do vago e do ímã. Ela é que trouxe a vida, e que a mantém para sempre. Não desaparecerá nunca porque sempre haverá alguém para olhá-la, contemplá-la e moldá-la. Essa luz que ela envia, templo inefável, esse calor luminoso é o reflexo também de todos nós e de tudo, de tudo que ela gerou. Expansão. Ela é a estrela do centro, a fonte, o motor, a flor, nosso sol.

 





 

Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner. Publicou os romances
A cachoeira das eras; Além, Jericoacoara e pedaços da história mais longe e o livro de contos Ofos.
Este conto faz parte de seu livro editado recentemente, O romance que explodiu.
E-mail:
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