Café Literário Cronópios

Bloomsday 2010 - São Paulo
por Marcelo Tápia





 
Coluna:
MAHATMATHILDA
Mathilda Kóvak


Leonilson, Escher, anos 70, 80, 90... nas galerias e museus da Paulicéia Comportada
por Mathilda Kóvak




Yoko Ono agradece por CD de cantoras brasileiras
por Mathilda Kóvak




Jesus, a vingança
por Mathilda Kóvak




O ser é nada ou O inexistencialismo
por Mathilda Kóvak




O sagrado Winehouse ou As suásticas da Paz
por Mathilda Kóvak




Barracobama ou Tem Branco no Samba
por Mathilda Kóvak




Das invasões cariocas ou A queda da Pastilha
por Mathilda Kóvak




Uma ducha de Duchamp and a glass of Wine...house
por Mathilda Kóvak







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


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Maurício Paroni de Castro


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Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
06/11/2008 21:55:00 
Barracobama ou Tem Branco no Samba


Por Mathilda Kóvak

Vocês que são brancos que se (des)entendam.  Meu querido John Winston Lennon dizia que a mulher era o negro do mundo. Concordo com ele. Entretanto, não basta ser nem mulher nem negro pra passar incólume pelas tentações deste mundo. Margareth Thatcher era mulher e deu o pontapé inicial nesta que é a era mais cruel e injusta dos modern post modern times. Idi Amin, negro, era uma belezura de caráter. E o que dizer de Condoleeza Rice, mulher e negra?! Minhas condolências pra ela.

 

Mas eu fiquei emocionada, confesso, com a eleição de Barack Obama. Até porque ele é elegantérrrrimo, e sua mulher, mais ainda, o que poderia significar, no mínimo, uma reviravolta rumo à extinção das louras de farmácia, este grupo étnico desprovido de estética. Um negro na Presidência dos Estados Unidos! Todos muito admirados e admiradores deste fenômeno, como se ele fosse um chimpanzé de circo, que tivesse aprendido a andar de bicicleta na corda bamba. E eu estava quase caindo neste conto do pastor – Martin Luther King – quando, hoje, pela manhã, a empregada olhou o jornal e me perguntou: “é esse que é o presidente preto?!” E eu respondi, orgulhosa: “É!” “Mas ele nem é preto!”, revidou ela. E eu corrigi: “Claro que é. Não tá vendo?!” E ela insistiu, olhando a foto de um sujeito impecavelmente vestido, com ares de burguês bem nascido: “Não é não!” Então, eu resolvi me deter alguns minutos na foto e, finalmente, entendi o que ela queria dizer. Sim, ela tinha razão. Obama não é negro. Obama é um norte-americano branco, criado no Mid-West, formado em Harvard. Os negros norte-americanos estão morrendo de fome no Mississipi. Minha empregada é filha de índio. Ela vê a alma da pessoa. E ela estava coberta de razão. Um negro de classe média, da geração de Obama, nos EUA, não tem a menor idéia do que seja o racismo perpetrado pela pobreza econômica. Para ele, o racismo é uma idéia tão remota quanto é, para um jovem judeu, o holocausto. E foi só por isto que  logrou ser eleito. Se ele tivesse nascido no Mississipi, estaria, como alguns amigos meus, pedindo esmolas nas ruas de Nova Orleans.

 

Morei em Nova York, na era Bush Pai, e o que aconteceu ali, então, foi muito parecido com o que aconteceu na era Bush Filho. Os Estados Unidos estavam entrando em recessão.  A família Bush não prima pela inteligência, muito menos pela criatividade. Então, a solução era a mais burra e bruta: inventar uma guerra no Golfo, pra vender armas e salvar a economia americana, como, aliás, os democratas, Roosevelt e Kennedy, fizeram antes dele.  Não adiantou nada. E os democratas retomaram o poder com Bill Clinton. É tradição o Partido Democrata se favorecer às custas das burradas do Partido Republicano. Saí de NY, em 1991. Voltei em 1995 e, depois, pela última vez, em 1999. De 95 a 99, isto é, em quatro anos, Nova York se transformou radicalmente. Manhattan estava caríssima e cheia de rednecks. E o Brooklyn, nas áreas mais ricas, idem. E, na área pobre, onde eu morava, um luxo. Os negros pobres tiveram que se mudar dali. Os artistas alternativos, negros, imigrantes de todo jeito, foram banidos pra periferia ou se mudaram pra Califórnia, com os preços dos aluguéis lá em cima. Meu amigo, Saul Bickman, um judeu de setenta anos, contudo, se beneficiou da valorização imobiliária. Herdou de sua mulher uma town house de três andares. Alugou o último e viveu desta renda até morrer, com direito a viagens pelo mundo. De 1989, quando o conheci, até 1995, Saul se dizia socialista. Em 1999, ele celebrava o capitalismo. Um dia, fiquei, como de costume, hospedada em sua casa. Depois de voltar de Manhattan, estupefata com os preços , fui dormir embalada por um pânico indefinido. Sonhei, naquele dia 29 de setembro de 99, com pessoas se jogando do World Trade Center e com a palavra “crash.” Acordei e contei a meus amigos o sonho, afirmando: “vai haver um novo crash da bolsa. O capitalismo vai acabar.” Todo mundo riu. Fomos, em seguida, para Wall Street, e tiramos fotos minhas apontando para as torres e minhas e de Ana Pinta, uma amiga, com o polegar pra baixo, em frente a elas. Outra premonição eu tive na Thompkins Square, dias antes, no Village. Enquanto esperava meu ex-marido, num banco, vi um cachorro meio estranho correndo de um canteiro para o outro. Não demorou muito até que eu me desse conta de que o cão  era na verdade uma enorme ratazana. Quando meu então marido chegou, eu disse: “Nova York vai ser comandada pelos ratos. Um milhão por habitante. “ Quando chegamos, naquele outro dia, a Wall Street, nos deparamos com uma passeata, cujo símbolo era um rato gigante. Rimos muito. E ficamos naquela palhaçada premonitória. 

 

   Dois anos depois, acordo com uma amiga que trabalha em TV, me intimando a ligar a televisão pra ver meu presságio materializado. Estremunhada de sono, liguei no onze de setembro e achei que estavam bombardeando Nova York. Quando o segundo avião derrubou a segunda torre, pensei: “então, era um airplane crash! E não um crash da bolsa.” 

    Mas era um crash da bolsa, sim. Um crash que o airplane crash adiou por dez anos, mas que ocorreu exatamente num dia 29 de setembro, como eu sonhara.  Não conto isto tudo com o intuito de provar meus pendores de profeta. Mas, antes, para refletir com vocês sobre estes fatos. George W. Bush não venceu as eleições. Os democratas deram o trono pra ele de bandeja, porque não queriam que o crash explodisse em suas mãos. Claro, o crescimento dos Estados Unidos foi vertiginoso.  Não era real. Em seu bojo, veio montada a maior dívida interna da história de um país. Todo americano é um devedor. E, por tabela, nós aqui também. Então, deixaram a batata quente pro imbecil do Bush. E ele o que fez?! Seguiu a velha receita da família. Uma guerrinha pra vender armas.  Não colou outra vez.  O crash explodiu com força total.  E agora Bill Clinton sorri de orelha a orelha. Ele está de novo no poder, na forma de Osama, oops, Obama. Elegante, fino, culto e, melhor ainda, negro. Quem é que vai desconfiar de que um mulato seja, na verdade, um branco azedo wasp?! Hillary não daria pé. Já lhe levou os chifres, sabe-se lá o que uma mulher traída não é capaz de fazer quando de posse do poder... Então, lá vem o negão cheio de paixão. E pouca compaixão por seu povo. Obama é um gato. É o Fred Astraire da política. Mas, de negro, só tem o pai e a avó. A mulher e as filhas. Ele mesmo, e talvez nem saiba disto, é uma artimanha de um branco Rinso, pra deixar um white trash de saia justa.  O ciclo do petróleo já está pela hora da morte. O etanol está ali, na América do Sul, para onde o panaca do Bush nunca olhou, graças a Allah. Então, vamos nessa. A Europa e a Rainha Elizabeth II estão salvos!  A maior colônia européia vai recuperar o que parecia perdido.  A ameaça asiática não passou de um susto. Os capitalistas democratas garantirão um lucro estupendo aos seus iguais. A exemplo do governo Clinton, o governo Obama proporcionará um crescimento econômico gigantesco ao planeta. E uma miséria inversamente proporcional. God save the Queen! Max Weber e Karl Marx brigaram à toa. Nem capitalismo, nem comunismo. O mundo nunca deixou de ser feudal.

   Eliane, mulher, índia, empregada, enxerga, sem precisar das lentes de aumento dos analistas políticos, a alma sedenta dos poderosos. Eleitos pela maioria ignara, a unanimidade burra, num processo ginasiano – “quem quer aquele monitor, levanta o dedo!” – intitulado democracia liberal.   George W.Bush e sua extrema burrice estavam enterrando de vez o Império Americano, com seus silicones, suas louras falsas, seus gases poluidores, seus cabelos esticados...  O fim deste império anglo-saxônico poderia significar um recomeço pós-Idade Mídia, neo-renascentista, pro resto do mundo. Clinton é um hipócrita. Al Gore, um mentiroso. Desde quando dono de fazenda de tabaco pode defender o meio-ambiente? E, by the way, que papo é este do Obama de combater a poluição com energia nuclear?!

 

   Barack nunca foi pantera negra, animal em extinção. Nem creio que ele saiba o que seja isto. Ele que é um Afro-American.  Os Black Panthers eram black. E black is beautiful.

   

      Ou Barack deixa a cabeleira crescer redonda e selvagem. Ou eu não engulo mais um yuppie, mais um mauricinho, seja lá de qual for a cor. Lugar de mulher e negro não é na presidência de uma superpotência. É na super impotência de ser. Mas, de estilingue em punho, atirando pedras contra todo e qualquer poder.

   

       E viva Angela Davis! Pantera negra do mundo. Black panther is beautiful!

 

 

 

Mathilda Kóvak é escritora, compositora, roteirista. Tem seis livros infantis editados e um sétimo no prelo - Rocco, além do livro "Contos da Era do Fax", Ed. Mondrian, e o CD "Mahatmathilda, a evolução de minha espécie". E-mail: madmath@uol.com.br

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