Café Literário Cronópios

Acenderam uma fogueira em Itaitinga
por Mendes Júnior





 
Coluna:
CHAMA NO CRISTAL
Marcelo Tápia


A morte do meu chapéu
por Marcelo Tápia




Novas vozes para Joyce
por Marcelo Tápia




Pranto seco: breve resenha crítica do livro A estrela fria, de José Almino
por Marcelo Tápia




Escada de minha mansarda
por Marcelo Tápia




A um poeta que se foi
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Ditos mínimos
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Incursão em
“Arte & música”

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Nas trilhas de Carpentier e Nabuco
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Poesia existe?
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Uma antiga conversa com Hilda Hilst
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A poesia e o coração
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A crença na inspiração
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O prazer e o sofrimento de traduzir poesia
por Marcelo Tápia




Uma imagem e poucas palavras
por Marcelo Tápia




Instâncias da queda
por Marcelo Tápia







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


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Artur Matuck
26/07/2005 22:38:00 
Instâncias da queda


Por Marcelo Tápia




A queda pode ser do alto; de muito alto, como foi a nossa queda original. Caímos por adquirir o arbítrio, a consciência, a reflexão; abdicamos da obediência cega, da fidelidade, do cômodo exercício do que nos caberia por dádiva; não permanecemos sujeitos ao limite e à morada que nos foi atribuída. Perdemos a virgindade dos tempos: dado o adeus à inocência, somos desde então o que fomos.

A queda pode ser do pedestal de pedra em que os heróis épicos se firmavam, devotando a vida a imitar os feitos de seus nobres ancestrais; a percorrer, portanto, o caminho já trilhado e consagrado. Como diz Donaldo Schüler em seu especialmente interessante Heráclito e seu (dis)curso (L&PM, 2001), “perdida [pela indagação] a segurança da superfície sólida, restou a inquietante sensação do vazio aos que, buscando, se buscam” (e o  “si mesmo” que se  procura estaria na verdade “mais distante que as estrelas”...).

Podemos cair (como diria o mesmo Donaldo ao comentar Heráclito) – uma queda também não pequena – do “extraordinário” para o “ordinário”: para tanto abdicamos de nosso ethos (caráter) divino, que nos permite transitar entre o alto e o baixo, vendo por entre as coisas e além delas, na constante busca de si mesmo, para caminhar no chão batido, acomodando-nos a um modo de agir coerente e previsível. Mas “a queda ilumina ao revelar a pequenez”: pode-se cair para o alto, quando se vencem limites e se descobrem outros extremos, cada vez mais amplos.

 

A queda do pedreiro Finnegan (personagem da canção irlando-americana “Finnegan’s wake”, da qual James Joyce emprestou o tema e o título para seu último livro), da escada, foi de pouca altura; mas é com ele que todos os homens caímos, morremos e renascemos (após ser tido como morto, o personagem desperta durante seu próprio velório). Do cotidiano de um simples mortal trabalhador, sujeito à embriaguês que teria motivado a sua queda, emerge um símbolo; todos passamos a ser ele. Somos “o único homem”, como diz Jorge Luis Borges:

 

Un solo hombre ha nacido, un solo hombre ha muerto en la tierra.

[…]

Ese hombre es Ulises, Abel, Caim, el primer hombre que ordenó las constelaciones […]

Un solo hombre ha muerto en Ilión, en el Metauro, en Hastings, en Austerlitz, en Trafalgar, en Gettysburg.

[…]

Un solo hombre ha mirado la vasta aurora.

[…]

Hablo del único, del uno, del que siempre está solo.

 

(Este texto, de El oro de los tigres (1972), pode ser lido na íntegra, acompanhado de tradução de Luiz Antônio de Figueiredo – que o trouxe de volta à minha atenção –, no número 2 da revista on-line Mnemozine.)

 

 

Seríamos cada um o todo, como o átomo teria nele o universo. Vivemos a convergência de opostos, que (evocando-se de novo Heráclito) revelam a unidade fundamental, a natureza cíclica de tudo: da noite nasce o dia, do sono a vigília, da morte a vida. Na mitologia grega, a vida e a morte conjugam-se no mesmo deus: Dioniso; nele, “a vida brota do fundo misterioso da morte onde a vida se refaz” (Schüler).

 

 

Cenas de descenso

 

No curso de uma vida caímos de diferentes degraus, diferentes alturas, para galgar de novo novos patamares (o último poderá ser o início da inexistência física e da existência numa instância também mutável da memória). Projeções da queda percorrem nossa existência, e vemos nelas a morte da ilusão, que morre e renasce todo o tempo. 

 

Tem-se a sensação de baque quando assistimos ao final de “Um filme falado”, de Manoel de Oliveira. Caímos das nuvens, das alturas, imersos num jogo de contrastes que envolve um símbolo de oposição entre a civilização e a barbárie. Polêmica, a obra – que focaliza a viagem de uma professora portuguesa de história, e sua filha pequena, participantes de um cruzeiro de Lisboa a Bombaim – passa uma visão eurocêntrica de mundo civilizado, ameaçado pelos bárbaros, ceifado – no navio que o representa - por uma ação terrorista (árabe) reservada para os momentos finais. Mas, à parte esse aspecto que orienta todo o desenrolar do filme, o espectador vive momentos de rara beleza, tomados a fim de construir o clima de paz e harmonia a ser, depois, quebrado abruptamente, arremessando-nos ao vazio: que bela a passagem das personagens femininas convidadas à mesa do comandante, conversando cada qual em sua própria língua e entendendo-se – uma desbabel “civilizada”, que logo cede seu lugar para o seu avesso, o “anti-civilizado” golpe do destino, realização da Moîra das personagens centrais. Antes do inesperado acontecimento final, a personagem Helena, vivida por Irene Papas – cantora como ela própria – interpreta, à capela, uma canção grega que fala da queda das flores de pequenas laranjeiras, assoladas por Boréas, Bóreas, o Vento do Norte (ao anunciar, durante a audição da música, o golpe imprevisto ao comandante, um marinheiro sussurra-lhe, em código: “o Vento do Norte soprou”...). É pertinente conhecermos a letra da canção, de uma beleza singela que nos faz refletir sobre a grandeza da simplicidade; para tanto, apresentamos uma possível tradução, feita com alguma liberdade, acompanhada do original grego:

 

Neratzoula

(Pequena laranjeira)

 

Neratzoula  madura,

onde estão tuas flores, Neratzoula, onde estão tuas flores?

Onde está o teu antigo encanto,

onde está a tua beleza, Neratzoula, onde está a tua beleza?

O Vento do Norte soprou violento

e derrubou-as, Neratzoula, e derrubou-as.

Rogo-te, meu Vento do Norte,

sopra ameno, Neratzoula, sopra ameno.






         Tombamos juntamente com a expressão da face do comandante (vivido por John Malkovitch) diante da culminância do revés, bem mais, diga-se, do que poderiam abater-nos possíveis imagens pirotécnicas fabricadas com os efeitos hiper-realistas de Hollywood: nossa imaginação é um túnel profundo através do qual podemos alcançar grandes alturas.

 

Mas não há como atribuirmos os infortúnios, ou o abismo escuro do horror, aos outros, aos bárbaros – estes outros também são os europeus colonizadores, os norte-americanos, é toda a humanidade, também somos nós.

O filme “A queda”, de Oliver Hirshbiegel, traz a desilusão enlouquecida de Hitler em relação à crença na vitória; ele se recusa a desiludir-se do “mito” de si mesmo e do seu ponto de vista, culpando todos os outros pelo próprio fracasso. Da glória à opção pela morte, o caminho que busca a instalação de uma existência mítica, ainda (desgraçadamente) capaz de seduzir os ansiosos por uma autoridade suprema que os guie, que lhes traga a sensação vã de preenchimento do vazio; que lhes anuncie o extermínio de todo o mal, personificado em algum povo diverso.

A referência ao filme permite a lembrança de uma cena real de terror, mais forte que qualquer ficção: sob o comando nazista, caminhões alemães levavam, em seus baús, judeus para a morte e a cremação imediata, como uma linha de produção de extermínio em série, com espaço e tempo friamente calculados: no final do percurso, apenas suficiente para que se desse a morte pelo gás encanado dos escapamentos do veículo, os cadáveres eram imediatamente transformados em cinzas. O horror não tem fundo; podemos descer mais longe do que imaginamos...

 

 

Visões do fim

 

Há grandes e pequenas, longas e breves caídas. Há a de Lúcifer e a de Adão, grandes e longas (caímos sempre: continuamos caindo para movimentar a roda da história?); há pequenas, como a do ovo falante Humpty Dumpty (de Lewis Carroll), de cima do muro, e a do dito Finnegan; a reiteradamente grande do mencionado romance de Joyce, construído em torno da queda cíclica...

Há aquela, mais ou menos breve, cumprida pelo ser que vive. Decaímos constantemente, dobrando-nos com o passar dos anos, curvando-nos, nossa carne degenerando-se rumo ao adubo, quando definitivamente chegamos ao chão para alimentar outras sementes (“cemitério-sementeira”, diria o poeta Pedro Xisto, num haiku do livro Partículas, 1984). Descemos gradualmente o caminho do Hades, ida da qual não se volta, a não ser pelo retorno de originar outras vidas. A decrepitude, a queda da potência, a morte são tema de Anacreonte (séc. VI a.C.):

 

(395)

 

Grisalhas já minhas têmporas,

alva minha cabeça e

a graça da juventude

é ida; velhos os dentes,

e não resta muito tempo

para mim na doce vida.

 

É por isso que eu lamento,

e amiúde temo o Tártaro,

pois tenebroso é o retiro

do Hades, como é terrível

a descida: é certo, sabe-se

que quem desce não mais sobe.





(Este poema foi publicado, juntamente com outros exemplares de lírica grega, na recente edição de Mnemozine.)

 

 

          Como as estrelas surgem todas as noites, a cada dia temos a sensação de recomeçar, embora o tempo nos leve à queda ininterrupta. O mundo também sofre a ação do tempo, e mesmo que haja ciclos históricos de renovação e, até, de evolução, o fim é inevitável, ainda que venha a ser um reinício. Tal fim certamente é longínquo, apesar das guerras, dos atentados, do desequilíbrio ecológico: conservamos sempre a esperança do devir. Na fantasia tão improvável de “A guerra dos mundos” (um medo antigo em que caímos sempre, temendo sempre a um outro, estrangeiro ou de outro planeta), agora em nova – e fraca, embora aterradora – versão de Spielberg (com os esperados efeitos e recursos), sobrevivemos mais uma vez a um desmedido tombo, mantendo-se a ilusão de inocência: nos momentos mais ameaçadores do filme, o herói pede à filhinha que cante, com os olhos e ouvidos cerrados, uma canção infantil; a inocência cega, juntamente com a perseverança e a coragem, ajuda-os a superar o medo e o caos. A pequena família americana sobrevive unida, mais um símbolo de civilização renascida da barbárie alienígena, após esta ter caído por si mesma, vítima da própria fatalidade imprevista.


 

 



Coisas futuras?

 

Nos dias e noites pequenos de meu dia-a-dia, vi outro dia, diante do céu de minha pequena cidade natal, uma estrela cadente, e projetei desejos: que renasçam, de uma queda, novos desígnios. No dia-a-dia pequeno deste imenso país, que vive dias em que se assiste a uma derrocada de mais uma longa esperança de natureza política, decorrente da iluminação de túneis escuros que parecem sempre ter existido e passíveis de continuar a existir de um jeito ou de outro, poderíamos, quem sabe, considerar o fundo, o fim, para podermos crer em algum reconfortante recomeço.





Marcelo Tápia (Tietê, SP, 1954) é poeta, tradutor e editor. Publicou, entre outros, os livros Primitipo (1982), O bagatelista (1985), Rótulo (1990), Livro aberto (1992), Pedra volátil (1996) e o volume de tradução A forja – alguma poesia irlandesa (2003). Dirige a Editora Olavobrás. Vive em São Paulo. 

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