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Leitura da poesia selvagem
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Arte e representação em nossa sociedade pluralista e mutante
por Amador Ribeiro Neto




Thomas Mann: oriental, oblíquo e irônico
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Céu inteiro. O céu acima de Ricardo Aleixo
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Novo volume de Roteiro da Poesia Brasileira
por Amador Ribeiro Neto




O haicaista paraibano Saulo Mendonça
por Amador Ribeiro Neto




Sobre a palavra
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Ouvindo a terceira margem
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A música em 68: os hits e os rapas
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Poesia Marginal em questão
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Duas ou três coisas sobre poesia e crítica
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Jorge Mautner e suas canções homoeróticas
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Contos homoeróticos de um estreante
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Cazuza, cronista do Brasil
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A fera que mora em Chico César
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Adriana Calcanhoto e a poesia
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23/03/2009 23:21:00 
O haicaista paraibano Saulo Mendonça


Por Amador Ribeiro Neto

 

Com “Luz de Musgo” (João Pessoa, ed. Sal da Terra, edição bilíngue), Saulo Mendonça mais uma vez premia seus leitores com novos haicais. São 33, escolhidos a dedo, para marcar os 33 anos de sua poesia.

Ler Saulo é mergulhar de cabeça na mais fina e elaborada poesia, feita com simplicidade. Elaborado e simples: isto pode parecer paradoxal. Mas não é. O simples que ele consegue é admiravelmente inventivo: condensa imagens e constroi reflexões com a leveza de uma pluma ao vento.

Sua poesia nasce de observações do cotidiano doméstico. Ele faz do local prolongamento do internacional. Por isto pode ser compreendido por povos das mais variadas culturas. Saulo sabe o caminho das pedras, dos rios, das terras, das plantas, dos mares, dos fogos, dos ventos, dos céus. Caminhos que todos nós trilhamos dia após dia. Aqui ou alhures.

A linguagem do poeta Saulo é a dos profetas em dia de anúncio: ela sempre tem o que nos dizer. Sejamos nós parte dos incluídos ou excluídos. Nos vários setores da vida contemporânea. E/ou pós-moderna. O cordelista e o poeta digital convivem na poesia sauliana na mais harmoniosa confluência. Dos afluentes ao rio principal.

Há redondilhas (maiores e menores) em Saulo. Influência da oralidade da poesia popular. E também, aplicação (tropicalizada, é claro) da forma japonesa de haicai: uma única estrofe com versos de 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente. Encontro de dois modos seculares da fôrma e da forma poéticas.  

Em Saulo, o poeta vive e respira sem estardalhaços. Contido. Por isto mesmo, essencial. Tal como Heidegger, que uniu o existencialismo proferido por Kierkegaard e a fenomenologia de Husserl, eliminando as fronteiras entre corpo e alma, ser e parecer, subjetividade e objetividade, Saulo opera em seus haicais o uno e o múltiplo, na casa do ser. Isto mesmo: o eu-lírico é a linguagem do ser. A palavra: morada do ser –  preconiza o filósofo do “Ser e Tempo”. A poesia como a mais acolhedora morada da palavra. Ali onde a palavra é, sem adjetivações, mora cada haicai de Saulo. Haicai, para usar aqui uma expressão cara a Augusto de Campos, é língua(via)gem.

Certa feita, falando de Picasso e de Duchamp, Otacvio Paz pontuou: “os quadros do primeiro são imagens; os do segundo, uma reflexão sobre a imagem”. Pois a poesia de Saulo é imagem e reflexão sobre a imagem e sobre as ideias. Impossível ficar calado sobre seus haicais –  que calam fundo em cada leitor. Se não há estardalhaço na cidade é porque o poema elegeu como seu lugar o templo sem imagens, sem sons. Para que ele, poema, seja imagem, som e sentido.

A palavra em Saulo é expressão da busca de sentidos. Para as coisas mais corriqueiras. Para os sentimentos mais naturais. O amor natural. A natureza natural. O homem natural. Mas não pensemos que este poeta seja um neorromântico ou um romântico anacrônico. Longe disto. Ele sabe a geografia da libido dos homens. E conhece o fetiche que mobiliza tempos pós-modernos cada vez mais megametropolitanos. A sedução do natural em Saulo é voz para os falantes, gritantes, brincantes. É a pureza do “mix”. Do “plus”. Do “hard”. Curiosa e instigantemente posta a serviço da libido, mãe-mestra da Vida.

Os haicais de Saulo trazem a oxigenação extraordinária que resgata o amoroso de cada planta, animal, pedra ou indigesto. Há betume asfáltico? Pois há também perfume citadino e campesino.

O haicai nas mãos saulianas tem Natureza. Filosofia. Presentidade. Numa entrega total à poesia-raiz de Matsuo Bashô (1644-1694). Que aos vinte anos criou o haicai, esta expressão da poesia japonesa. Hoje disperso pelo mundo todo.

Na Paraíba, Saulo escreve:

 

À tardinha, no Sanhauá

o velhinho fitava o rio

com seu olhar poente.

 

O pronome possessivo “seu” pode referir-se tanto ao velhinho como ao rio. No entanto, ele se refere ao sol, a grande estrela que está ausente do poema. Mas que é a figura central deste haicai. Aí está a maestria elaborada e simples de Saulo. O leitor voraz passa pelos 3 versos e morre na praia. O sol está em “à tardinha”, que desaparece como o sol ao poente. Todavia, em “seu olhar poente”, o sol se infiltra na linguagem para ganhar o leitor. E ganha, na maior parte das vezes, numa adesão inconsciente. Eis: “Seu OLhar poente” – o sol se interpõe entre as palavras “seu” e “olhar”, obliquamente, como convém a um pôr-de-sol.

Para a Copa Mundial, nada melhor que um slogan formado por duas redondilhas maiores, de forte matiz musical e de uso tão frequente entre nossos cantadores populares:

 

Copa do Mundo:

O coração perde a forma

Quando em bola se transforma.

 

Observe o uso reiterativo da vogal “o” como ícone da bola de futebol. E do coração metamorfoseado em bola. A forma do coração se transforma. Ou seja, vai além da forma. A sequência de nove “os” vai de um verso a outro. Como num passe de bola. Como num jogo. O ludismo é a matéria visual e sonora deste jogo. Vê-se e ouve-se o tum-tum do coração e a zoada da plateia em ondas de olas. De ritmos. De significados.

 

Chuva passando

tarde escurecendo...

É tempo de tanajura!

 

O entardecer encerra em si a metáfora da passagem.  Da transição. Nem dia, nem noite. Algo no interregno. Saulo gosta deste tempo indefinido. Ele aparece em muitos de seus haicais, com acepções diversas. Neste, o gerúndio dá continuidade a duas ações. Numa, a ação se processa como etapa para parar ou ir-se (“Chuva passando”). Noutra, o gerúndio aponta para o crescimento da ação (“tarde escurecendo...”). Neste verso, as reticências indiciam o prolongamento indefinido da ação. Por fim, quando se espera o aparecimento da noite, algo surge. De forma inesperada. Dito exclamativamente. E desautomatizando a percepção do leitor: “É tempo de tanajura!”. As tanajuras, além do sentido dicionarizado, podem ser também as mulheres-tanajuras, aquelas de nádegas generosas, à semelhança do poema drummondiano em que um garoto se embola na rede com a lavadeira: “Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava no espaço verde”. Uma lavadeira imensa, de tetas imensas, só pode ser uma mulher-tanajura! O leitor se diverte com Saulo. Haicai e humor. Ah, amor! Ah, humor. Oswald também “dixit”.

Augusto dos Anjos é homenageado em

 

Frondoso tamarindo.

Em seu lugar vazio

verdes lembranças.

 

O tamarindo frondoso foi-se. Mas o lugar da memória guarda-lhe uma geografia singular: a da infância. Os verdes anos de Casimiro de Abreu.  Com quantas intertextualidades se faz um haicai sauliano? Um desafio aos estudiosos da poesia deste poeta de silêncios e cantos serenos. A saudade é imensa, frondosa, velha e amiga como a árvore. Não é à toa que a árvore foi escolhida para figurar como coadjuvante do mundo edênico. Sem ela, nem cobra, nem Eva, nem Adão. Nem memória do pecado. A maldição lançada. O paraíso perdido. E a infância não é este céu-inferno de crueldades e belezas? (Vide Carlos Saura, tão comentado nos anos 70 e 80. Tão esquecido nos anos 2000). O lugar vazio é preenchido pela matéria da vida. Vida que tem raízes na infância. Nos tempos verdes. Nos locais verdes. O eu-lírico sabe disto. Assim, brinca com Casimiro e Augusto. Com a bíblia. Com o cinema. Com a psicanálise. Como se a história fosse um lance de dados do acaso. Não é: ele sabe. Mas quer buscar o não-saber do memorável em aberto.

 

No céu, quantos trovões!!

Gozos espalhafatosos

das nuvens quando cruzam.

 

Claro que o verbo cruzar está explorado em suas acepções de atravessar e de acasalar – ou fazer amor, pra fugir da nuança meramente animalesca. Não há novidade nisto. E a semântica debulhada de “gozos” induz a leitura imediata: a libido está nos céus. No alto. Mas gera trovões. Que são espalhafatosos. Se no céu as forças naturais gozam em estripulias, por que nós, no baixo, na terra, devemos nos conter? Do baixo nasce o alto, nos lembra Bakhtin ao analisar o contexto de François Rabelais. A leitura, de primeira mão, esconde, mais uma vez, outra. Nas entrelinhas, nas entrenuvens, nos entregozos. O eu-lírico diz a que veio: ao novo e simples. Ao novo e refinado. Ao novo e bem-sentido, bem-pensado. Prazeroso.

A poesia de Saulo Mendonça nos leva a muitos tempos e geografias. É preciso estar atento. Desautomatizado. De olhos, mente & coração abertos. Porque o jogo poético sauliano é partida para dois ou mais. Ou um, desde que polissêmico.

Pra encerrar, transcrevo este haicai de olhar pelo avesso. Este desvendar do mistério. Esta alegria alegria brotada do choro da descoberta. Da epifania. Da revelação. Do dentro para fora, heideggeriano:

 

Estalactites.

Lágrimas da terra

quando chora por dentro.

 

Em Saulo Mendonça o haicai nasce da fonte mais pura. Límpida. Translúcida. Da busca da linguagem mais econômica & representativa. Milimetricamente posta no estreito caminho. Da estrofe de apenas três versos. Em filigranas. Numa historicidade poética secular. A poesia de Saulo é paraibana, brasileira e universal. Queiramos ou não. É.

 





 

Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.), organizador e co-autor de "Literatura na Universidade" (ensaios - Idéia Edit.).
E-mail:
amador.ribeiro@uol.com.br

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