O modismo do stand up tende a banalizar o riso e a monopolizar o talento dos atores, mas não poderia ser diferente; historicamente, quando decai a dramaturgia escrita, o ator se sobrepõe. Isso foi a razão da grande commedia dell´arte, durante os séculos XVII e XVIII, no interstício entre Molière e Goldoni (este cristalizou e sepultou o gênero numa forma). Hoje em dia, essa forma de contar piadas em público satiriza a televisão e o cinema, em 99 por cento dos casos, e termina por colocar o teatro em segundo plano, sem que as pessoas percebam. Consequentemente, a intrínseca natureza social do riso fica aprisionada nas citações e referências a formas que nada têm a ver com a tradição do espetáculo – que, em última instância, é o que mantém e manterá o teatro vivo. Teatro é coisa de antes da sociedade industrial, isso jamais pode ser renegado, não se afirme moralmente, mas tecnicamente. Por tal razão, os atores que cuidam adequadamente do tempo cômico rareiam assustadoramente. Resta somente o ímpeto natural e destruidor da derrisão, e são poucos os que transformam a coisa num gesto anarquista consciente; Leo Bassi é um deles.
As famosas assertivas de Henry Bergson sobre o riso viram quimeras teóricas inalcançáveis para os atores: O Estado Brasileiro é o grande promotor da vergonhosa inexistência de escolas para quem não pode pagar aprendizado teatral – e de onde poderia sair a raiz profunda da comicidade. Esta só existe, como a boa cozinha, na estrema necessidade de sobrevivência moral, existencial, corporal. As políticas (?) de inclusão prevêm o teatro não como estética política, mas como ideologia política. O dano pode ser constatado já no presente; grassa uma arte cômica pobre de conteúdo e forma, afogada na insossa sede de matéria vazia.
O cômico clássico poderá sobreviver se pesarmos o valor que se dá, na sociedade contemporânea, à miséria do outro em relação ao que se possui, se é e se aparenta ser. Isso temos de sobra. O que falta é gente que possa equacionar e gramatizar esse substrato cultural. É de se lamentar que a precariedade a que se relega o nosso status profissional obrigue os atores a recorrerem a stand up, monólogo, besteirol, locução comercial e teatro infantilizado (aquele opróbrio cênico que se diz para crianças). Estes últimos merecem uma catilinária – com raras exceções, destruíram quase toda a memória e prática das vozes de rádio, responsáveis pelo imprescindível saber de falar em cena sem afetação “teatral”.
Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana. E-mail: paronidecastro@gmail.com
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