06/08/2005 16:35:00
GOGOL, O NARIZ E OUTROS
Por Jussara Salazar

Haveria certamente um tipo de fascínio pelo nariz rondando a literatura do século XIX.
Isso mesmo, posto que quase nesse mesmo intervalo de tempo, Carlo Collodi (1826-1890) concebeu seu célebre “Pinóquio”, o boneco de madeira que via crescer o nariz quando mentia e curiosamente, Nikolai Gogol (1809-1852) também escreveu o fantástico e bem-humorado conto “O nariz”, onde narra os infortúnios de um homem que acorda e se vê espantosamente sem seu próprio nariz.
Definido anatômicamente como “saliência cuja forma se assemelha a pirâmide de base triangular, situada na parte média do rosto, acima da boca e abaixo da testa, e com funções olfativa e respiratória”, esse interessante órgão é como o olho, símbolo de clarividência, de intuição e sabedoria. Nesse mesmo século XIX, os lapões tiravam primeiro a pele do focinho do urso e o homem que cortava a cabeça do animal colocava-a ao redor de seu rosto.
Curiosidade à parte, no conto “O nariz” Gogol provoca senão o riso uma estranheza que abandona toda lógica da razão narrativa e de interpretação, deslocando os personagens no espaço e no tempo e situando-os naquilo que logo no início ele revela como um fato “extraordinariamente estranho”, ou seja, um barbeiro que perdera o sobrenome, ao acordar dirige-se à sua mulher Prascóvia Óssipovna e lhe pede pão e cebola para o desjejum. Cortado o pão enxerga algo que ele descobre atônito, ser nada mais nada menos que...um nariz em seu prato! Desconfia ter extirpado o famigerado órgão enquanto barbeara no dia anterior um distinto assessor de colegiatura, o major Kovalióv.
“Só o diabo sabe como é que isso aconteceu!”, justifica inúmeras vezes ao longo do texto o mesmo Ivan Iákovlievitch, o barbeiro, aludindo a mais uma outras das entidades recorrentes vivicadas pela atmosfera espiritual pré romântica das proximidades do século XIX, nosso velho e bom conhecido, o diabo – um pouco antes Göethe concebia “Fausto” e seu mefistofélico pacto.
Gogol enxergava esses diabos em suas crises de loucura e angústia. Satírico, político e ácido, critica uma moral de demônios em um estado russo contaminado pela burocracia. Em sua obra a criatura mais comum é capaz da atitude mais diabólica. São simples majores, inspetores ou funcionários públicos que encarnam os papéis mais burlescos e cruéis.
Em “O nariz” movimenta-se na estrutura do texto, ora como um possível narrador oculto ora naquilo que revela-se através de um “eu” e que se redime por vezes dirigindo-se ao leitor pois sente-se “um tanto culpado por não ter falado até agora sobre Ivan Iákolievitch...” Opera assim cortes e digressões no tempo narrativo, ao exemplo de quando interrompe a trama e justifica que “aqui o acontecimento fica completamente encoberto por uma névoa e não se sabe absolutamente nada do que se passou depois...” Também os personagens em alguns momentos saltam fora de todo registro lógico e dirigem-se ao leitor ou aludem à existência de um possível autor, criando um divertido jogo de contraposições dialéticas entre aquele que está dentro ou fora do texto, quem fala e quem escreve.
Ainda no conto, o assessor de colegiatura ou como gostava de ser nominado, o major Kovalióv, acorda e descobre que seu nariz desapareceu (em nenhum momento o autor, desobedecendo a lógica linear, dá conta das razões do desaparecimento) e sai à rua na tentativa de encontrá-lo quando, para sua aflição descobre-o -sim, seu próprio nariz- caminhando apressado e vestido em um “um uniforme bordado em ouro, com uma gola alta, calças de camurça e uma espada ao lado”. Nesse ponto alto a narrativa adquire um contorno absolutamente impossível e cômico -, o major conversa indignado com seu encasacado e imponente nariz e este nega sequer conhecê-lo.
O mesmo desafortunado major Kováliov desespera-se quando, em um local de ar extremamente abafado, “não podia sentir o cheiro, pois se cobria com um lenço e o seu nariz se encontrava Deus sabe aonde...” Por fim quando procura o jornal da cidade com o intuito de publicar um anúncio nos achados e perdidos, depara-se com o respeitável funcionário, que ouve a história e justifica:
- Publicar, é claro, não seria problema, apenas não vejo nenhuma vantagem para o senhor...Entregue isto a alguém que seja hábil na pena e que saiba descrever o assunto como um fenômeno raro na natureza e publique um artiguinho no Abelha do Norte em benefício da juventude...
O texto segue surpreendente e divertido até o inesperado e inusitado final.
Gogol, visionário buscava saber se não haveria um liame secreto entre um lado de sua obra, “entrada no mundo sob o tinir de guizos através de uma obscura portinhola” e interrogava se haveria esse profundo e miraculoso liame entre sua vida e um futuro que avançava para ele, invisível em todas as direções e sem ser percebido por ninguém. Proclamava: “Eis o que nos diz o homem que faz rir os homens".
Nikolai Gogol morreu em fevereiro de 1852. Após sua morte as autoridades imperiais da Rússia interromperam a reimpressão de suas Obras que seriam reeditadas apenas em 1855, depois da morte de Nicolau I. Inspirou a literatura russa do século XIX com sua atitude revolucionária e produziu com sua prosa realista e fantástica, verdadeiras caricaturas satíricas, bizarras e burlescas daquele país em sua época. Seus heróis são paródias deformadas da corrupção social e política - sua alma de humor aliada à uma fina ironia criaram com habilidade genial, um estilo único e inigualável.
Fonte bibliográfica: Contos fantásticos do século XIX escolhidos por Italo Calvino, Companhia das Letras, 2004.
Jussara Salazar é poeta e designer gráfica. Natural de Pernambuco, vive e trabalha em Curitiba desde 1986. Tradutora e colaboradora de periódicos e revistas no Brasil e no exterior, publicou de sua autoria em 1999, "Inscritos da casa de Alice" (Tipografia do Fundo de Ouro Preto), "Baobá", poemas de "Leticia Volpi", (Travessa dos Editores, 2002) e "Natália", (Travessa dos Editores, 2004). Trabalha há alguns anos como editora e com o selo Tigre do Espelho produz livros e publicações. |