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17/08/2009 11:45:00 
Trilogía involuntaria


Por Marcelo Barbão


O mundo das letras hispânicas começa agora a conhecer a incrível obra de Mario Levrero. Infelizmente, algo não tão raro, só depois de morto é que seus livros ganham espaço na mídia. Considerado um “cult”, Levrero faleceu em 2004, deixando uma obra consistente e respeitada pelos poucos que o conheciam.

Eu ouvi falar no Levrero quando publiquei Boca de Lobo de Sergio Chejfec pela Amauta. Como a maioria dos que conheceram o uruguaio antes desse mini-boom que existe agora, foi através de comentários de outros leitores, no meu caso do próprio Chejfec.

As obras, que eram praticamente impossíveis de se encontrar fora do Uruguai, estão sendo publicadas na Argentina e na Espanha, pela editora Mondadori, inclusive em edições de bolso. Foi assim, mas dentro de uma linda caixa que saiu publicada a Trilogía Involuntaria, composta por La Ciudad, París e El lugar – na ordem em que os originais foram escritos.

O nome Involuntaria, por mais estranho que pareça, faz sentido porque só depois de publicada a terceira novela, é que Levrero percebeu que eles compartilhavam uma unidade temática, apesar da distância que as separava (La Ciudad é de 1970, París de 1980 e El Lugar de 1982).

A unidade estava na criação de um lugar fantástico, cidades nesse caso, e na construção de personagens que beiram o psicodélico. Os protagonistas movem-se com base no espanto causado por esse lugar fantástico e pelas pessoas com as quais convivem. Mas falar em protagonista, aqui, esconde que, em todas as novelas, o personagem principal – as três novelas são escritas em primeira pessoa – não consegue entender o que está acontecendo e portanto, não consegue atuar sobre isso. Esse desconhecimento e essa falta de noção do real permeiam todos os textos.

Não há dúvida quais dois escritores influenciaram notadamente esta fase (ou pelo menos estas novelas) de Levrero: Kafka e Lewis Carroll. No entanto, considerado um membro do grupo dos “raros” (no sentido de estranhos) da literatura uruguaia – deve existir algo nesse pequeno país que gere tantos escritores que não podem ser muito bem definidos, como Armonía Sommers, Felisberto Hernández e, num outro nível, Juan Carlos Onetti –, com tendências ao surrealismo e à ficção-científica, Levrero respondia que suas obras eram realistas. Num certo sentido, pode ter razão, se olharmos para Kafka como um autor que retrata o homem perante uma realidade que não consegue entender ou modificar.

Seguindo a ordem cronológica (uma decisão arbitrária minha, já que não existe nenhuma razão para isso, os livros podem ser lidos em qualquer ordem), começamos com La Ciudad. A história de um forasteiro perdido em uma minúscula cidade onde não impera nenhuma lógica formal, onde os “forasteiros” como ele são tratados com desconfiança ou completamente ignorados, parece um desses roteiros de filme de terror (ruim) norte-americano. Mas não há nada mais uruguaio nessa história e isso fica evidente para qualquer pessoa (como eu) que nunca conheceu uma cidade do interior do Uruguai. E, ao contrário desses roteiros ruins, que precisam partir para um fechamento e uma explicação das estranhezas, Levrero não destrói sua narrativa, apontando uma saída fácil.

Em París, o autor dá voos (literalmente) mais na área de uma estranha mescla de ficção científica com surrealismo. O viajante que chega a uma Paris criada como uma narrativa cyberpunk, vivendo sob uma ditadura brutal e impessoal, à beira de uma guerra orwelliana, acaba descobrindo que possui habilidades há muito esquecidas (não vou contar para não quebrar a surpresa) e se envolve com uma espécie de Resistência cujas políticas não ficam muito claras. A própria ditadura contra a qual essa Resistência resiste, só é mostrada pela persistente presença de dois soldados na porta da suposta prisão em que o narrador se encontra. París termina com risos e choros ao mesmo tempo.

El Lugar, o último livro da trilogia, é o melhor dos três. A metáfora do labirinto recorrente é algo constante no inconsciente humano. O medo de ficar preso numa rotina abrumadora e inescapável. Ao ler El Lugar, lembrava-me de um filme pouco conhecido, mas bastante perturbador chamado Cubo. O labirinto de quartos idênticos, com pessoas vivendo sem questionar onde estão, por que estão e o que significa tudo aquilo contrasta com a busca do narrador por explicações ou saídas (ao menos no começo, até desistir aos poucos). Ali também se repetem os personagens estranhos, perdidos e que trazem mais dúvidas do que respostas ao leitor. E, apesar de que nas três novelas, o narrador “escapa” desse pesadelo em que foi levado pelas circunstâncias (será?), ao mesmo tempo descobre que a “realidade aqui fora” não é menos assustadora e menos estranha que nossos piores pesadelos.



    Trilogía Involuntaria - Mario Levrero




 

Marcelo Barbão (ou Barbon na Argentina) é escritor, tradutor e jornalista entre outras atividades (fotógrafo e músico). Publicou o romance Acaricia meu sonho, Amauta, 2007. Foi co-fundador do projeto Amauta Editorial. Agora vive em Buenos Aires. E-mail: marcelobarbao@gmail.com

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