Café Literário Cronópios

Poemas concebidos com pecado
por Amirton Alves dos Santos





 
Coluna:
O MENTIROSO
Maurício Paroni de Castro


Renato Borghi e Nelson Rodrigues, o casamento eternamente feliz
por Maurício Paroni de Castro




Tio Vanja brasileiro
por Maurício Paroni de Castro




Grand Guignol, o gênero degenerado
por Maurício Paroni de Castro




Influenza solitária de palco
por Maurício Paroni de Castro




Ruínas de uma arquitetura teatral em São Paulo
por Maurício Paroni de Castro




O corte da tarja preta
por Maurício Paroni de Castro




O desenho angustioso do limite
por Maurício Paroni de Castro




O velório indecente
por Maurício Paroni de Castro




Satyros, Sons, Furyas
por Maurício Paroni de Castro




Devedores de Pirandello
por Maurício Paroni de Castro




O Aleph, uma vela e um olho
por Maurício Paroni de Castro




A mão do gato
por Maurício Paroni de Castro




Do Filme A Via Láctea -
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O Mentiroso Mergulha em Shakespeare de Verdade
por Maurício Paroni de Castro




Mini-artigo sobre a malvadeza (complementar a “Quando a vida se liberta da obra”)
por Maurício Paroni de Castro







 


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Artur Matuck
03/09/2009 17:44:00 
Grand Guignol, o gênero degenerado


Por Maurício Paroni de Castro
 

O realismo teatral do final do Século XIX degenerou no gênero mais verdadeiro que a ‘verdade' pós-moderna de hoje: o Grand Guignol. Infelizmente não se fala muito nisso.

Guignol era um fantoche criado em Lyon no final do século dezoito. Em pouco tempo, a popularidade alcançada o transformou em sinônimo de teatro de bonecos. Grand Guignol foi o nome escolhido por Max Maurey para batizar o Théatre Sallon de Paris, no ano do fechamento definitivo do Théatre Libre de André Antoine, em 1899. O lugar era a oficina de experimentação de Oscar Métenier, seu colega no Théatre Libre, que defendia a abolição dos limites impostos pelas convenções cênicas, na busca de maior autenticidade da ficção.

Essa era a principal premissa de uma concepção do espaço teatral originada da reorganização hiperrealista das cenas, até hoje difícil de ser conseguida. Os atores eram desvinculados da imposição de postar-se “teatralmente” e agiam como se estivessem totalmente mergulhados na realidade. “Estar em cena” era o mesmo que estar em um quarto, numa sala ou em uma rua. Não mais em uma cenografia que “representava” tais lugares. Paralelamente às inovações estruturadas da recém-inventada direção, os próprios conteúdos das representações progrediam, influenciados pela poética do teatro realista.

As audazes experiências do Théatre Libre de Antoine começaram a ser metabolizadas – ainda que não compreendidas - por um público burguês fascinado com os temas de horror e sexo propostos pelo Guignol. Ali Métenier vai além: explora emoções suscitadas nos expectadores por situações escabrosas de dramas realistas, exageradas ao extremo. Surge a dramaturgia do Grand Guignol como nos chegou até hoje.

Involuntariamente, Métenier havia criado um gênero nascido da poética realista. Situações dramáticas eram levadas a extremas conseqüências, sempre pontuadas por degeneração moral. Depois desta fase inicial passou-se a empregar elementos na insígnia da loucura, de fenômenos espíritas, de experiências paranormais. Eram dramas cruéis e violentos onde se disseminavam depravações, torturas e delitos com predileção pelo horror e pela morbidez. A última fase utilizou temas sádico-eróticos.

Na Itália, o gênero foi introduzido em 1909 por Alfredo Sainati, ator que fundou uma companhia de Grand Guignol que alcançou grande sucesso e foi muito ativa até o seu fim, em 1928. Numa de suas crônicas teatrais no jornal Avanti, em 1916-20, Antonio Gramsci estigmatizou a deriva decadente do Grand Guignol, e criticava as experimentações de Sainati:

"Por que o publico se diverte no Grand Guignol, se a própria natureza humana foge da dor e do sofrimento? Qual a causa disso ser motivo de atração no teatro? Não podemos falar de fruição artística no que diz respeito à criação de fantasmas poéticos exprimidos plasticamente pelo drama. É evidente que a razão da fortuna desse tipo de teatro deve-se inteiramente aos atores [...]. De tragicidade não há nada, além da máscara exterior e do espasmo físico que se tenta comunicar ao espectador, entorpecido com um tremor irresistível.[...] A matéria bruta, qual betume de noticia marrom, organiza-se na elasticidade da personalidade artística [do ator que a interpreta], que sabe comportar-se no modo mais atroz e mais sanguinariamente sugestivo. Assim, o espectador, que vai ao teatro para acanalhar-se e sentir uma tensão nervosa que lhe dê a impressão da vida fictícia do cortiço, fica satisfeito e aplaude".

Com o horror da Segunda Guerra e do Holocausto, o gênero perdeu boa parte de sua eficácia. Diante dos extermínios sistemáticos organizados por Hitler e Stálin (imitados por dezenas líderes políticos no chamado período de Paz do pós-guerra), a sensibilidade popular ao absurdo do assassinato ficou praticamente anulada.

Esse sentimento consegue ser aguçado geralmente pela evocação de lendas urbanas. Procurei aguçá-lo, ainda que na forma de um espetáculo tragicômico que revive o clima pré-expressionista do início do século XX. Trabalhamos neste seguindo os ditames de Tadeusz Kantor. Quando fui seu aluno, ele nos repetia sempre: “a dimensão da vida está muito próxima da dimensão da arte; ambos confundem-se e compenetram-se, dividem um destino comum. A quarta parede não tem sentido porque a necessidade comunicativa da obra teatral reside nela própria; o espetáculo não acontece para alguém, mas na presença de alguém. Atores não podem fingir uma personagem nem representar um texto; devem, eles mesmos agirem com um texto. O drama-vida coincide com a criação do espetáculo-obra de arte.”


A trama de “Com Quem Fica o Coração?”, mais recente espetáculo do Atelier de Manufactura Suspeita, é absolutamente urbana e brasileira. Atualíssima e mais profunda do que aparenta ser, narra as vicissitudes de um casal de fundamentalistas em que a mulher, homossexual latente e reprimida, surpreendida em adultério, é assassinada pelo marido. Este pretende vender os seus órgãos para doar o dinheiro auferido à seita a que pertencem. Serve-se para isso de um cirurgião ateu e degenerado por anos de prazer assassino associado ao lucro. Tudo termina em mortes patéticas, mas o final não se conta: suspense é lei nesse gênero.


Serviço: 
Com quem fica o coração?
ESPAÇO DOS SATYROS 1
Praça Roosevelt, 214
Telefone 3258 6345
Sextas e Sábados às 23:59 - de 14 de Agosto a 26 de Setembro
Preços r$ 10e r$20
espetáculo de humor negro duração 50 minutos

 

Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana.
E-mail: paronidecastro@gmail.com

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