Por Maria José Silveira
De certa forma, somos levados a crer que a arte, como narrativa, nasce do conflito, do sofrimento, das paixões. A vida comum, normalzinha, não rende nada: nem filme, nem teatro, nem mesmo um mini-conto. Mas como a arte – antes de tudo – não tem regras, nem sempre é assim, e de vez em quando alguém vem colocar uma minhoca nessa afirmação. Como, recentemente, o filme “Horas de Verão”, de Olivier Assayas, em cartaz em São Paulo e, creio, em outras capitais. Um filme que trata de pessoas comuns, vivendo problemas normais da maneira mais normal possível.
Se você pretende assisti-lo e não quer saber do que se trata, não continue lendo este texto. Daqui pra frente, é da história que ele conta que vou falar.
Três irmãos, depois da morte da mãe, se reúnem em torno de uma questão que acontece todos os dias em algum lugar: a distribuição de uma herança. No caso, uma – literalmente – bela herança: obras de arte valiosíssimas e uma linda casa no subúrbio de Paris. Os três filhos – profissionais bem sucedidos, com interesses muito diferentes e pouca coisa em comum a não ser o passado familiar – devem decidir o que fazer com o legado da família de classe média intelectualizada francesa.
O que somos levados a esperar de uma situação dessas?
Fosse o filme americano, um banho de sangue, mas levando em conta a contenção francesa, uma homérica dicussão-cabeça mascarando um ódio avassalador, um ardil maquiavélico se montando.
Que nada!
Os diversos interesses se resolvem com uma pequena e passageira tensão entre os irmãos, como sói acontecer na maioria dos casos de herança. Embora possamos até achar que não pois na vida real, como na arte, também acabamos sabendo apenas das “grandes brigas”, do “sangue derramado”: as exceções. Mas é só pensar um pouco para constatar que boa parte dos herdeiros costuma resolver essa questão com um pouco de chuva de verão, se tanto.
No filme tem também a figura da velha empregada da casa, que ajudou a criar os três meninos. O grande drama, então, talvez aconteça por aí, pensamos; mas outra reversão de expectativas nos aguarda. Ela não só recebe, como deveria, um razoável legado em dinheiro da patroa falecida como, ao se despedir da casa que será vendida. os herdeiros lhe dizem para escolher um dos objetos de arte que durante tantos anos ela limpou, lavou, arrumou. (Essa é outra coisa curiosa do filme e talvez a mais fora do comum: os objetos de arte são peças do cotidiano da família usadas normalmente e não preservadas como em um museu). Que a velha e querida empregada escolhesse o que quisesse.
O que você acha que ela escolheu?
O vaso que toda semana ela arrumava para a patroa com as flores do jardim e que, na verdade, não achava nada bonito, e nem de longe imaginava que era uma das peças mais valiosas da casa.
Uh la lá!, nos agitamos na poltrona. Então o vaso será o pivot.
Agitação vã. Sem nenhum frisson, os herdeiros a deixam de bom grado levar o objeto escolhido. Nem quebrar o vaso quebra, quando a velha vai, com seus passinhos medidos, descendo as escadas com ele debaixo do braço. E quando, então, você acha que é o sobrinho motorista - que a levou para se despedir da casa - que vai lhe passar uma rasteira e tomar a peça valiosa (Claro, o jeitão simpático dele nunca enganou ninguém!), ele a trata com a atenciosa gentileza com que um sobrinho deve tratar uma tia querida: toma-a pelo braço e a ajuda a entrar no carro. Ele não quer o dinheiro da tia, não a explora, e nem de longe pensa em ficar com o maldito vaso. Nenhum drama maior nem conflito nessa relação. A família da velha empregada é, tanto quanto a família da patroa, decente.
Sim, elas existem: as pessoas decentes. Você não sabia?
E o filme continua.
Enquanto a questão da venda da casa está sendo fraternalmente resolvida, o filho mais velho é chamado à delegacia: sua filha adolescente tinha sido detida por fumar maconha e outra pequena transgressão da qual nem me lembro mais.
Mas na hora pensei, Ufa!, eis que o drama esperado se avizinha: a jovem nas mãos de policiais inescrupulosos, vem aí um trauma violento, talvez uma extorsão, pai e filha presos, conhecemos bem a polícia francesa!
Que nada outra vez.
O delegado é civilizado e compreensível e razoável - exatamente como uma autoridade deveria ser. Sem agressividade, conversa com o pai, mostra os riscos que a filha corre, e com o aviso amigável de que “Se houver uma próxima vez, teremos que tomar providências”, manda a menina de volta para casa.
Você dirá: Essa não!
Mas, acredite: isso acontece na vida real. Mesmo aqui no Brasil onde a polícia não é famosa nem pela compreensão nem pela civilidade. Não vemos nos cinemas, nem nos jornais, nem na televisão mas, se você duvida - e parece que muito, - faça uma pequena pesquisa com seus amigos pais de filho adolescente e verá que isso acontece, sim.
Pasme-se!
Saindo da delegacia, evidentemente esperamos a discussão feroz que será travada entre filha e pai, como não? Afinal, a menina foi parar na cadeia!
E é verdade que o pai até que tenta dar uma bronca na menina, mas quando ela diz, “Você também fuma, pai!”, ele não tem o que responder a não ser recomendar que tenha mais cuidado para não dar bandeira. Dão risadas, os dois, tão amigos quanto um pai e uma filha nessa fase podem ser.
Já estamos quase no final da história e os netos adolescentes da falecida vão passar um final de semana na casa à venda para fazer uma festa de despedida. Uma grande turma começa a chegar, com muita bebida, maconha, entusiasmo e juventude.
Claro, claro! Vai ser agora, então, o grand finale. Um estupro, uma overdose: alguém vai morrer.
Mas na vida normal, você já foi a alguma festa de jovens, bebida, maconha e entusiasmo, que terminou em tragédia? Se já passou por essa infelicidade, com certeza sabe que foi uma exceção; a maioria das festas de jovem, bebida e entusiasmo acaba apenas em ressaca.
E assim é o fin desse filme civilizado e racional sobre um mundo cordial e pacífico. Talvez um pouco frio demais, talvez os franceses estejam perdendo o afeto ou apego a suas tradições na sociedade globalizada - um dos filhos opta por fazer a vida no Japão e a filha, uma Juliette Binoche quase irreconhecível, pela modernidade americana. Seja como for, o que o filme mostra é um mundo onde as pessoas, em que pese as diferenças sociais, procuram ser decentes e cordiais.
Um mundo que existe próximo a nós, aqui e agora.
Por que chega a ser tão espantoso isso?
Por que ficamos o tempo todo esperando alguma tragédia acontecer?
Por que acabamos sempre esperando acontecimentos incomuns em um filme, um livro, uma peça de teatro? Por que acabamos em geral esperando pela exceção? Somos tão bombardeados com ela que acabamos confundindo-a com a realidade pura e simples?
Ou será que é apenas ela - a exceção – que pode nos dizer alguma coisa sobre o mundo em que vivemos?
Será que somos assim de nascença - e esse voyeurismo mórbido vem de algum instinto primordial, resquício de alguma era feroz - ou é esse mundo pós-moderno nosso que cotidianamente nos forma para esperar sempre o desastre?
Ou será que sou só eu?
Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Foi jornalista e redatora de publicidade.
É formada em antropologia e mestre em Ciências Políticas. Tem romances, contos e livros infanto-juvenis publicados. Nasceu em Goiás. E-mail: mariajosesilveira@terra.com.br