“Eu sou uma pessoa ótima. Quem me vê assim, como estou hoje, pode não se dar conta, mas sou. O próprio pastor vivia me dizendo isso. Cumpro minhas obrigações sem pestanejar desde pequeno. Meu pai vivia batendo em meu irmão mais velho, mas em mim não, nunca precisou. Fui bom filho, bom aluno, bom vizinho, bom funcionário, bom esposo. Seria um bom pai se tivesse tido filho, mas o Senhor não quis. Cheguei a ser voluntário no hospital com o pastor: fazia orações com os doentes, levava aos pobres enfermos a benção de Deus. Sempre fui religioso, e há vários anos, graças ao Senhor, sou evangélico. Orgulho muito dessa minha correção na vida, e o pastor era o primeiro a dizer, “Dorival, você é uma pessoa ótima.” Nunca roubei, jamais praguejei nem maldisse a vida nem desejei o mal do próximo. Ficava sempre no meu canto, fazendo minhas coisas da melhor maneira possível, sem mexer com a vida de ninguém, a não ser para ajudar no que podia. Se via um cego na rua, ajudava. Os idosos também, eu ajudava muito. Os animais. Nunca fiz mal a uma mosca. Via a estrada da minha vida como uma linha reta, seguindo sem desvios, sem buracos. Um asfalto lisinho, sabe?, só que branco. E nunca soube o que era perder o controle até o dia que cheguei em casa e peguei os dois na minha cama. Talvez tenha sido por isso, porque nunca tinha tido raiva nem ódio de ninguém, que não soube como reagir. No meu modo de entender, foi como se eu ficasse cego. Mas não fiz cena nem nada, isso não. Não disse nada, ou disse bem baixinho o que pensei, “Adúltera”. Então fui até a cozinha e peguei a faca afiada que ficava no imã de parede que eu havia achado bacana numa oferta da TV e comprei pra ela. Peguei a faca, uma faca boa que também comprei pra ela, faca especial pra fatiar carne que ela dizia pras vizinhas que nunca tinha visto uma faca tão boa assim. Voltei pro quarto. O fulano já não estava lá. Não fiquei sabendo quem era e não quero saber, já perdoei. Mas ela continuava ali na cama deitada, toda enrolada, rosto coberto, no lençol branco do jogo de roupa de cama que eu tinha comprado pro nosso enxoval. Então foi que me aproximei, ergui alto a faca e enfiei. Como não sabia onde enfiar direito, ela demorou a morrer. Continuou um tempão como que arfando debaixo do lençol que ia se inundando de sangue e sujando também minha calça. E eu ali sentado, olhando aquilo como que sem ver e a única coisa que eu pensava era uma coisa só: “Senhor meu Deus, de que vai me valer agora uma vida inteira de correção?”
Local: cela coletiva do Presídio Masculino de Corumbá, dezembro de 2010
Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Foi jornalista e redatora de publicidade.
É formada em antropologia e mestre em Ciências Políticas. Tem romances, contos e livros infanto-juvenis publicados. Nasceu em Goiás. E-mail: mariajosesilveira@terra.com.br