Café Literário Cronópios

Arpão
por Iara Fernandes





 
Coluna:
FARRA
Amador Ribeiro Neto


Arte e representação em nossa sociedade pluralista e mutante
por Amador Ribeiro Neto




Thomas Mann: oriental, oblíquo e irônico
por Amador Ribeiro Neto




Céu inteiro. O céu acima de Ricardo Aleixo
por Amador Ribeiro Neto




Novo volume de Roteiro da Poesia Brasileira
por Amador Ribeiro Neto




O haicaista paraibano Saulo Mendonça
por Amador Ribeiro Neto




Sobre a palavra
por Amador Ribeiro Neto




Ouvindo a terceira margem
por Amador Ribeiro Neto




A música em 68: os hits e os rapas
por Amador Ribeiro Neto




Poesia Marginal em questão
por Amador Ribeiro Neto




Duas ou três coisas sobre poesia e crítica
por Amador Ribeiro Neto




Jorge Mautner e suas canções homoeróticas
por Amador Ribeiro Neto




Contos homoeróticos de um estreante
por Amador Ribeiro Neto




Cazuza, cronista do Brasil
por Amador Ribeiro Neto




A fera que mora em Chico César
por Amador Ribeiro Neto




Adriana Calcanhoto e a poesia
por Amador Ribeiro Neto







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


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Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
17/12/2009 10:36:00 
Novo volume de Roteiro da Poesia Brasileira


Por Amador Ribeiro Neto





 

        A Global Editora vem publicando uma obra de suma importância para a poesia brasileira. Sob a direção de Edla van Steen, são títulos da série “Roteiro da Poesia Brasileira”.
       
Os volumes, com a escolha de poemas feita por diferentes profissionais, cobrem das “Raízes” (seleção e prefácio de Ivan Teixeira) aos anos 2000 (seleção e prefácio de Marco Lucchesi).
       
Das origens de nossa literatura até o Modernismo, cada volume cobre um movimento literário, a saber: Arcadismo, Romantismo, Parnasianismo, Simbolismo, Pré-Modernismo e Modernismo. A partir dos anos 30, cada década ganha um volume. Este roteiro dá ao leitor a oportunidade de (re)ler poetas e acompanhar o percurso da nossa poesia. Ora avançando, ora recuando em qualidade literária, mas sempre nossa poesia e sua história.
       
Cada título conta com um prefácio redigido pelo organizador do respectivo volume. Os títulos têm sido publicados à medida que ficam prontos, sem a obrigatoriedade de seguir a linha diacrônica, ou seja, sem prender-se à linearidade do tempo histórico. Ao final, teremos a coleção com 15 volumes.
       
Há muito sentíamos falta de uma coleção que pudesse recolher o que há de mais expressivo em nossa poesia. Há os manuais, escolares ou não. Há as antologias que cobrem determinados períodos históricos. Mas permanecia o vazio de uma expressiva coleção que cobrisse, em vários volumes, o que tem sido produzido de mais expressivo em cada movimento literário ou em cada década.
       
Claro que este “Roteiro” traz poetas discutíveis. Inclui quem deveria ficar de fora. E exclui quem deveria estar dentro. É preciso compreender que cada organizador tem um repertório pessoal e profissional que deve ser levado em conta e, acima de tudo, respeitado.
       
Dos organizadores, além dos dois citados, temos Domício Proença Filho, Antonio Carlos Secchin, Sânzio de Azevedo, Lauro Junkes, Alexei Bueno, Walnice Nogueira Galvão, Luciano Rosa, André Sefrin, Pedro Lyra, Afonso Henriques Neto, Ricardo Vieira Lima e Paulo Ferraz.
       
O recente volume lançado traz a poesia de 45 poetas que estrearam na poesia nos anos 2000. Dentre eles destaco Ana Rüsche, Delmo Montenegro, Eduardo Sterzi, Estrela Ruiz Leminsky, Micheliny Verunsky.
       
Roteiro da Poesia Brasileira” não veio para agradar a gregos e baianos, na feliz expressão de José Paulo Paes. Ela sabe que isto é inviável. Veio pra mostrar a cara de novos poetas, ou novos (ou conhecidos) poemas de poetas canonizados.
       
Seu serviço à história da poesia no Brasil é indiscutível. Que seja polêmica. Mas que seja, antes de tudo, lida. Só da leitura derivam critérios sujeitos a discussões fidedignas.
       
Elenco alguns poemas dos poetas citados.




de Ana Rüsche:


minha nossa senhora das flores

gosto que assim:
         
que me leiam por inteira
        
com toda essa metalingüística sacana no canto da boca



contra o céu

          
colinas como elefantes brancos
         
grama molhada
        
a lua bochechuda gargalhando de estourar
        
ah, a bebedeira






de Delmo Montenegro:


         (sem título)
        
cocaína-
               
elton john
        
: apneia-resort
         
homo-
                
Shiatsu
        
: sauna
            
água câncer
        
suor
        
sob
        
suor
        
hokusai
         
song





(sem título)

        
: gonorréia-tv
        
fevereiro
        
februárias
        
feridas abertas
        
de Eduardo Sterzi:




Desaparição

          
The inconceivable idea of the sun
        
Wallace Stevens

        
Sereno, à flor do tempo,
        
recomponho o desejo
        
de estar vivo. Vejo
        
entrar pela janela
        
o mesmo sol de sempre;
        
finjo que não conheço
         
seu calor, sua máscara
         
amarela, hepática.
        
Sei mais da natureza
        
das nuvens, e do vácuo
        
entre as estrelas, negra
        
matéria; no entanto,
        
quando me entrego ao sol,
        
integro-me ao ser sol:
        
narciso mais que cego,
        
narciso cegaluz.




Écloga

          
gravis cantantibus umbra

        
rouxinóis
        
e bem-te-vis

         inútil natureza
         noite (voz que vês)
         - nascondere: nascer -

         garganta miúda
        
canto claro
        
de longínqua beleza

        
a tarde carcome a folhagem

        
o
        
mais-que-perfeito

        
se desfez

         
renascer renascerá
        
talvez

        
no tempo

        
da feroz
        
delicadeza






de Estrela Ruiz Leminsky:


         
luz do sol
         
se esfrega na folha
         
frígida dorme-maria

(sem título)

         
Não querer ser sempre
        
para pra sempre ser
        
isso eu aprendi com o vento
        
Saudade eu tenho de tudo
        
o que a gente vai viver
        
mas ainda não teve tempo






de Micheliny Verunschk:



O livro

           
Havia de encontrar
         
alguma velha ferida
         
e nela, supurando ainda
         
teu rosto:
         
outonos e infernos
         
esquecidos
         
entre páginas amareladas
         
e a dor, essa inútil traça.



Violoncello


         A louca dama, nua e fera
         
deita e luta
        
com o seu músico:
         
que a mantendo
        
por entre as pernas
         vai aprendendo
        
músculo a músculo
        
o gemer denso
        
de madeira rouca
        
a doma intensa
         
o sexo acústico.







 

Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.), organizador e co-autor de "Literatura na Universidade" (ensaios - Idéia Edit.).
E-mail:
amador.ribeiro@uol.com.br

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