Café Literário Cronópios

Mamãe é brega mas é xique
por Artur Gomes





 
Coluna:
FARRA
Amador Ribeiro Neto


Arte e representação em nossa sociedade pluralista e mutante
por Amador Ribeiro Neto




Thomas Mann: oriental, oblíquo e irônico
por Amador Ribeiro Neto




Céu inteiro. O céu acima de Ricardo Aleixo
por Amador Ribeiro Neto




Novo volume de Roteiro da Poesia Brasileira
por Amador Ribeiro Neto




O haicaista paraibano Saulo Mendonça
por Amador Ribeiro Neto




Sobre a palavra
por Amador Ribeiro Neto




Ouvindo a terceira margem
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Duas ou três coisas sobre poesia e crítica
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Contos homoeróticos de um estreante
por Amador Ribeiro Neto




Cazuza, cronista do Brasil
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A fera que mora em Chico César
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Adriana Calcanhoto e a poesia
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Artur Matuck
10/02/2010 12:04:00 
Céu inteiro. O céu acima de Ricardo Aleixo


Por Amador Ribeiro Neto


 

        O ser e o tempo formam o centro borgeano da plaquete Céu Inteiro de Ricardo Aleixo, editada pela tipografia Matias, com tiragem de 220 exemplares.

       
Ricardo é respeitado nome da nossa pouco conhecida, e menos praticada, poesia sonora. E é dono de um rico currículo poético, que o contemplou com a indicação de 2 de seus livros para o vestibular da UFMG.

       
A plaquete vem cercada por muitos cuidados gráficos. A capa cinza chapado é uma caixa encerrada por um cordão de plástico vermelho. As folhas são soltas, numeradas com as 5 vogais rimbaudianas. Ao final, Flávio Vignoli, design gráfico, não se contém e, tomado pela poesia de Ricardo Aleixo, faz o que todo leitor sente vontade de fazer: deixa rolar a poesia nascente da leitura de “Céu Inteiro” e compõe um belo poema tipográfico. O poema, atrevo-me a dizer, pode ser assinado por todo leitor, dado o estado de sentimento semiótico que toma conta de quem o lê.

       
Céu inteiro remete a “céu acima” de Augusto de Campos, poeta considerado por R.A. (e por este colunista) como o mais expressivo poeta vivo de nossa literatura. E o colunista vai mais longe: considera A.C. um dos 5 grandes poetas da literatura brasileira de todos os tempos. (Creio que R.A. pense o mesmo, mas não tenho o aval dele para afirmar esta avaliação de poeta crítico, leitor crítico e crítico leitor). Em ambos os poemas o tempo é um referencial do lugar, do não-lugar e do entrelugar. Enquanto o poema de Augusto corre na esteira da visualidade, o de Ricardo espraia-se numa sucessão de versos logopaicos, quer seja, direcionados para a dimensão centrada e concentrada das ideias.

       
O poeta abre o poema anunciando: “[1] Céu inteiro. Do centro dele, prende o / velho sol, o que viu surgir o primeiro // dos nossos, o último.”. Formado por dísticos, o poema é um reverberar de “as mesmas vinte palavras / girando ao redor do sol”, como falou Cabral acerca de Graciliano.

       
Desperto sem entender se no sonho / sou eu mesmo ou se eu é um outro com // quem cruzei no sonho de ontem (..)”. O labirinto especular e onírico de Borges assenta nestes versos como num mesmo, que é outro tabuleiro de xadrez. As peças se emparelham e polarizam-se dentro de um arco que não é a esperada esfera terrestre, mas a elipse das galáxias. O centro desloca-se a cada (re)leitura e (re)faz o percurso daquilo que se obnubila no claro enigma de “Dito da forma mais clara: / atingimos // não ainda / o fundo, // mas o ponto / a // partir do qual / tudo passará aos saltos, // (...) úmido, para o fundo, / uno.”.

       
A secura cabralina, o repensar bem pesado do primeiro Drummond, o salto da serpente e seu pensar valéryanos levam o leitor a “desertos em forma / de palavras-fogo.” Onde “a luz // nenhuma se entrega.”.

       
A poesia é pergunta que se pergunta. Por isto discuti-la é sempre novidade que permanece novidade, parafraseando Ezra Pound. Diz R.A. “Aqui se pergunta ( / e se perguntará // ) pela pergunta / cem vezes repetida: / duas águas turvas / represadas”. E o poema termina com “lascas de sol” e “vazios sem placas de desvio”. Imagens carregadas de significação: imaginário visionário e semiótico a mais não poder.

       
Vejamos o poema inicial, da página (a):

[1] Céu inteiro. Do centro dele, pende o

velho sol, o que viu surgir o primeiro


dos nossos, o último. Tudo de que me

recordo: um sítio onde o único rumor


que se ouve é o gorjeio monótono dos

grous. Noite de breu, de negrume, liso


de pele de bicho com, é possível, o

mundo inteiro sob seu peso feroz. Seus


duplos. O medo, como é: o vulto oblíquo

de um olho cego entrevisto por dentro.


[2] Desperto sem entender se no sonho

sou eu mesmo ou se eu é um outro com


quem cruzei no sonho de ontem. Me des-

conheço. E isso, o incidente que é des-


conhecer-me, nem é novo – novo como

só o sol pode ser novo, conforme


o ponto de onde você o observe. Do resto,

deslembro. Do tempo ido – porque ido,


só por isso. Do tempo hoje, indo.

Do próximo segundo, fluido.











Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.), organizador e co-autor de "Literatura na Universidade" (ensaios - Idéia Edit.).
E-mail:
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